Entrevista com PJ Pereira: escrita e orixás

Começamos nossa série de entrevistas 2018.

E essa é uma bem especial, alguém que eu a muito queria entrevistar e espero fazê-lo ao vivo no futuro.

Senhoras e senhores (e aos Orixás quem vivem Orum), com vocês, PJ Pereira.

Axé.

Caro PJ Pereira, agradecemos essa entrevista. E queria pedir desculpa, já que tínhamos combinando isso a um tempo.

Se apresente para aqueles filhos perdidos que a luz dos orixás não alcançou ainda. Fale dos seus projetos no cinema e outras áreas.

Sou escritor, autor da série Deuses de Dois Mundos e de A Mãe, a Filha e o Espírito da Santa. Moro na Califórnia, onde trabalho como publicitário, o que me dá a oportunidade de participar de vários projetos de conteúdo, como a série The Beauty Inside, que ganhou um Emmy em inovação, virou série de tv e filme na Ásia e agora vai virar filme em Hollywood; e do documentário Lo and Behold, the reveries of the Connected World, dirigido pelo sensacional Werner Herzog.

Nos conte como foi o início da ideia do Deuses de dois mundos. E a construção dessa obra.

Eu sou escritor. Como muitos, escrevo sobre coisas que me incomodam. Meus três primeiros livros (a série Deuses de Dois Mundos) foram inspirados nas histórias dos orixás porque me dei conta como eu havia sido ensinado a ter medo desse mundo, a fugir dele. Nesse momento, descobri que uma parte da nossa cultura me havia sido negada. Então a história aconteceu. Foi um trabalho divertido, aprendi muito com ele, não só durante a pesquisa, mas também com o confronto direto com o preconceito. Levei dez anos para encontrar uma editora. Eles diziam que esse assunto não venderia. Entrei várias vezes na lista dos best-sellers, incluindo um mês inteiro como o autor de ficção brasileiro mais vendido do país. Uma trajetória bastante meta, eu diria, porque um livro que está o exorcismo do meu próprio preconceito acabou sendo vítima do preconceito também, só para provar mais tarde que o brasileiro tem muito mais interesse sobre suas raízes culturais do que o conservadorismo vem a achar. Uma vitória saborosa.



O livro “A mãe, a filha e o espírito da santa” é spin off de DDM, foi espontâneo a vontade de escrever sobre Pilar da Anunciação ou o apelo dela com os fãs que gerou essa ideia? Quais a diferenças da criação entre esses livros?

Meu próximo livro, A Mãe, a Filha e o Espírito da Santa, nasceu de uma curiosidade. Ao longo da série anterior, a personagem que mais ganhou força foi a vilã, Pilar da Anunciação, que era um retrato do abuso religioso que acontecia no mundo. Quando terminei o terceiro livro da trilogia, fiquei com muita curiosidade de saber de onde veio uma pessoa tão má. Que tipo de vida poderia ter criado um monstro como esse, especialmente porque se tratava de um tipo de personalidade que se encontra em vários países, várias religiões: o predador da fé. Então fui escrever também.

Apesar desse personagem em comum (e mais um que eu não vou contar), os livros são bem diferentes. Em Deuses de Dois Mundos, metade da história é composta a partir da dramatização e da conexão de histórias que o povo de santo ainda conta pelos terreiros do Brasil. Não é uma obra religiosa, mas tem laços fortes com algo que se cultua e prática hoje em dia. Até porque essa era a meta. Já esse último livro eu diria que é mais meu. Houve muita pesquisa para entender o que eu chamo de "Manual do Guru do Mal" - o conjunto de técnicas utilizadas por esses predadores para atrair e capturar rebanhos. Mas a partir desse mapeamento, eu construí a história sozinho, tentando encontrar um traçado de vida que pudesse criar um desses monstros tão sedutores que aprisionam seguidores em todo tipo de religião.

Como é seu processo criativo, onde busca aquela imaginação do dia a dia, que autores te inspiram e tudo mais? 

Eu estou sempre anotando pedaços de histórias. Ideias com premissas que acho que têm potencial. Enquanto estou revisando um trabalho, estou mapeando os principais pontos do próximo. E depois é sentar e escrever, reescrever e reescrever. Não sei se tenho um autor específico que me inspira. A cada livro eu procuro um ou dois que me ajudam a esquentar a musculatura, pelas descrições do cenário, do vocabulário, da linguagem... nesse último livro, por exemplo, como o narrador é um dono de circo com sotaque do Nordeste inteiro, recorri muito ao Suassuna, Sarney (o livro, afinal, começa no Maranhão) e do meu amigo André Laurentino.

Em relação ao processo de trabalho, alguns escritores dividem nosso meio entre os que mapeiam suas histórias e aqueles que sentam e vão escrevendo. Gabriel Garcia Márquez, por exemplo, era dos planejadores. No workshop que dava em Cuba ele dizia que os alunos só poderiam começar a escrever quando conseguissem contar a história em cinco minutos. Já escritores como a Isabel Allende, que mora aqui perto de mim no norte da Califórnia, disse em uma entrevista que ela sabe a história em linhas gerais mas gosta de deixar que os personagens a levem para onde eles querem ir. Eu sou dos que planeja. Passo quase um ano de cada vez rascunhando o outline de cada história, pensando em buracos, problemas, motivações, surpresas... para depois sentar e escrever tudo de uma vez só em poucos meses - idealmente três. Depois começa a fase de revisar e reescrever, que demora mais seis a nove meses, e o livro está pronto. Eu diria que minha primeira passada na história é um download para que eu não enlouqueça com aquelas ideias. Só depois disso, nas versões seguintes é que começo a me preocupar com escrever a história direito, dar vida aos personagens etc. Coisas que eu aprendi e copiei de vários autores de estilos e propostas tão diferentes, mas que escrevem há bem mais tempo do que eu. De Stephen King a Gabriel Garcia Márquez; Chuck Palahniuk a James Patterson.

Como foi a recepção da sua obra entre as religiões de matriz africana e movimentos negros? Houve alguma polemica?

Quando me preparava para o lançamento do meu primeiro livro, essa recepção me preocupava muito. O trabalho iria por água abaixo se o povo de santo rejeitasse a obra. Mas como eu conversei com muita gente durante a pesquisa, antes mesmo dos livros saírem já havia mensagens de apoio. Claro que houve quem não gostasse, por discordar da caracterização de um orixá ou outro, ou por eu estar dando ares de entretenimento aos preceitos de uma religião ainda bem viva. Mas de um modo geral, a maioria recebeu muito bem. Num dos eventos de lançamento, por exemplo, um grupo de afoxé apareceu tocando e cantando, dando voltas na livraria e levando o povo com eles. Foi incrível. Especialmente porque esse grupo era ligado ao movimento Águas de São Paulo, que luta pela liberdade religiosa para os praticantes de religiões afrodescendentes. O Águas de São Paulo, inclusive, me premiou recentemente pela minha contribuição à cultura negra no Brasil. Fiquei muito emocionado com a honraria.

Já o último veio com muito mais polêmica. A começar pelo título. Veja, a história trata de uma mulher, sua filha e o espírito da família, que mora dentro de uma santa. Então o título A mãe, a filha e o espírito da santa é um nome bastante apropriado. Mas muita gente não achou. Gritou blasfêmia, me condenou ao inferno... nesse mundo de hoje, tão cheio de julgamentos públicos em redes sociais, eu fui um alvo fácil para os inquisidores do mundo virtual. Umas cem ou duzentas condenações ao enxofre por dia. E teve ainda o fato de como o livro desnuda o método dos predadores da fé, muita gente se viu ameaçada e saiu para o embate também. É engraçado ter um livro maldito. Até porque ele levanta reações de outros leitores que curtem, na mesma intensidade. Tem muita gente que me disse que a Pilar é o Frank Underwood da fé. (Frank Underwood, para os que pousaram nesse planeta recentemente, é o personagem principal de House of Cards da Netflix, um político tão ruim, que as pessoas adoram assistir.)

Aproveitando, como foi o contato com os fãs? Na época que peguei minha cópia da trilogia, muitos mandavam fotos com um dos olhos com o livro na frente, como surgiu isso?

Com ou sem maldição, toda essa escrita vem sempre de um assunto que me incomoda (preconceito religioso, predadores da fé...) e depois deságua no carinho dos leitores. Entre todos os meus canais de mídias sociais, são cerca de 300.000 seguidores que estão sempre agitando alguma coisa. Foram eles que escolheram as "fotos oficiais" de cada livro, que eles todos repetiam e compartilhavam, por exemplo. Quando chego nessa fase, nessa pororoca de carinho, se eu não estiver com um livro amarrado para começar, eu logo invento um. Porque é bom demais esse contato com os leitores.

Para quando podemos esperar DDM em outras mídias? (cinema, tv etc.) Existe alguma ideia para jogo? Sobre essas adaptações você vai ter algum controle de conteúdo?

Com a necessidade de os canais estrangeiros terem produções brasileiras, a demanda por conteúdo original de sucesso cresceu bastante também. Atualmente, há várias conversas para adaptar a série para TV ou cinema. Elas vêm e voltam. Eu adoraria que acontecesse, mas também estou tentando tomar cuidado para que o que a história representa seja respeitada. E por isso, não tenho pressa. Na hora que tiver que ser, será.

Mas isso não significa controle. Sou a favor da filosofia milenar do cada macaco no seu galho. Eu não sou produtor de shows, e ficar dando pitaco de longe pode atrapalhar. Cada conversa oferece graus diferentes de supervisão, mas eu não quero uma participação de dar ordem nem uma presença superficial. Ou eu trabalharei próximo ao show-runner, ou farei como o Stephen King, que entrega o livro e só vai ver quando ficar pronto. Isso, desde que alguns parâmetros sejam estabelecidos, claro.

Vamos ver no que dá.

Sobre jogos, houve várias conversas, mas nunca foram muito adiante. Estou mais focado nos livros e na produção audiovisual, não por preconceito, mas porque sei que para fazer um jogo do assunto, é preciso muita profundidade (então eu terei que participar de perto para supervisionar esse novo conteúdo).

Alguém de fora procurou você para lançar os livros em outros países?

Alguns deles foram publicados em Portugal. Eu vendi os direitos para alguns países da América Latina e Polônia também. Mas não é algo que eu me movimente muito para conseguir. Esse é um tema muito brasileiro, e acho que só vai se espalhar mais pelo mundo quando houver um apoio audiovisual para ajudar os gringos a imaginarem o que estão lendo.

Momento das perguntas clássicas:

Todo mundo tem um lado nerd.  Quais jogos, séries e livros o seu lado nerd gosta?

Estou meio desatualizado nas atuais discussões sobre as diferenças entre nerds e geeks, mas em todas as escalas que eu vi até hoje, sou bastante os dois. Comecei a carreira programando computadores aos treze anos de idade. Sou muito introvertido, então gosto de histórias longas e cheias de detalhes que me permitam mergulhar fundo e limitar as interações sociais a temas que evitam papinhos superficiais (que eu invejo que sabe ter, eu é que não consigo). Algumas histórias foram especialmente úteis nesse processo, entre elas Star Wars e Lost. Atualmente Game of Thrones e Stranger Things têm mantido meu interesse também, e estou curioso com a alemã Dark.


Joga RPG e qual seu predileto?

Nunca joguei, mas morro de vontade e inveja de quem joga. Parece muito divertido. Só tenho medo de me perder dentro de um desses e nunca mais conseguir sair.

Sobre o mercado editorial nacional. Muitos autores sentem dificuldades em conseguir seu espaço, como foi para vocês? Como foi 2017 para você?

O mercado editorial é difícil no mundo todo. São poucos os escritores que conseguem viver apenas de direitos autorais. Eu tenho sorte de entre um livro e outro, poder exercitar minha musculatura criativa em outras áreas que sustentam minha família e ainda me dão bastante prazer também. Graças a esse apoio financeiro, eu posso escolher os assuntos dos meus livros não de acordo com os temas da moda, mas com o que eu acho que deve ser escrito, ou com o que eu tenho vontade de escrever. Dá trabalho, porque não é qualquer editora que se interessa, mas hoje comecei a criar um nome que abre as portas para conversas.

2017 foi ótimo. Uma delícia de ano. Lançamento de um livro que eu amei escrever, o início de outros projetos interessantes que devo anunciar em breve (ainda sem editora).

O que podemos esperar para 2018?

Não sei o que vocês podem esperar, mas posso dizer pelo que eu torço. Estou com dois trabalhos em andamento. Um livro novo para lançar no Brasil, que não tem nada a ver com religião, mas que se sair deve me manter firme e forte na lista dos malditos. Estou trabalhando nesse junto com uma amiga, o que faz com que o processo seja um pouco diferente, mas estou gostando do rumo. E tem também um outro trabalho que quero tentar para o mercado internacional, que envolvem tradições de um continente distante (não é a África) e os conflitos dessa filosofia com os avanços tecnológicos que estamos para vivenciar. Em alguns meses começo a procurar editoras interessadas em ambos. Cruzem os dedos por mim.



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