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Dicas de Mestre: Mapa, sociedade e literatura!

Ou: se você criou um mundo de fantasia, como a fantasia interfere na rotina dos seres que habitam seu mundo? O mundo de Nordara s...


Ou: se você criou um mundo de fantasia, como a fantasia interfere na rotina dos seres que habitam seu mundo?









O mundo de Nordara surgiu como uma série de rascunhos e adaptações que eu fiz de outros mundos, criados quando eu jogava RPG. Nele há influências de heavy metal, quadrinhos, filmes, videogames e toda uma vasta experiência intelectual de um garoto de quatorze anos.

Pois bem, o tempo passou, os rascunhos foram esquecidos e eu havia começado O Baronato de Shoah – A Canção do Silêncio, quando retomei meus velhos cadernos escolares e decidi aproveitar um elemento ou outro, junto com velhas aventuras há muito esquecidas (jogadas, quase sempre, nas falecidas Merlin e Forbbiden Planet). Estes rascunhos não podiam ser aproveitados em sua totalidade, mas eu sentia que alguma coisa dava pra fazer com eles, que a ideia não era ruim, mas sua execução, sim.

Um pouco mais maduro, passei a me focar em elementos diferentes do meu mundo. Veja bem, no começo havia apenas “a floresta dos elfos”, “as montanhas dos anões”, as cidades dos homens, os subterrâneos dos orcs e as colinas dos halflings e nenhuma influência política ou social destes seres, nenhuma relação além dos velhos clichês “orcs que odeiam elfos que odeiam anões que vivem entocados”. Ameaçando estes povos, havia o “senhor do mal”, que vivia em sua torre, corrompendo uma parte deste mundo enviando tropas infinitas de lacaios para escravizar os reinos. Durante as aventuras isto era o suficiente para divertir os jogadores, afinal de contas, eles eram heróis com a incrível missão de derrotar o vilão e o mundo só estava ali para servir a este propósito: as pessoas que eles encontravam no caminho não passavam de pano de fundo para cumprir seus objetivos, os problemas do mundo giravam em torno de seus problemas pessoais e não havia um elemento sequer que não estivesse ligado a eles ou ao vilão.







Legal para uma aventura ou duas, legal para uma campanha, mas para um romance?

Talvez este seja um dos grandes problemas quando um autor iniciante decide transformar as aventuras de seu grupo de RPG em um romance: ele apenas faz a adaptação de roteiro, sem se preocupar com a coerência interna de seu mundo.

Vamos imaginar o seguinte: na vida real nós enfrentamos preconceito, machismo, racismo e nuances econômicos e culturais a todo o momento, isso contando que vivemos em um mundo habitado apenas por seres humanos e animais selvagens. Agora, que tipo de problemas enfrentaríamos se nosso mundo fosse habitado por elfos, vampiros, orcs, anões ou dragões e Deuses? Quais seriam os rumos da Segunda Guerra Mundial se o Eixo contasse com o apoio de um “senhor do mal” com um exército goblinóide a seu serviço e a única esperança de derrota-lo fosse encontrar um grupo de aventureiros escolhidos pelos deuses criadores dos Aliados? Como os governos do Eixo reagiriam a estas informações? Como os aliados iriam se planejar para o Dia D, sabendo que não havia chances de vencer? Agora, o mais interessante: quais seriam as motivações dos “povos mágicos” para ingressar em determinados exércitos?

Com base neste raciocínio eu formulei o mapa de Nordara e seus povos, sem pensar no romance em si, por que eu não queria que o mundo girasse em torno dos heróis e seus problemas, eu queria que o mundo estivesse vivo, pulsante e dinâmico, que cada reino tivesse seus próprios problemas e dificuldades e que eles soubessem, sim, da história da “Canção do Silêncio”, mas que isto fosse um entre os vários acontecimentos do mundo na época do livro.

Mais tarde eu escreveria contos e um terceiro romance, chamado “Crônicas da Kabalha” que se passava simultaneamente, mas em outra região.

Pensar nas raças também me ajudou bastante com a criação do mundo: elfos precisam odiar anões? Orcs precisam ser criaturas desmioladas e assassinas? Vampiros precisam ser monstros em busca de sangue?

Aos poucos, dividi os reinos e pensei nas raças que os habitam. Os elfos, por exemplo, por serem um povo ligado à floresta e natureza, dificilmente usariam carvão, diesel ou névoa em suas tecnologias, mas e quanto ao sol? E qual seria a sua genética? Os elfos sempre são retratados como seres andrógenos e ligados à natureza, então a saída que eu encontrei para eles foi a seguinte: os elfos não teriam sexo definido, eles eram uma sociedade onde não há “macho e fêmea” e onde os conceitos familiares e sexuais seriam totalmente alienígenas para o resto de Nordara. Esta sociedade também usaria o sol como fonte de energia, evoluindo de maneira economia mais lentamente e se isolando das guerras do Quinto Império e de Latakia.

Agora eu podia expandir ainda mais meu mundo, certo? Por que ao invés do clima steampunk, os elfos seriam baseados no solarpunk (distopia movida a energia solar).







Ao pensar nos elfos, minha mente vagou diretamente para os vampiros: os vampiros teriam nascido sob a proteção dos deuses da noite e da escuridão, eles usariam sua longevidade e superioridade física para dar um golpe de estado no reino de Latakia e derrubar seus regentes humanos. Para garantir sua supremacia os vampiros investiram na tecnologia a diesel e ergueram gigantescas fábricas para produzir seus engenhos e cobrir o sol. Ao mesmo tempo, eles garantem aos moradores do reino proteção e estabilidade financeira, como um dos reinos mais estáveis economicamente e desenvolvidos tecnologicamente. Claro que, para garantir sua alimentação, os vampiros (ou syrians, como são chamados no livro) obrigam os humanos e demais raças que habitam Latakia a um “Tributo de Sangue”, uma doação voluntária a cada seis meses para repor as reservas da aristocracia.

Pense no Canadá com sua estabilidade econômica e desenvolvimento urbano, mas como se o país fosse condenado a um Halloween eterno. E claro, com o ar Dieselpunk de filmes como "Capitão Sky e o mundo do Amanhã" ou "Roketeer".










Inspirado por esta ideia imperialista, passei para o próximo reino, Hissarlik, governado por minotauros militaristas inspirados na sociedade espartana e nos centauros, que seriam filósofos pensadores e inspirados nos atenienses. Ambos, claro, amariam sua pátria acima de todas as coisas e teriam como principal objetivo a expansão de suas terras. Sua tecnologia e economia seria baseada na escravidão, em aparelhos de cordas e impulso animal, mas com estética greco-romana clássica.

Bem vindo ao sandalpunk, a antiguidade distópica com ares mágicos.

Caminhamos mais um pouquinho em nosso mapa, você está me acompanhando? Ótimo.

Chegamos aos orcs e aos anões.





Eles seriam dois povos milenares, que viveram em confronto nos subterrâneos de Nordara, alegando-se filhos dos mesmos deuses e com os mesmos direitos de nascença. A inspiração seriam as guerras judaicas e islâmicas do Oriente Médio e Jerusalém (e Palestina).

Em certo ponto da história um tal de Shoah e seus exércitos humanos aprisionariam um monstro embaixo da terra, um titã chamado Nepl, que seria da onde eles também retiram o combustível para suas máquinas e tecnologias.

O que isso tem a ver com os orcs e os anões?

A guerra deles foi interrompida pelas ações desse tal de Shoah (sim, o Shoah do título do livro), e eles foram obrigados a abandonar parte de seu reino, que ficava em sua maioria no subsolo do Quinto Império. Os orcs sempre foram mal vistos pelo povo da superfície por sua religião em honra aos mortos, aos espíritos e aos antigos seres de Nordara, vítimas de preconceito, tentaram colonizar uma parte de Ulan Bator, mas acabaram derrotados por sua falta de união e escravizados pelos habitantes do reino. Os anões, por outro lado, se tornaram trabalhadores braçais e conquistaram um pedaço de terra em Ulan Bator, para chamarem de lar. Hoje em dia eles negociam com os humanos e investem em fontes de energia além da Névoa ou Nepl, em uma vã tentativa de retomar seu reino subterrâneo, hoje infestado de mutações.

Existem outros reinos em Nordara, como Eliath, o extremo norte gelado; Oranyan, a terra isolada a leste; Nareen Torc Triath, o reino submerso dos tritões e das sereias; Kaz Hirai, o reino anexado pelo Quinto Império e que pertencia às harpias; e, por fim, Mianeh, o reino das fadas (as sidh, duendes, gnomos, os ankosh (meio-fadas) e seres de pura magia, também dominado pelo Quinto Império. Há também Kuronaya, o reino oriental de inspiração japonesa, entrando em guerra civil e se dividindo em três reinos menores, por causa de seus príncipes-herdeiros. Kuronaya, mais tarde, se dividiria entre Taebaek, Koshogatsu e Kuronaya.

Este é um resumo de todas as ideias e conceitos por trás do mundo de Nordara, neles ainda precisamos levar em conta a cultura de cada povo, o racismo, preconceito e machismo. Os elfos sofreriam para entender a sexualidade dualista dos humanos e anões? Os minotauros apoiariam a política expansionista dos syrians (vampiros)? Os povos mágicos se veriam como superiores dos humanos? Qual a religião de um humano comum em um mundo habitado por semideuses com poderes suficientes para rachar uma montanha?

Foi em tudo isso que eu pensei ao construir o mundo de Nordara, onde se passariam as histórias do Baronato de Shoah.

E você, o que pensa quando constrói seu mundo?




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