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Dicas de Mestre: O princípio do princípio

Você não precisa se sentir culpado do fato do seu primeiro romance ser uma mistura de Senhor dos Anéis com Game of Thrones e Tormenta...



Você não precisa se sentir culpado do fato do seu primeiro romance ser uma mistura de Senhor dos Anéis com Game of Thrones e Tormenta. Mas você deve se sentir culpado se depois de anos como autor você não conseguir ouvir sua própria voz dentro dos seus livros.

Você conhece a história: um grande mal ameaça uma terra mágica, para derrotá-lo é necessário encontrar um objeto ou fazer um jornada perigosa que levará os personagens a se descobrirem e vencerem seus problemas pessoais.

Dragonlance, Senhor dos Anéis, Game of Thrones (preste atenção na jornada dos personagens que sobrevivem até a última temporada, principalmente Jon e Daenerys), e boa parte da literatura fantástica orbitam esta ideia. Não há problema nenhum nisso, até Star Wars tem  jornada e a descoberta como motes, a Jornada do Herói é uma construção básica literária que está disponível para qualquer pessoa.

O que falta, muitas vezes, é a voz do autor, sua personalidade colocada na obra. Você já se deparou com livros assim, certo? Um daqueles livros bem chatos, que não passam de uma cópia descarada e não te acrescentam nada.

Tá, mas como fazer para conseguir criar meus cenários e meus romances, se tudo é cópia de tudo? A resposta é bem simples, na verdade: leia. Leia MUITO.

Eu leio todo tipo de literatura, desde O Segredo, até Camus e Sartre, já tive minha época de biografias, de ocultismo, de literatura fantástica, de terror, comédia, drama e até espiritismo. Eu gosto de ler manuais de rpg, mesmo sem tempo para jogar, gosto de ler cartas e coleções de Magic e BoardGames, gosto de ler quadrinhos, mangás e coletâneas.


Se eu tivesse de te dar um conselho, eu diria que para cada livro que você quer escrever deveria ler, ao menos, vinte livros com temas diferentes. Se você quer escrever fantasia, vai ler terror, romance e livros de história, vá buscar suas fontes em livros que tem pouco a ver com o seu tema. Com isso você vai ter referências muito diferentes dos outros autores e seu cérebro vai aprender a cruzar informações que parecem “nada a ver” e tecer sua própria teia do fantástico.

Deixa eu dar o exemplo do meu livro, O BARONATO DE SHOAH e de como ele nasceu como um conto meio torno e se tornou um universo Steampunk.

Quando eu comecei a escrever o primeiro livro da saga “O Baronato de Shoah” a minha ideia era de criar uma literatura que conversasse com o RPG, quadrinhos, Mangás e videogames. Inicialmente eu queria um cenário no melhor estilo da revista “Heavy Metal” ou “A Casta dos Metabarões”.

Meu propósito era contar a jornada do herói mas com pitadas mais adultas. O problema é que no auge da minha arrogância eu também não fazia muita ideia do que significava “ser mais adulto”.

Nas primeiras versões o personagem principal chamava-se Kadriatus e ele estava perseguindo seu maior inimigo em um mundo apocalíptico infestado de monstros. A principal ameaça era a “Corporação HADES”  e sua máquina fazedora de monstros “Eqüidna”. O livro seria narrado através de flashbacks até o ponto onde Kadriatus encontraria seu inimigo e ambos duelariam até a morte.

O conto original não deve ter mais do que sete páginas e acabou se tornando um dos capítulos do livro definitivo (que ficou bem melhor), eu me lembro que, nessa época, o mundo de Nordara estava muito mais próximo aos quadrinhos da extinta Heavy Metal ( vá ler A Casta dos Metabarões e Incal, por favor!) do que do Steampunk propriamente dito. Para ser sincero, quem nomeou O Baronato de Shoah como uma obra do gênero foi o Raul Cândido e o Karl Felipe do Conselho Steampunk de São Paulo.


Sendo um leitor de Tolkien, Martin e Lewis, eu sempre me encantei pelas grandes sagas de fantasia, mas, ao mesmo tempo, eu sentia falta de um pouco de tecnologia nestes mundos. Deve ser por isso que sempre fui apaixonado pela série de videogames “Final Fantasy” e seus similares (lembra do que eu falei sobre buscar referências em outros gêneros? Também vale para outras mídias): ali, caravelas voadoras dividem espaço com computadores, mecanóides bizarros enfrentando magos em suas torres e princesas de reinos mágicos duelam contra exércitos de monstros de bronze. Era isso que eu queria, criar uma série de livros com uma explicação boa para a tecnologia, ao mesmo tempo em que a magia fosse natural para seus habitantes.

Minha primeira decisão foi tornar a magia uma ciência, como a biologia, astronomia e matemática. Claro, os elfos, anões, bardos, clérigos, deuses e orcs ainda estão no mundo de O Baronato de Shoah, eles são parte do ethos da fantasia, mas eu tomei cuidado de reinventá-los, usar a criatividade em suas culturas e retirá-los de seus padrões (vai ter um post para cada raça).

Ao pensar nas raças que habitariam o mundo de Nordara foi que eu comecei a entender que meu livro seria diferente: mais do que a “Batalha contra o senhor do mal” ou “a descoberta do escolhido”, eu queria tratar de assuntos mais delicados, tornar meu livro diferente no panteão da fantasia; que tal falar sobre economia? Alianças políticas? Homossexualidade dos personagens? E o racismo, será que em um mundo cheio de elfos e orcs, os humanos se dividiriam pela cor de suas peles e etnias?

Ou melhor: e se uma nação muito poderosa resolvesse se aliar ao “senhor do mal” visando a exploração dos recursos naturais das nações mais fracas? Quem se posicionaria contra ela? E uma ditadura que é validada pelo povo? Um elfo conseguiria se adaptar à revolução industrial ou seria tratado como os índios do nosso mundo?

Pensando em todas estas questões foi que eu decidi tornar meu cenário “orgânico”, afinal mesmo enquanto a “saga principal” acontecia na trilogia, outras histórias aconteceriam em pontos diferentes, talvez depois, talvez antes, ou até com breves referências (como no universo Marvel, sem o orçamento de U$100 milhões).

Mesmo assim, meu único limite para o que poderia ser feito dentro do meu mundo caberia única e exclusivamente a mim.

Vivemos nas lendas!


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