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O RPG morreu (ou não) e você vai fazer textão sobre isso

Já há muito eu me incomodo com o fanatismo do RPGista.  O RPG. O melhor jogo do mundo, q...



Já há muito eu me incomodo com o fanatismo do RPGista. 

O RPG. O melhor jogo do mundo, que só gente inteligente joga, e que quanto mais você joga, mais inteligente você fica, porque o RPG faz bem pro intelecto, pra criatividade, pra fazer amigos, pra compreender o mundo, pra desinibir, pra fazer café...

RPG é UM apenas, em um mar de gêneros de jogos, tão relevante quanto jogos de ação, jogos de aventura, esportes, etc. O mais bizarro é que quando eu falo "RPG", hoje em dia, eu ainda tenho que especificar que é "RPG de mesa", porque o jogo mais incrível da história não conseguiu sequer segurar a sua própria nomenclatura, que foi roubada pela sua contraparte digital. 

"O quê? Pokémon? Isso não é RPG não! RPG de verdade é o que eu jogo" (frase dita por um milhão de RPGistas só essa semana).

Um jogo difícil de explicar, difícil de ensinar, que demanda tempo, comprometimento, e MUITA habilidade, se é que você quer ser um RPGista de verdade. Aliás o que diabos significa "RPGista" Uma sigla que não significa nada para a gente em português, e que os caras colocam um sufixo qualquer e pronto, nasce uma categoria nova de ser humano. Nem jogador de futebol a gente usa futebolista, mas a galera precisa de um termo especial, "porque RPG não é um jogo qualquer".

É só um qualquer zé mané fazer um comentário em qualquer área pública criticando um ou outro aspecto do "mercado do RPG" que TODO MUNDO do "mercado do RPG" precisa tecer um comentário defendendo o melhor jogo do mundo. As maiores empresas, os maiores autores, todo mundo envolvido na imprensa, publicidade, divulgação em geral... Todo mundo SEMPRE tem que se unir à legião e fazer o seu comentário super necessário. Normalmente isso depende da relevância do comentário que começou tudo, porque semanalmente os MESMOS assuntos voltam a incomodar e provocar a mesma reação. 


E como é fácil chatear a delicada teia do "mercado do RPG"... nem precisa desse textão todo. Mas por quê o melhor jogo da história sempre precisa dessa legião para vir defendê-lo, sempre que alguém ousa questioná-lo? Só eu que detecto algo muito errado aqui?

O pior é que quando você discute RPG, você não está discutindo técnicas de contação de histórias, dinâmicas de criatividade colaborativa, narrativas compartilhadas... não, não, não. Quando se discute RPG, se discute UM jogo, e não um gênero. Se discute a estruturinha engessada, criada lá nos anos 70, de um narrador contando a historinha para três ou quatro jogadores, que interpretam seus personagens tipo um teatrinho de improviso. E SÓ! 

Principalmente para quem trabalha com game design (e não "RPG design"), dá pra perceber o quão difícil é ter qualquer discussão que fuja disso, ou ainda lidar com a crítica dos "eu jogo RPG há mais de vinte e cinco anos e sou autoridade no assunto". 

O "mercado de RPG", na maior parte das vezes, me parece mais uma organização de fãs do que de profissionais, mas muito mais orgulhosos de seu fanatismo do que do progresso do próprio mercado. Se você escreve RPG, você provavelmente apenas adapta suas histórias para o mesmo jogo que jogou a vida inteira. NADA de game design envolvido. 

Gente muito talentosa, habilidosa, com conhecimentos avançados em publicação editorial, diagramação, publicidade, artistas incríveis tanto de texto quanto imagem... e quase nenhum desenvolvedor de jogos. Todos preocupados apenas oferecer aquela experiência que ele teve, como jogador, para outra pessoa, e não em criar uma experiência nova. Enquanto todas as outras áreas de design de jogos se reinventam a cada dia, os defensores do melhor jogo do mundo se orgulham da sua postura conservadora e batem o pé para defender seu hobby.

Essa minha opinião não é exclusiva e nem é nova, mas conforme o "mercado do RPG" volta a crescer e ganhar força, mais pessoas voltam a propagar esse raciocínio ufanista que não trás NADA de bom.

"Ah, Encho, mas cada um faz o que quiser, joga o que quiser". 

Joga. Manda bala. Mas eu trabalho criando jogos. Um mercado de jogos. As redes sociais trazem uma ilusão bonita de que há um super mercado de RPG, cheio de gente desembolando e criando, e fazendo, e acontecendo, enquanto afunda num nicho cada vez mais profundo.

O vinil está tão em alta quanto o RPG.

Texto publicado originalmente por Encho Chagas, game designer, no facebook. Reproduzido no RPG Vale com a permissão do autor.




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