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Entre a cruz e a espada: o Covil Delas... ou dele?

Não é novidade nenhuma que recentemente rolou uma confusão no mundo do RPG sobre a participaç...



Não é novidade nenhuma que recentemente rolou uma confusão no mundo do RPG sobre a participação de um homem na organização de um evento voltado para as meninas. Mas... o que de fato aconteceu? 

Tudo começou com a organização de um evento chamado Covil Delas, que surgiu dentro do já conhecido Covil do RPG, para se tornar um evento voltado para as mulheres. Para entender melhor quem está envolvido nisso tudo, fomos atrás dos principais organizadores para tirar a história a limpo.

Então vem com a gente entender essa história!

O que é o Covil Delas?


O Covil Delas é uma criação da Camila Gouveia, que queria criar um evento feito por meninas e para meninas. Por isso, a Camila reuniu diversas pessoas para ajudar na organização desse evento - incluindo palestrantes, narradores, facilitadores de boardgames e várias outras atrações que irão rolar.

E qual foi o problema?


O problema começou quando algumas pessoas acusaram o Fernando Machado, que participou da organização do evento, de querer se intrometer na organização de evento que deveria ser feito apenas por mulheres. A confusão se espalhou no facebook e culminou em uma postagem em uma página que visa divulgar o machismo no mundo geek, acusando o Fernando de querer usar as mulheres como escada - e dizendo que as meninas da organização não gostaram e chamaram a atenção dele.




Quem é esse tal Fernando?


Participante do Covil do RPG, o Fernando recebeu um convite de um dos diretores do Dengai Geek para estar presente no evento, que teria como tema "Lute como uma mulher". Com esse convite, ele viu a oportunidade de inserir o Covil Delas em um evento e levou a proposta para a Camila Gouveia, que está na frente do Covil Delas.

Porém, organizar um evento não é coisa fácil, não é? Por isso, a Camila pediu um apoio para o Fernando, que trabalhou em conjunto com as meninas para reunir participantes e ajudar a organizar o evento, uma vez que ele já possuía experiência no assunto.

O Fernando só teve voz no grupo para nos deixar informadas em relação ao espaço do Dengai, aos contatos que ainda não tínhamos, esses por menores. Mas as pessoas que criticaram já não estavam por perto para ver tudo acontecendo e gerou esse mal entendido. (Camila Gouveia, Líder do Covil Delas)

Fim da participação do Fernando.

Com a palavra, as organizadoras:


Para entender melhor como essa confusão aconteceu, reunimos no facebook a Camila Gouveia, o Fernando Machado e as meninas da organização do evento para que respondessem algumas perguntas sobre o ocorrido. Olha só!

RPG Vale: Camila, como você é uma das responsáveis por essa organização. Você pode confirmar se houve alguém se manisfestando contra a participação do Fernando? E você, Fernando, ficou sabendo de alguma coisa?

Camila Gouveia: Em momento algum, como já disse acima, das pessoas que questionaram ou acharam ruim sua participação, nunca chegaram no grupo da organização e falaram que estavam insatisfeitas com a presença deles, apenas me foi passado que elas não teriam como ajudar por motivos delas. Só fiquei sabendo desse questionamento, depois que uma delas colocou em um post dizendo que o evento era legal porém era desconfortável ver um homem na organização. O que me surpreendeu, já que essa mesma pessoa se mostrou antes muito disponível para ajudar, nos dando dicas e elogiando nossas ideias.

Fernando Machado: As meninas chegaram a ser adicionadas no chat por uma outra menina, e lá elas não mostraram nenhuma insatisfação com a minha presença. Depois, algumas alegaram falta de tempo para participar e foram tiradas do chat. Depois disso, apenas a uma questionou publicamente minha presença e todas as meninas da organização discordaram dos questionamentos dela.

RPG Vale: A página Machistas do Mundo Geek diz que as organizadoras do evento deram um toque no Fernando. Como organizadoras do evento, alguma de vocês se incomodou com a presença do Fernando apoiando vocês?


Arusha Oliveira: O Fernando é nosso amigo e muito estimado. As colaborações dele, dicas, idéias, foram ótimas. Recebemos dicas e idéias de várias pessoas e, íamos julgando o que era bom ou não. Claro que, a frente, iam as nossas. Porque também sabemos fazer as coisas, ou seja, "manjamos dos paranauês". Eu sou organizadora de  eventos desse segmento desde 2001. Cheguei a organizar de 8 a 11 eventos por ano.

Thaís Alves: Uma menina chegou no nosso grupo incentivando essa ideia de que o Fernando não poderia ajudar! Porém, como explicamos, o Fernando era uma ponte para apresentar todas as meninas. Ele, em momento nenhum, demonstrou que queria tomar a frente! Em nenhum momento mudou nossa ideia e a menina em questão está ciente disso! Porém, chegou em um grupo no qual não se deram ao trabalho de se informar com a organização e disseram que a gente estava incomodada com isso.


Mas será que é verdade?


As acusações da página parecem não bater com a história contada pelas organizadoras. Mas seria injusto procurar ouvir apenas um lado da história, correto? 

Por isso, eu fui pessoalmente pedir a ajuda da página Machistas do Mundo Geek e de uma das meninas que se opôs ao Fernando participando da organização do evento e que prefere não revelar o seu nome (afinal, sabemos muito bem que ameaças e represálias são coisa séria e é o que mais tem por aí), para que elas pudessem me responder algumas perguntas ou me apontar pessoas que pudessem mostrar o outro lado da história.

RPG Vale: Por que a presença de um homem (seja quem for) na organização de um evento te deixa desconfortável?

XXX: Se um cara quer tanto ajudar, se quer tanto equidade, bem, qual o problema em ser apenas um colaborador? E veja, eu não "sou contra". Cada grupo faz o que quiser. Eu só fico desconfortável e prefiro não tomar parte e não apoiar.


RPG Vale: Segundo a organização do evento, a participação dele se deu a pedido das meninas e ele em momento nenhum era líder, ele estava apenas ajudando no que elas pediram. Isso não seria meramente colaborar com um pedido das mulheres?

XXX: Se ele era só colaborador, por que criou o evento? Por que, quando criticado, não simplesmente informou isso, continuou no debate de boa? Por que ir numa página misógina, que até outro dia estava inventando histórias sobre mulheres, para reclamar? Veja, não é a treta em si a questão, não é a crítica, mas a forma como ele agiu DEPOIS dela.

Quando questionado, Fernando alega que criou o evento meramente porque ele é o administrador do grupo Covil do RPG e, desse modo, poderia convidar automaticamente todos do grupo.

Infelizmente até a data de postagem dessa matéria a página Machistas do Mundo Geek ainda não havia respondido ao convite para falar sobre o assunto.

Vamos falar mais sobre isso?


Uma grande confusão?

De todas as pessoas que eu tive a oportunidade de conversar, nenhuma parecia ser má pessoa ou possuir más intenções. Muito pelo contrário, eu particularmente gostei muito de conversar com todos - não que o meu julgamento de valor seja imune a erros, claro. Presenciei pessoas com opiniões fortes e diferentes, que poderiam resolver tudo pessoalmente - ou meramente seguir caminhos opostos sem problemas. E, até certo ponto, foi exatamente isso o que fizeram.

Porém, o anseio por mudanças que nos contagia cada vez mais não pode se tornar uma desculpa para ataques pessoais meramente por termos opiniões divergentes. 

Ver um grupo pintar um alvo na cabeça de alguém pode não ser motivo o suficiente para se disparar nossas armas. Rotulações, imagens apelativas e neologismos de internet não são substitutos para a lógica argumentativa que deve estar presente em todas as acusações. Caso contrário, estamos apenas transformando um debate/acusação extremamente importante em um mera caricatura inconsequente e míope daquilo que realmente deveria ser.

Oras, a argumentação com base na lógica, que libertou a mentalidade ocidental do fundamentalismo, não pode ser deixada de lado em momento algum. Nas palavras de Julie Bindel, escritora e líder feminista, co-fundadora do Justice for Women:

Vamos ouvir os argumentos defendidos por aqueles de quem discordamos, para que possamos expandir nosso conhecimento e demonstrar uma resistência racional. Corremos o risco de fazer da censura a reposta padrão para qualquer opinião que nos ofenda.



Assim como em uma partida de RPG, precisamos manter os pés no chão e pensar antes de atacar um inimigo. Será que ele é mesmo o inimigo? Estamos combatendo o bom combate ou esquecemos da justiça e  caímos vítimas do nosso ego em uma busca infrutífera por vingança?

É importante ter espaço para a denúncia? Claro que é. As vias legais disponíveis - delegacia, disque-denúncia e acusações penais/civis - estão aí para isso. Criar uma página no facebook para acusar de modo irresponsável e sem direito de resposta não é um espaço seguro para denúncias, é meramente um local para praticar vingança.

A crucificação em praça pública no território virtual agora é travestida do escárnio. Expôr nossos inimigos ao ridículo é uma tática tão velha quanto o tempo. Mas em um mundo tão cheio de ódio, será realmente válido levantar a bandeira da guerra? Enquanto a busca pela cabeça de inimigos for tão justificável quanto a luta por direitos, estaremos jogando cada vez mais lenha na fogueira que tentamos apagar.

Já dizia Pierre Vergniaud, vítima da guilhotina na Revolução Francesa: A revolução é como Cronos: devora seus próprios filhos.

Cheers!
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