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Lugares Fantásticos para o Mundo das Trevas (I)

O artigo abaixo é uma fonte de idéias para aventuras de exploração em busca de lugares lend...



O artigo abaixo é uma fonte de idéias para aventuras de exploração em busca de lugares lendários no Brasil.
Como sugestão, os personagens-jogadores precisam encontrar alguém que, eles descobrem, estava pesquisando sobre essas cidades imaginárias. O artigo pode ser dividido em várias partes (para sugerir fontes diferentes), com alguns trechos destacados, desenhos e anotações manuscritas, para sugerir as descobertas do pesquisador.

"Em busca das cidades perdidas"

"Em meio à densa floresta tropical, alguns homens caminham fatigados. São conquistadores europeus em busca de uma cidade de ouro. Sem mantimentos, sua expedição há muito foi atacada por índios selvagens e pelas intempéries da natureza. Todos estão certos de que o seu objetivo, o Eldorado, não deve estar distante. À noite, visões e pesadelos os aproximam desse local. De dia, sob o sol escaldante das regiões equatoriais, acreditam estar vendo as torres brilhantes da cidadela dourada, mas ao se aproximarem, tal como uma miragem, ela se dilui no interior da selva.”

É com essa descrição, digna dos melhores romances de aventura, que o historiador paranaense Johnni Langer inicia sua tese As Cidades Imaginárias do Brasil, um estudo pioneiro sobre as lendárias civilizações perdidas que, durante séculos, atiçaram a imaginação e a ganância de obstinados exploradores em busca de enriquecimento e aventura.

Sem correspondência com a realidade geográfica, estes paraísos construídos em ouro, prata e pedras preciosas – onde também se supunha florescer sociedades perfeitas, livres do pecado original – jamais foram encontrados.

“O mito destas misteriosas e ricas cidades, ocultas no coração da selva, teve grande repercussão nos séculos 16 e 17, durante a conquista espanhola da América”, explica Langer. “Mais tarde, a lenda se difundiu também entre os colonizadores portugueses, em especial entre os bandeirantes, os desbravadores do sertão brasileiro. E chegou até o século 20, seduzindo exploradores como o coronel Percy Harrisson Fawcett, que se embrenhou na selva do Xingu atrás de uma cidade perdida, supostamente remanescente da antiga Atlântida, e nunca mais foi visto com vida”.

Cidades Misteriosas, que mudam de lugar

Para falar das cidades imaginárias brasileiras, Langer começa pelo mito do Eldorado, o paraíso resplandecente de ouro e prata, a princípio localizado no interior da Colômbia, que motivou dezenas de expedições de busca à época da descoberta do Novo Mundo. E há duas razões para isso. A primeira delas é o fato de o Eldorado ter servido de matriz para todas as cidades fantasiosas que surgiram depois, seja no Brasil, seja em outros países americanos situados ao longo da linha do Equador. A outra, é a sua localização instável: o império foi, aos poucos, sendo transferido do território colombiano para a Venezuela, depois para as Guianas, até chegar á impenetrável floresta amazônica brasileira. "Por isso, o Eldorado tem de ser incluído entre as cidades fictícias do Brasil", afirma Langer. "A mobilidade geográfica é uma característica básica de todas as civilizações imaginárias. Uma vez que não eram encontradas em determinado local, acabavam imediatamente transferidas para outro lugar inexplorado. O mito do Eldorado sobreviveu, assim, de sucessivas reformulações.

Um príncipe indígena banha-se com ouro em pó

Como toda boa lenda, suas origens são incertas. Supõe-se que tenha surgido em torno de 1530, quando o conquistador espanhol Diego de Ordaz foi informado sobre a existência de um certo País de Meta, pródigo em ouro e pedras preciosas, supostamente situado à beira de um rio de mesmo nome no interior colombiano. Com o tempo, o fabuloso país transformou-se no Eldorado, nome derivado da expressão espanhola Província del Dorado, que se referia a um mítico príncipe indígena que cobria seu corpo com pó de ouro e, por isso, era chamado de el dorado (o dourado). Até hoje, os historiadores se dividem quanto à razões que levaram ao aparecimento do mito. Uns acreditam que a lenda foi inventada pelos indígenas para enganar os conquistadores espanhóis. Outros defendem o oposto: os espanhóis teriam engendrado o mito para ocultar - e até justificar - o massacre sistemático imposto aos impérios inca e asteca, e a ávida apropriação de seus tesouros. "Ambas as suposições são incompletas", argumenta Langer. "É preciso levar em conta os aspectos literários do mito, existentes antes mesmo da descoberta do continente americano, e suas influências no imaginário daquela época."

A primeira narrativa por escrito feita sobre o Eldorad surgiu em 1586, num manuscrito de autoria de Johannes Martinez, mestre de munições de Diego de Ordaz. Abandonado na selva sob suspeita de traição, Martinez reapareceu anos depois contando sua aventura. Segundo ele, teria sido conduzido por índios à cidade de Manoa  (o nome indígena do Eldorado), circundada por montanhas de sal, ouro e prata. Seu relato centraliza-se na descrição do palácio do imperador, com suas imensas colunas de alabastro simetricamente alinhadas, a maior delas sustentando uma enorme lua de prata. Na base desta coluna, dois leões vivos permaneciam presos por correntes de ouro maciço. Apesar destas fantásticas imagens, o relato mais conhecido sobre o Eldorado acabou sendo o do corsário inglês Walter Raleigh, que realizou uma expedição com o propósito de encontrar o Eldorado na floresta amazônica. “Embora sua busca tenha sido infrutífera, publicou, em 1596, um livro com a descrição do rico império”, conta Langer. “Apesar de fantasiosas, suas informações serviram de referência para as representações cartográficas durante dois séculos”. Mais cuidadoso, Raleigh nunca chegou a afirmar que esteve em Manoa, mas que obteve informações confiáveis sobre os habitantes locais: as famosas amazonas, mulheres guerreiras, e seres sem cabeça, os ewaipanoma.

Mais tarde, o mito do Eldorado, em uma das suas múltiplas metamorfoses, fundiu-se à cultura peruana, dando origem ao reino imaginário de Paititi. Segundo a lenda, ele seria governado pelo último imperador inca que, levando seus súditos e, obviamente, seus tesouros, escapou da fúria de Cortez refugiando-se em algum ponto inacessível dos Andes.

Ao contrário dos espanhóis, o colonizador português foi muito mais comedido em relação às descrições de cidades fantásticas. A cartografia portuguesa da época, mais realista, sequer menciona localidades como Manoa-Eldorado, o que não significa que desacreditassem completamente delas. “Dezenas de expedições de bandeirantes foram realizadas na segunda metade do século 18, com o objetivo explícito de alcançar o Eldorado”, assegura Langer. “Mas nenhuma delas deixou registro disso para a história.”

Um dos raríssimos relatos de cidades fabulosas presentes no imaginário português foi feito em 1754, por bandeirantes paulistas chefiados pelo capitão João da Silva Guimarães, que menciona num manuscrito a descoberta de uma certa Cidade Abandonada em pleno sertão da Bahia. Segundo o documento, publicado em 1839, no primeiro volume da revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e hoje arquivado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, a cidade estaria situada num imenso vale, cercado por altas montanhas de cristal reluzente.

Trechos do manuscrito do bandeirante João Guimarães, datado de 1754

“Depois de uma larga e importuna peregrinação, incitados da insaciável cobiça de ouro, e quase perdidos em muitos annos por este vastíssimo sertão, descobrimos uma cordilheira de montes tão elevados, que pareciam chegavam a região etherea, e que serviam de throno ao vento, às mesmas estrellas; o luzimento que de longee se admirava, principalmente quando o sol fazia impressão no crystal de que era composta, formando uma vista tão grande e agradável, que ninguem daquelles reflexos podia afastar os olhos; (...) não achamos outro caminho, senão o único que tem a grande povoação, cuja entrada é por três arcos de grande altura, o do meio é maior e os dois dos lados são mais pequenos: sobre o grande e principal divisamos letras que não se puderam copiar pela grande altura, sendo este um dos signaes evidentes das povoações. (...) Corremos com bastante pavor algumas casas, em nenhuma achamos vestígios de alfaias, nem moveis que pudessemos pelo uso e trato conhecer a qualidade dos naturaes; as casas são todas escuras no interior e apenas têm uma escassa luz e como são abobadadas, resonavam os echos dos que falavam e as mesmas vozes aterrorizavam.”

Os botocudos garantem: o paraíso existe

Depois de ultrapassarem o portal de entrada, formado portrês grandes arcos, Guimarães e seus homens depararam com as ruínas de uma cidadecuja descrição arquitetônica aproxima-se do estilo romano clássico. “É bemprovável que o relato do bandeirante tenha sofrido influência de descrições dasruínas de Pompéia e Herculano, na Itália, escavadas poucos anos antes”, supõeLanger. Na época, a “descoberta” dos bandeirantes repercutiu no interior dosEstados de Minas Gerais e Bahia, gerando diversas expedições de busca e,principalmente, muitas superstições.

Quase dois séculos depois, em 1921, o lendário exploradoringlês Percy Harrison Fawcett fez, com a autorização do governo brasileiro, suaexpedição em busca da Cidade Abandonada da Bahia. Examinou o documento dosbandeirantes na Biblioteca Nacional e descobriu nele pistas preciosas de umacivilização milenar. Embora sua expedição não encontrasse o menor vestígio dolocal, a convicção de Fawcett voltou reforçada pelas informações dos índiosaimorés e botocudos, que garantiram existir na região uma cidade com casas detelhados de ouro.

Procurando por Z, a cidade do Mato Grosso

O explorador voltou à carga em 1925, desta vez em busca da Cidade Abandonada do Mato Grosso, denominada por ele de Z, onde supunha encontrar vestígios de uma colônia remanescente de Atlântida, a cidade mítica submersa após um terremoto. Já em 1596, nesta mesma região, dizia-se existir o Reino de Gran Moxo, mais uma das derivações do Eldorado, rico em edificações e objetos de ouro e prata. Desta vez porém, Fawcett veio acompanhado de seu filho Jack, de 25 anos, e de um amigo do rapaz, Raleigh Rimell, todos misteriosamente desaparecidos na selva.

O próprio Fawcett, a partir de então, transformou-se em lenda, que acabou inspirando o escritor Rob MacGregor a escrever as novelas de Indiana Jones. Estes, por sua vez, viraram filme nas mãos de Steven Spielberg, com Harrison Ford no papel-título. Em sua última comunicação com o mundo civilizado, datada de 29 de maio de 1925, ele registrou sua posição geográfica como próxima do rio Culuene, no Xingu, a 12 graus e 45 minutos, latitude sul. Acontece, porém, como asseguram alguns estudiosos, que o explorador costumava dar pistas falsas, para evitar ser seguido em sua busca da Cidade Abandonada, o que dá ao caso mais margem para especulações e mistério. Anos depois, interpelando os índios calapaio no interior do Xingu, o sertanista Orlando Villas Boas conseguiu extrair deles a confissão de que tinham assassinado os “ingueresi”. Levaram-no até um braço Culuene, conhecido como a Lagoa Verde, e ali desenterraram uma ossada que atribuíram a Fawcett. Examinada pela Royal Anthropological Institute de Londres, e também pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro, não foi identificada como sendo a do inglês. O mistério permanece até hoje. Os próprios familiares de Fawcett preferem silenciar a respeito. Há poucos anos, pensou-se em submeter os ossos a testes de DNA, o que traria novas luzes ao caso, mas a recusa de parentes em ceder amostras de sangue para a comparação novamente empurrou a história para o território do inexplicado.

Apenas um mês após o desaparecimento enigmático, a revista francesa Science et Vie publicou um artigo, assinado pelo pesquisador George Lynch, onde se afirmava que a origem de todas as civilizações ocidentais era a selva do Mato Grosso. “Esta é uma prova de que o academismo não refutava a aventura de Fawcett, ao contrário dos arqueólogos brasileiros da época”, pondera Langer.

Além do relato dos bandeirantes sobre a cidade perdida da Bahia, outra das raras descrições do gênero é a de Axuí, cidade encantada do interior do Maranhão, datada do final do século 18. Suas ruas, igrejas e palácios de ouro despertaram o interesse do governador local, que para conquistá-la organizou um exército de 200 soldados. Voltaram de armas depostas e mãos abanando. “Este é mais um exemplo de sobrevivência de elementos clássicos das cidades fantásticas do início da conquista, onde riquezas fenomenais e arquitetura européia se misturam com traços da cultura indígena”, observa Langer.

A eterna busca das origens da humanidade

Dezenas de outras cidades nascidas do sonho de conquistadores e aventureiros tiveram seus momentos de glória em diversas regiões do país antes de desvanecerem no ar para sempre, tais como Apuarema, na Bahia, Maiandeua, no Pará, ou Sapucaia-oroca, no Amazonas. Duas das últimas expedições que saíram em busca de cidades que nunca existiram foram organizadas pelo arqueólogo francês Marcel Homet, do Museu do Homem da África do Central, a primeira, em 1949, pelo interior da Amazônia e, a segunda, em 1958, pelo Mato Grosso. “O mito das cidades imaginárias está estruturado no mito primordial do Paraíso Perdido”, conclui Langer. “No fundo, o que todos esses exploradores estavam procurando eram as origens da humanidade. Quando se embrenhavam pela selva brasileira, tentavam resgatar, mesmo que inconscientemente, um tempo perdido que remonta ao início da aventura dos homens e que se supunha de inocência e felicidade.

Sugestões de leitura:
As cidades imaginárias do Brasil, Johnni Langer, Secretaria de Estado da Cultura do Paraná.
Esqueleto na lagoa verde, Antonio Callado, Editora Paz e Terra.

"Em busca das cidades perdidas" - artigo de Cláudio Fragata Lopes, publicado na revista Globo Ciência em junho de 1998.

Site de origem da imagem: http://helmuttt.deviantart.com/art/Tribal-Elf-178421374






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