rpgvale
1599924783602205
Loading...

Explorando o RPG com as formas dramática, lírica e épica

Mesas de RPG quase sempre são compostas pela cena clássica, um mestre ou narrador com escudo con...


Mesas de RPG quase sempre são compostas pela cena clássica, um mestre ou narrador com escudo contando histórias, dados e fichas para testar as habilidades dos jogadores e eles dialogando o tempo todo (mesmo quando não deviam),  anunciando suas escolhas que farão a aventura prosseguir no caminho normal. 

Em algum momento, será que alguém se perguntou: que tipo de narrativa está acontecendo ou mais exatamente a qual gênero literário ela pertence? Talvez, muitos não, afinal nem todo mestre precisa ser um roteirista e também nem todo mundo leva isso tão a sério, afinal é uma diversão e mesmo na simplicidade de uma aventura feita de improviso a gente encontra essa euforia. 
 Mas se você já pensou nisso (assim como eu) poderemos elevar um pouco o papo, indicando alguns caminhos para sua narrativa e como tirar melhor proveito de cada uma delas. 
Estou lendo um ótimo livro chamado Manual de Roteiro Ou Manuel, o primo pobre dos manuais de Cinema & TV de Leandro Saraiva e Newton Cannito que foram roteiristas no seriado Cidade dos Homens e eles tem um capítulo dedicado a explicar de um modo bem prático e interessante as diferenças estruturais entre as formas dramáticas, líricas e épicas.

Basicamente o dramático é a representação de um acontecimento por atores e no nosso caso dos jogadores. O Drama é o presente, como diriam Leandro e Newton. Ele cria o vínculo do espectador com um "outro mundo possível" e mostra os fatos naquela realidade como se fossem o tempo real.  Quando estamos usando o roleplay para discutir planos de ação, anunciar nossas ações e discutir com vilões estamos exatamente usando a forma dramática - estamos vivendo o outro mundo possível que (inclusive) está descrito na teoria de RPG e é bem melhor trabalhado por representação de um acontecimento por atores sobre a nomenclatura de "Círculo mágico".

No cinema existem discussões sobre o que chamam de drama moderno, aonde os roteiristas flexionam o gênero até o limite misturando outras formas e descaracterizando as vezes a obra como drama. Pra falar a verdade nas prateleiras de locadora (alguém ainda aluga filmes?) o que eles categorizam como drama é na verdade o puro drama, porque parece que a maioria dos filmes modernos tem uma estrutura dramática.  Pra que ele funcione é preciso aproximar o espectador, leitor ou jogador da realidade dos personagens e utilizar outras formas podem causar efeitos contrários a isso. 

Sabe aquela história que você não consegue se desvincular nem por um segundo, não pode sair da frente por 5 minutos porque parece que vai perder muita coisa? É porque as ações e a progressão do roteiro acontecem exatamente pelos diálogos dos personagens que carregam as decisões que fazem a história avançar.  Ta aí mais um motivo para caprichar no roleplay, ele pode tornar a história bem mais compenetrante se os diálogos forem bem trabalhados.  

Ok, e quando o mestre começa a narrar alguma cena ou descreve a entrada de um personagem importante? 
Estamos falando então da forma épica. O narrador conta os fatos passados, apenas observando e relatando os feitos objetivamente sem interferência nos mesmos.  Isso porque o épico é realmente o passado, algo que aconteceu e que pouco podemos fazer para contrariar.

No caso do RPG o mestre não nos permite que interrompamos a sua descrição para surpreender com uma ação durante a cena.  A forma épica nos distancia um pouco dos conflitos dos personagens, como se observássemos de longe, o que acaba não conectando sentimentos, fortes emoções.  É muito interessante essa caracterização do épico com a presença de um narrador, com isso podemos dizer que o Role Playing Game em sua essência é um jogo de contar histórias que se apropria naturalmente de dois gêneros literários e o que vai definir se sua aventura é "épica com cenas dramáticas" ou um "drama com cenas épicas" é a forma com que seu mestre/narrador decidir dirigir a sua história.
As vezes, como em filmes e livros o narrador é um personagem (mais velho ou mais novo) que está visualizando uma memória ou vaticínio e está agora narrando os fatos. Quando ele não é um personagem, a gente o chama de narrador implícito.

O ponto forte principalmente para o RPG da forma épica é que ela é excelente para apresentar informações e descrever ou justificar personagens comentando atos que passariam totalmente despercebidos apenas com os diálogos da forma dramática.  Como exemplo podemos imaginar dois orcs se preparando para invadir uma cabana, fugindo de um grupo de paladinos... um deles está gravemente ferido e precisa ser carregado, eles escondem um artefato que pode salvar toda a sua tribo dando poderes para seu xamã.  Passar todas essas informações através apenas de um diálogo dos dois pode criar uma cena realmente surreal e desnecessária, com um ar farsesco. Principalmente quando não temos o recurso visual, acredito que a forma épica pode ser bastante útil.


Ainda existe outra forma? 

Sim, mas uma forma que eu acredito ser mais difícil de acontecer em mesas rpgistas, principalmente iniciantes, mas que pode ser frequentemente apresentada em Lives Action, a forma lírica Um gênero essencialmente poético, que expõe a subjetividade do autor e diz ao leitor do estado emocional do “eu-lírico”

Nela o autor se apresenta de forma totalmente subjetiva, deixando as emoções acontecerem e serem representadas sem tempo, nem espaço, mas na ordem que elas tiverem que acontecer até o seu clímax. Podem ser representadas em formas de poesias ou músicas recitadas durante uma aventura, pelo mestre ou pelo jogador. Por isso disse que em Lives "talvez" seja mais comum, seria a aproximação máxima do RPG com o Teatro em uma representação das emoções de um personagem de forma totalmente artística. A forma lírica é bem contemplativa e é algo que pode ser utilizados por exemplo em cenas de rituais e magia ( Tá aí uma boa dica para Magos).  Ainda não consegui um grupo que chegasse a esse nível de roleplay e vou procurar mestres que tenham exemplos de cenas líricas para compartilhar aqui no blog.

Devemos levar em consideração que não precisamos seguir apenas uma dessas três formas religiosamente, assim como roteiristas não fazem nos filmes (em alguns sim, mas não vem ao caso).  Um roteiro de rpg pode ser composto por cenas contendo os variados gêneros, como puderam percebem eles tem características que podem interessar para objetivos específicos dos narradores de rpg. Sabendo utilizar e a hora certa disso acontecer poderemos tornar nossas mesas bem mais interessantes para todo mundo.
Storytelling 1044030877191692414
Página inicial item

Entre pra Guilda

Mais lidos da semana

Receba nossos corvos

Curso Online