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Canções da Meia-Noite #92 - From Ember To Ashes (Parte 4)

Saudações caros amigos aventureiros, já faz algum tempo que nossa taverna esta fechada, afinal ...


Saudações caros amigos aventureiros, já faz algum tempo que nossa taverna esta fechada, afinal até mesmo nós bardo precisamos de férias. Agora, uma nova temporada de contos irá começar, trazendo muitas novidades. Hoje continuaremos a saga escrita por @TheJuniorAde, onde nossos protogonistas continuam sua jornada por um mundo caótico, mas que aos poucos vão lidando com suas diferenças e ganhando força para sobreviver.


Acordou naturalmente, e percebeu que sua mãe não estava no quarto, bem como Cateryn. A janela aberta deixava uma luminosidade fraca entrar, quebrada pelo ondulado do telhado da varanda, que lançava uma sombra longa nas paredes. Não havia muito vento, e o silêncio era quebrado pelo esparso latir dos cachorros.
A porta estava encostada, e quando saiu viu que alguém estava sentado na poltrona da sala, erguendo e baixando uma caneca com algo fumegante dentro.
A pessoa virou-se ao ouvir os passos, e sorriu.
– Oi, Andressa... – falou Junior. Largou desajeitadamente a caneca sobre a mesa de centro e se levantou. – Ahn... Bom dia, na verdade...
– Bom dia – havia acordado há tão pouco tempo que ainda não conseguia divisar ninguém totalmente. – Tem algum banheiro aqui?

– Tem, tem – Junior parecia nervoso, gaguejando um pouco, mas tentando manter a pose. – Ahn... Ah, sim, banheiro, você disse... Vem comigo – pegou sua mão e guiou-a até o banheiro, que ficava na porta ao lado da dispensa, que se abria para a cozinha. Apontou a porta azul e soltou-a, por fim. – Ali. Tem água filtrada dentro de uma bacia, pra se lavar e escovar os dentes, se quiser... A torneira funciona, mas não é água filtrada nem fervida então, use se quiser, mas não garantimos a integridade física dela – falava coisas sem sentido, meio atropelando as palavras. – Enfim... Tá aí, pode ir... – virou-se e voltou para a sala.
Andressa lavou o rosto, pegou uma escova de dentes que não havia sido removida do pacote ainda e depois lavou bem as mãos. O pequeno espelho sobre a pia encardida de plástico estava perdendo a película refletiva em uma das pontas, deixando uma mancha enferrujada no vidro. Olhou bem seu rosto, seus olhos e seu cabelo, que não via um bom enxágue desde que tudo começou a cair aos pedaços. Todos seus sonhos, expectativas e metas haviam sido destruídos. Sentia falta do barulho das cidades, da movimentação humana nas ruas e até mesmo daquelas pessoas que não gostava. Conseguiu achar lugar até para sentir falta da escola, seus professores e amigos, principalmente os amigos. Se havia algo de que sentia falta eram de seus amigos, colegas de escola e ex-colegas. Olhando agora, parecia que as pequenas coisas do mundo antigo eram essenciais, mesmo que triviais, e faziam uma diferença tremenda ali.
Secou o rosto e saiu do banheiro. Encontrou Junior sentado na poltrona ainda, tomando qualquer coisa que havia naquela caneca. Pensou em como uma rede social fez toda a diferença depois que aquelas coisas começaram a surgir no planeta.

Havia conhecido Junior através de uma rede social em meados de 2011, e começaram a conversar durante um tempo, até mesmo mantendo um relacionamento online de certa forma instável. Se encontraram apenas três vezes pessoalmente, levando em consideração que moravam a pelo menos três cidades de distância, ele em São Leopoldo e ela em Sapiranga. O pai dela também morava na mesma cidade dele, mas isso apenas foi útil duas vezes. Depois de vários problemas com sua mãe, permeadas com discussões seguidas e intermináveis, decidiu terminar o que quer que houvesse entre eles. Após esse ocorrido, haviam conversado consideravelmente menos, passando quase meses sem que trocassem palavras.
– O que tu tá tomando? – perguntou, pegando a caneca da mão dele e sorvendo um gole rápido, pois estava muito quente. O gosto era adocicado demais, e uma camada grossa de açúcar repousava no fundo dela.
– É chá de cidreira... – respondeu, recebendo a caneca de volta. – Capim-cidreira, na verdade...
– Tá bem doce.
– Sim... – concordou, e corou. Era o preço que pagava pela timidez. – Eu não gosto de nada muito forte, então coloco muito açúcar...
– É... – ficaram alguns instantes sem trocar nenhuma palavra, até que Junior interviu com um pigarro.
– Enfim... Teu padrasto e tua mãe estão com meu avô, vendo a outra casa lá perto dos eucaliptos – falou. – Quer ir lá falar com eles?
– Ahn? Não, não – olhou para os lados, procurando alguma ideia. – Alguma coisa pra comer?
– Sim, sim – disse, e foi até o armário onde ficava a louça e os principais alimentos da casa. Pegou um pacote de biscoitos recheados e alcançou para ela. – Não temos pão, ainda... Minha mãe vai fazer hoje, se ela estiver melhor... – falou, meio sem jeito. – A dor nas costas, e tals...
– Ah, sim, sim... – respondeu ela. – Ahn, lembro que tu tinha comentado algo do gênero em janeiro, acho, antes de... antes de...
– Antes disso tudo – fez um sinal com o braço esquerdo, englobando tudo ao seu redor. – Ninguém esperava por tudo isso, mas aconteceu. O melhor a fazer nesse momento é tentar viver e se acostumar ao mundo do jeito que está hoje...
– E esperar que melhore, certo? – indagou.
Junior não acreditava mais nisso. Havia passado mais de um mês desde que a infestação se alastrara, e nenhum sinal de que a quantidade daquelas coisas estava diminuindo surgia. Para ele era um poço sem fundo, onde quanto mais se debate, mas se afunda. No entanto, dizer isso para ela não parecia a coisa certa a se fazer.

– É... Esperar... – falou mais para si mesmo do que para Andressa. Apontou para o pacote. – Elas estão meio macias, o que pode ser bom ou ruim, dependendo da tua avaliação. Elas já tem mais de um mês, mas não venceram ainda. Se não quiser, acho que tem alguma outra coisa aqui... – virou-se e procurou qualquer coisa mastigável, mas ela interviu.

– Não precisa, não – abriu o pacote e pegou a primeira, mordiscando um canto e fazendo um som de uhmn, mas era óbvio que os biscoitos estavam ficando rançosos, e logo estariam intragáveis. – Eles estão ótimos.
– Tá – foi até a mesa de centro da sala e pegou a caneca e colocou entre os dedos da mão direita, que estava enfaixada até o punho, a tala impedindo qualquer movimento. – Vamos, eu te levo até lá embaixo.
Saíram para a varanda e o sol batia nas copas da moita de taquaras que ficava à quase quinze metros da casa, com mais de dez metros de altura e um diâmetro impreciso.
As casas à que ele se referia ficavam no fim do gramado, aproximadamente sessenta metros após a casa de Cerl. Eram três, uma grande e amarela, outra de madeira rústica nos fundos dessa e outra a vinte metros à direita da primeira, pequena e feita de madeira e com uma varanda alta de concreto.
Michelle e Leandro se encontravam com Cerl, na casa rústica, sentados em um banco de toras, conversando sobre qualquer coisa quando viram Andressa e Junior chegando.
– Resolveu acordar, minha filha? – Michelle estava sorrindo. Andressa ficou feliz, pois não via um sorriso daqueles desde que as pessoas começaram a morrer e voltar à vida, mais de um mês atrás.
– Achamos que tu fosse emendar o verão, o outono e o inverno dormindo – Leandro sorria também, e aquilo alegrou seu coração.
Cerl estava neutro, sem sorrir ou sem fechar o rosto, da mesma forma que Junior.
– Cerl estava falando sobre como é o outono e o inverno aqui – falou Michelle. – Vamos ter que conseguir mais cobertores e roupas mais quentes.
– Mas isso ainda vai levar um tempo – disse ele. – Estamos no início da segunda semana de março, se meu calendário está correto, e o outono começa em umas duas semanas, ou menos. Não tenho certeza quanto a isso, mas sei que ele virá, e depois o inverno – olhou ao redor, tentando mensurar o ambiente todo em sua conversa. – Os últimos invernos que tivemos aqui nessa chácara foram rigorosos, e mesmo um fogão à lenha acesso durante o dia e a noite não são suficientes para espantar o frio.
Junior concordou.
– Eu costumava passar algumas férias de inverno aqui, e era cada vez mais frio, então... O inverno está chegando – falou.
– O inverno está chegando... – pensou Leandro. – Eu já ouvi essa frase em algum lugar...
– No norte, talvez... – sorriu Junior. – A Guerra dos Tronos, lembra?
– Ahn, sim... – lembrou-se imediatamente. – O Sean Bean, não é? Perde a cabeça, e tal...
– Sim, sim – Junior estava sorrindo, mas pareceu se dar conta disso e ficou sério novamente. A pose que mantinha era tudo que lhe sobrara.

– Enfim, amanhã nós vamos no centro da cidade buscar algumas coisas para as casas – começou Cerl, interrompendo o silêncio constrangedor que se instalara. –, alguns cobertores e um ou dois colchões de solteiro, para vocês poderem se instalar melhor.
– Por que amanhã? – perguntou Andressa.
– Hoje nós temos algumas outras coisas para fazer, não é, meu avô?
– Sim, Junior – seu tom baixou. – Algumas coisas – levantou-se e deu a conversa como terminada. Saiu mancando em direção ao galpão onde guardavam algumas ferramentas, ao lado da moita de taquaras, perto da casa dele. Junior se despediu deles e o seguiu.
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