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Canções da Meia-Noite #87 - From Ember To Ashes (Parte 1)

Saudações aventureiros, partimos hoje para uma terra devastada e abandonada por seus moradores,...


Saudações aventureiros, partimos hoje para uma terra devastada e abandonada por seus moradores, se tornando um lugar de grandes perigos para os viajantes menos afortunados ( e olha que não estamos falando de Mordor). Falando em viajantes, nosso amigo bardo The Junior traz os passos de um destes peregrinos nestas terras e os desafios que ali encontrara.


 
 Já era fevereiro, e o verão começava a dar sinais de que terminaria rapidamente, mesmo que o sol continuasse castigando seu rosto, e deixando marcas na pele onde a manga da camiseta terminava. Nada disso, no entanto, o impedia de seguir caminhando adiante, seguindo a estrada sem acostamento em direção à serra gaúcha.
A mochila que carregava não estava pesada. Está leve demais, pensou, e estou ficando sem água. Se chegasse ao ponto de ficar sem água, teria sido uma viagem inútil, e teria deixado tudo para trás por nada.
A manhã avançava a passos largos, e o sol começava a se colocar diretamente sobre sua cabeça quando ouviu o ronco de um motor ao longe, vindo da próxima curva.
Escondeu-se rapidamente entre as árvores que ladeavam o caminho, e aguardou até que o carro passasse, então saiu de seu esconderijo e permaneceu seguindo. Era arriscado pegar caronas naqueles tempos.
Não haviam mais gentilezas. A única forma de ser gentil era com um tiro na cabeça daqueles que você amou.
Apenas assim seria gentil naqueles tempos.


Fazia quase uma hora que estava dirigindo dando voltas na cidade, procurando uma viva alma para compartilhar alguma notícia, mas todos haviam partido: uns para o outro mundo, e outros foram profundos para dentro das fazendas, tentando a todo o custo proteger o pouco que lhes restava.
Pensou em buscar alimentos ali no centro, mas resolveu partir de vez do local. Apenas dor e más memórias ali existiam, nada mais. Estava se dirigindo para a cidade vizinha, e já passara da fronteira de sua vizinha natal. Fez uma curva acentuada à direita e apertou fundo o acelerador.
Por algum motivo olhou pelo retrovisor e então visualizou uma forma baixa caminhando perto da curva.
Pisou imediatamente no freio, e fez um drift tão na sorte que pensou que nunca mais iria conseguir reproduzir tal feito. Quando voltou o carro pra direção da pessoa que já avançava para desaparecer atrás da curva, acelerou o carro até o último, e girou o volante de forma a deixar o carro na mira direta da criatura.
Não haveria segunda tentativa.


O som do freio o alertou e quando viu que o carro avançava rápido em sua direção resolveu que seria ali mesmo que ficaria.
Nada mais importava: seria naquele momento ou não seria nunca mais. Se sobrevivesse àquele momento, não iria partir desse mundo tão cedo.


O motor gritava alto com o esforço repentino requerido dele, mas não tirou o pé do acelerador.
Tarde demais viu que a criatura parou e se virou: era um humano, afinal de contas. Pisou no freio, mas não fez diferença: o carro já estava perto demais do rapaz, e nenhuma força no mundo impediria que parasse antes do impacto.
Sentiu remorso por aquilo, e depois a criatura bateu contra o para-brisa do carro e voou para o alto, caindo com força no asfalto atrás dele.


Caiu em pé, e preparou a faca que carregava presa à perna esquerda. Sobrevivera ao choque com o carro, mas fora apenas um golpe do destino, e parecia que esse não iria deixar acontecer novamente. Percebeu isso quando de dentro do carro saiu um homem jovem com uma escopeta na mão, mirando sua cabeça.
Girou a lâmina na mão esquerda, e ergueu-a na linha do rosto. Era hábil com uma faca, mas não poderia desviar um tiro com ela.
– Quem é você? – perguntou o homem do carro. Seu olhar estava perturbado: era difícil de acreditar que alguém tenha sobrevivido a um choque tão forte contra um carro. Principalmente um carro daquele porte.
Era difícil para o rapaz acreditar também, mas haviam coisas mais importantes para se fazer primeiro, e assim o fez:
– Não interessa pra você – respondeu.
– Bom, – engatilhou a arma, depois se aproximou e colocou o cano da escopeta a alguns centímetros da testa do rapaz. – você deveria ser educado com o cara que tá com a doze na tua cara.
Em um movimento rápido, puxou outra faca e pressionou contra a garganta dele, mesmo estando sob a mira de algo que poderia fazer muito mais estragos do que um simples sorriso vermelho.
– Você deveria ser mais gentil com quem tá com a faca no teu pescoço.
Engoliu em seco, o pomo-de-adão roçando de leve na lâmina que parecia estar bem afiada. Afastou-se alguns passos, mas não baixou a arma.
– Você tem alguma arma de fogo contigo?
– Só facas – respondeu.
– Tem munição?
Sorriu, e puxou algo da cintura.
– Se você quer dizer mais facas, sim – mostrou uma terceira lâmina, um pouco mais curta, mas nem por isso menos afiada.
– Mantimentos? Água?
– Isso não é da sua conta – disse por fim, e guardou suas facas em suas respectivas bainhas, depois seguiu caminhando na direção que ia antes de ser atropelado.
– Tu não quer uma carona? – perguntou o homem. Talvez quisesse se redimir.
Talvez.
– Eu tô indo pra São Francisco – não virou-se para responder. – Tu ‘tava indo pra outra direção.
– Então vem comigo – falou o homem. – Não tem mais nada naquela cidade.
O rapaz segurou a respiração por alguns segundos, e depois suspirou.
– Não interessa – respondeu, e continuou seguindo.


O rapaz havia desaparecido depois da curva já há alguns minutos, e ele ficara ali, parado ao lado do carro pensando no que deveria fazer. Decidiu-se, e entrou no veículo.
Pelo menos teria alguém para conversar.

CONTINUA...

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