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Canções da Meia-Noite #86 - O Arquidruida

Saudações caros aventureiros, chegamos a mais uma noitada de contos em nossa taverna para vocês...


Saudações caros aventureiros, chegamos a mais uma noitada de contos em nossa taverna para vocês e dessa vez o assunto é com nossos amigos druidas. Sobre a sombras de uma floresta mestre e aprendiz caminham entre suas árvores, sendo guiados pelas palavras de Daniel Ferrari , onde um novo destino os aguarda acompanhado do prelúdio de uma nova aventura.



O Arquidruida
Pela floresta eles caminhavam, mestre e pupilo. A grama e as folhas estalavam sob seus pés nus, a folhagem começava a adotar um tom marrom denunciando o outono que chegava, mas no momento tudo estava vermelho, combinando com o céu do entardecer, em breve estaria escuro.

O velho com uma longa barba branca emaranhada, cheia de folhas e barro caminhava a frente apoiando-se pesadamente em um cajado feito com um galho de olmo, os cabelos brancos caiam sobre sua túnica de peles em uma trança até os quadris. O jovem vinha mais atrás com os cabelos curtos, levava um cajado pequeno de madeira polida feito do galho de uma árvore frutífera, em pequenos galhos na ponta do cajado ainda se viam folhas verdes, não aparentava mais do que doze primaveras.

- Para onde vamos? – perguntou o jovem.
- Ao norte na mata há uma clareira onde plantei uma semente de olmo no dia em que nos reencontramos.
- O Olmo sempre fora sua árvore guia não?
- Parece que sim, hoje entendo que isto não é uma coisa que se escolhe, mas que acontece naturalmente. Assim como todo o resto. – O velho olhou para o garoto e sorriu, o jovem retribuiu.

Avançavam vagarosamente floresta adentro, tocando as árvores enquanto passavam, os animais se aproximavam e recebiam atenção e um afago, os pássaros pousavam em seus ombros e um ou outro chilreava uma canção antes de partir para seu ninho, uma corsa magnífica surgiu de entre as árvores cruzando o caminho dos dois e fez uma leve reverência fitando os dois druidas com seus grandes olhos amendoados e em seguida pulou de volta para a proteção dos galhos e da mata.

- A grande corsa parece gostar de você. – reparou o mais jovem.
- ela se lembra de quando curei sua pata ferida por uma flecha envenenada. Uma forma cruel de morrer e covarde de matar.
- Os homens não deveriam caçar nesta floresta. Mas se havia veneno, imagino que foi coisa dos caçadores reais.
- Muito provavelmente.
- criaturas abomináveis, tiveram sorte de eu não estar aqui e encontrá-los.
- Por favor tenha paciência e cautela com eles, nem todos os homens são maus, e mesmo que ignorem, ainda fazem parte do ambiente que os cerca, e da natureza.
- As vezes gostaria de esquecer isso.
- É o ímpeto da juventude.
- Pode ser que sim.
- Sei que é. Não faz parte de sua índole ser violento.
- Você se lembra de sua juventude?
- Vagamente, comecei o treinamento dos ensinamentos drúidicos bem cedo. Lembro-me das vigílias noturnas para adquirir a visão da floresta, de nadar nos rios com os peixes, do isolamento quando tive que sobreviver por quatro estações usando apenas meu corpo e mente. Das aulas para identificar as raízes e preparar poções, a primeira vez que falei verdadeiramente com os animais e a primeira vez que canalizei as forças da natureza e utilizei a magia da floresta.
- Isso por que você disse que lembrava vagamente. Imagina se lembrasse bem!

Os dois riram.
A marcha prosseguia lentamente, eles não tinham pressa.

- Gostaria que você me falasse mais do ritual.
- Ficou alguma dúvida de como realizá-lo?
- Não, você me ensinou bem. Sei que j[a passou por ele, queria saber como é.
- Entendo… eu já te contei quem me ensinou o ritual?
- Foi outro arquidruida?
- Não, nunca encontrei outro, quem me ensinou foram as dríades. Mas só depois de muitos anos vivendo com elas é que confiaram a mim tal conhecimento.
- Então foram elas que criaram o ritual?
- Elas o aprenderam com o primeiro arquidruida, Adan Sempreverde.
- Nunca ouvi falar dele antes. Nem mesmo com as dríades.
- Ele viveu a muito tempo atrás. Foi o único a realizar o ritual duas vezes. Na segunda vez sua essência se uniu permanentemente a natureza, ele nunca mais renascerá.
- Sempre existe essa possibilidade quando se realiza esse ritual?
- Sim, depende da força de vontade do druida, o tempo parar renascer como arquidruida também pode variar. Mas no caso do arquidruida Adan, foi intencional. Como arquidruida acho que entendo sua vontade.
- Quanto tempo você levou até renascer?
- Pela idade das árvores acredito que foram dez primaveras.
- Lembra-se de tudo?
- Sim, Lembro de ter vivido dentro da árvore cuja semente foi plantada com meu corpo, depois de viver nos seus frutos, vivi também no pássaro que se alimentou da árvore, e no gato selvagem que se alimentou d pássaro, quando o gato morreu eu vivi na grama que nasceu, e depois na lebre que comeu aquela grama, e finalmente quando aquela loba prenhe apanhou a lebre, eu renasci de seu ventre, junto com sua ninhada. As dríades me acharam e me criaram, faz parte do ritual, dois verões depois eu já tinha esta aparência e já me lembrava de toda minha vida passada e do período em que passei vivendo o ciclo da vida com minha alma.
- Então você não pertence a mesma raça?
- Vendo por este lado acho que não. Mas lembre-se se deixar sua essência se espalhar demais você deixará de existir. As dríades me disseram que alguns druidas falharam em renascer mas que ao redor de onde foram “plantados” nasceram grandes florestas, florestas vivas.
- Também nunca ouvi falar de florestas assim.
- Como eu disse, são poucos os druidas que tem este conhecimento, e mesmo dentre estes, menos são os que tem capacidade de realizá-lo.

Finalmente eles chegaram a clareira, no centro havia uma pequena elevação, e no topo uma jovem árvore crescia. A noite já ia adiantada e o céu estava repleto de estrelas.

- É uma bela noite. – disse o rapaz.
- Sim, com certeza.

Subiram juntos o pequeno monte e pararam ao pé da jovem árvore.

- Tem certeza que quer fazer isso?
- Completamente. – o velho druida ergue seu cajado e pronunciou as palavras antigas, em voz baixa e depois crescendo conforme sentia o poder da natureza fluir por seu corpo. Uma luminescência esverdeada emanava de seu cajado, um vento forte passou pela floresta agitando as árvores ao redor. Atendendo ao chamado, uma a uma as dríades começaram a sair da floresta e caminharam na direção dos druidas, algumas com a pele completamente branca e cabelos compridos e lisos, outras mais robustas com a pele morena e cabelos cheios, as vezes viam-se frutas neles, outras altas de pele dourada e cabelos curtos, algumas jovens, outras velhas, todas vestindo apenas folhagens e emanando uma aura sobrenatural ao seu redor.

Conforme se aproximavam formaram um circulo ao redor dos druidas e da árvore, o velho druida se calou, então foi a vez das dríades em uníssono começarem a entoar uma canção. O brilho que vinha delas aumentou, e o jovem olmo começou a brilhar também.

O velho druida fincou seu cajado no chão e uma fenda no solo se formou aos seus pés.

- Chegou a hora. – disse o jovem druida olhando para as estrelas.
- Sim mestre, será que você poderia cuidar do meu cajado até eu voltar?

O arquidruida olhou nos olhos de seu velho pupilo e amigo, e compreendeu que aquele gesto era uma promessa de que ele retornaria após passar pelo perigoso ritual.

- Será uma honra meu amigo.
Com a ajuda de seu mestre o velho druida deitou-se na terra e fitou as estrelas no firmamento.
- Realmente é uma bela noite. – lentamente o druida fechou os olhos e sentiu sua essência escapar de seu corpo, se espalhando pelo solo e suavemente sendo absorvida pela jovem árvore.

As dríades terminaram sua canção e o solo cobriu o corpo inerte do velho druida, agora apenas uma casca vazia que alimentaria o solo. O vento soprou na clareira e a forma física das dríades desvaneceu, deixando flutuar no ar uma profusão de folhas e flores de diferentes árvores. O brilho delas também desapareceu deixando a noite repentinamente escura.

O arquidruida segurava gentilmente o cajado de seu pupilo, quando se virou para partir viu-se de frente a uma pequena dríade de pele marrom e coberta de folhas verdes, ela o encarava com seus olhos brilhantes.

- Acha que ele conseguirá mestre Zentran?

Zentran afagou a cabeça da pequenina com carinho.

- Tenho certeza que sim!

A jovem dríade sorriu e caminhou em direção ao olmo no centro da elevação, se despediu com um aceno e fundiu-se com sua árvore. Solitário o arquidruida Zentran retornou pelo caminho até o centro de sua floresta, levando em seu peito a certeza de que um dia reencontraria seu amigo.
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