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Canções da Meia-Noite #72 - O Grupo dos Quatro (Parte 2)

Seja bem-vindos leitores  a mais uma noite de histórias em nossa taverna, onde a cerveja é de gr...


Seja bem-vindos leitores  a mais uma noite de histórias em nossa taverna, onde a cerveja é de graça e a musica também, mas a garantia de sair com todo seu ouro só para aqueles que a sorte tem. Nossa história de hoje continua a saga de um grupo de amigos descobriam um novo mundo e  por conta disso algumas decisões foram são tomadas, se foram boas ou precipitadas, vocês irão descobrir na canção que hoje sera narrada.




















O Livro da Terra - Capitulo Um
O caminho para fora daquela pequena mata era tortuoso. Primeiro, uma pequena elevação, recortada na terra, que ficava a menos de um metro da pequena barragem, coberto de um barro limoso e odoroso. Depois, uma trilha estreita e sinuosa subia durante uns sessenta metros, quando se voltavam para a esquerda, e seguiam assim, cheias de voltas e de matos e pequenas plantas com espinhos prontos a morder com raiva a pele desprotegida de quem andasse por ali com calças curtas. Após mais cinquenta metros, a trilha iniciava uma decida leve, um pouco mais retilínea e limpa, mais setenta metros. 

O caminho se abria para uma ponte curta e antiga, onde apenas as toras de apoio para as tábuas de madeira (já ausentes) ainda permaneciam, três ao total. Essa era a parte mais tensa, onde quem passava muito devagar entrava em pânico, e quem andava muito rápido perdia o equilíbrio. 

O resto da trilha era curto e claro, com apenas as árvores cobrindo os raios de sol e prendendo o vento em uma atmosfera de natureza tangível e sufocante, na maior parte das vezes. 

Andavam em uma fila indiana, com Raimund na frente, Su atrás dele, Junior, e Karl na retaguarda. Quando chegaram ao limite das árvores, onde uma calçada de arenito tomada pela hera delimitava o fim de uma rua longa, o Marrom (Raimund) se ajoelhou e fez sua prece de agradecimento. 

Esse ato foi repetido por Junior e Su, mas Karl fingiu não ter visto nada. 

A rua era ladeada por duas indústrias: a da esquerda (de quem sai da mata) era uma grande e poderosa empresa de processamento de celulose, e à direita uma empresa de distribuição de gás de cozinha, de nome esquisito. Essa rua começava em uma avenida larga de quatro vias, com outras grandes indústrias de ambos os lados. 

Um ao lado do outro, saíram conversando como se nada tivesse acontecido, como se o mundo não existisse. Karl agia de modo expansivo, do mesmo modo que Marrom, falando alto e berrando, fazendo piadas e zoando com todos que passavam. Su ria de algumas coisas, com um sorriso curto no rosto. 

Junior tentava agir de modo contido, rindo de vez em quando, mas na maior parte do tempo com o rosto fechado e sério. 

Junto do corpo, Junior trazia uma pequena garrafa plástica meio amassada cheia de areia, proveniente do banco de areia do pequeno córrego. Su trazia uma garrafa em igual estado, mas preenchido com a água da corrente, e Karl trazia em um saquinho de algodão cru as cinzas da pequena fogueira feita no prato de alumínio. Raimund tinha consigo o leque, o prato, os fósforos e uma toalha encharcada, tudo dentro de uma sacola plástica depositada no interior de sua mochila escolar. 

Matar aula com ele era usual para Junior. Costumava dizer que suas ‘matadas’ eram apenas para caminhar, pois rodavam a cidade toda a pé nessas ocasiões. 

Fizeram o mesmo esquema de sempre: caminharam até uma quadra antes da escola, e circundaram por trás desta, passando pela entrada dos professores ao fundo, saindo na esquina. Ali, esperaram dar o sinal. 

O sino tocou. O mar de gente que borbulhava daquele quente ambiente escolar logo os engoliu, e então se dispersaram, cada qual para sua respectiva moradia. Raimund acompanhou Junior. 

Já na frente de sua casa, Junior se virou para Raimund. Havia algo que ele não conseguia decifrar no rosto do amigo, quase um orgulho reprimido. Deu um tapinha no ombro dele, e se despediu. 

Entrou em casa. Lá dentro, dirigiu-se direto para o quarto. Ao entrar, trancou a porta e se atirou no colchão de ar que ficava no assoalho de madeira da velha casa. Lançou sua mochila para um canto, e tentou pegar no sono. 

Não deu certo. Logo a voz estridente da mãe surgiu, gritando para que ele viesse lavar a louça, “porque eu tenho que fazer tudo nessa casa, e tu nunca me ajuda em nada, e faz tudo de mal jeito e de má vontade”. 

E blá, blá, blá. 

A ladainha diária, interminável e repetitiva, foi cortada por um berro de “Já ‘to indo”, para ser iniciada novamente com “e tu me respeita, que sou tua mãe, não teus amigos do colégio pra ti falar desse jeito comigo”. 

E blá, blá, blá. 

Não haveria descanso enquanto não terminasse o que sua mãe ‘mandou’, “porque eu não tenho que pedir nada pra ti. Eu MANDO nessa casa, e só eu posso gritar aqui”. 

Antes de sair do quarto, porém, colocou a mão no bolso direito da calça e removeu um pequeno objeto meio-fosco-meio-brilhante-meio-quebrado e aninhou-o na palma esquerda, observando profundamente o diminuto pedaço lascado de quartzo rajado, meio violeta com manchas negras finíssimas em seu interior. Perdeu-se em inúmeros pensamentos sobre o que ocorrera naquela tarde. Aquela pedra significava muito. 

Lembrou-se de Raimund falando com eles, no fim de cada ritual individual, quando algo era tirado das profundezas do local de seu elemento: Karl escolhera usar seu anel de metal que fora colocado no centro das chamas como amuleto; Su escolhera a pulseira de lã fina que usara quando imergira para o país da água; Junior escolhera aquela pedra de quartzo antes de irem para a pequena mata. Pegara-a de uma coleção aleatória de seu avô, uma lasca de um bloco do tamanho de um punho adolescente que se perdera no chão de sua antiga casa. No ritual, enterrara-a na areia antes de ir para a desolação do país da terra, e a retirara quando retornou. 

Um novo grito de sua mãe o puxou de volta para a realidade. Com cuidado, subiu na janela de ferro de seu quarto e, forçando uma tábua do forro para baixo, depositou a pedra e a garrafa de areia na parte interna de uma pequena sacola plástica, que ficava escondida no sótão com alguns pertences pessoais que não eram do agrado de sua mãe (revistas pornográficas [presentes de Raimund], mangás e quadrinhos americanos, pôsteres e afins). Feito isso, desceu, recolocou a madeira de forro no lugar e foi fazer o que sua mãe pedira (não gostava da ideia de receber ordens, mas com mães não se discute nunca). 

Algumas semanas se passaram desde aquele dia no pequeno córrego. A situação entre os amigos se estreitara. Karl não tentara mais atacar Junior. Su não comentava mais sobre o ocorrido no local. Raimund continuava com seu jeito efusivo e falastrão. O mundo continuava girando. Era isso. 

Junior e Su se tornaram próximos. Não tão próximos, mas já agiam como pessoas que se conheciam desde a infância, de forma contida, mas despreocupada. Nesse meio tempo, Junior se mudou para uma casa a quatro quadras de sua antiga residência. Seu avô voltou do interior para morar com ele, ao passo que sua mãe e sua irmã se mudavam para uma cidade retirada, para trabalhar em um centro de reabilitação de modo voluntário. 

A nova casa era menor, mas completamente de concreto, fria no inverno e calor no verão. Seu quarto era de tamanho bom, não muito pequeno nem muito grande. Sempre cheio de poeira e roupas espalhadas no chão, Junior aproveitava a vida ali da melhor forma possível. Seus recém-completos 14 anos, terminando uma oitava série escolar, no fim do ensino fundamental, eram vivenciados na companhia de seus queridos amigos. 

Como forma de se manter firme, levou a pequena garrafa de areia para a nova casa, escondendo-a dentro do novo guarda-roupa branco, abarrotado de livros e roupas amontoadas. A pedra permanecia sempre junto, no bolso da calça ou da camisa de flanela (inseparável). 

Seu avô era uma figura peculiar: de idade consideravelmente elevada (sessenta e seis), era um parceiro para todas as horas. A menoridade de Junior não o impedia de beber vinho, cerveja e um gole ou outro de conhaque de gengibre com o velho (e bem cuidado, diga-se de passagem) avô Cerl. Obviamente, tudo era controlado: ele não se importava de deixar beber, desde que moderado e sem exagero. Nesse período, as ‘matadas’ se tornaram um pouco mais seguidas, chegando a quase uma vez por semana, onde se dirigiam quase sempre para o mesmo local: a mata dos Bianchi, lugar onde executaram a inicialização do grupo. 

Karl não se envolvia muito seguido com eles nesse tempo. Su não matava aula tão seguidamente, mas Raimund e Junior permaneciam fieis em sua rotina, por assim dizer. 

Tudo corria como deveria correr. A terra girava ao redor do sol ainda. Amanhecia e anoitecia nos horários normais. Era isso. 

Mas é sabido que um longo período de sol causa um forte e destrutivo tempo de tormentas. 

Por esses dias, Junior enfrentara alguns problemas pessoais. A sua fé naquele mundo humano e no etéreo esmaecia com o tempo. Su tentava animar, mas nem tudo seguia do modo esperado. 

A tarde na escola decorria da mesma forma chata e arrastada que o usual. O intervalo parecia nunca chegar. Em sua sala, Junior olhava o relógio de minuto em minuto, ajudando a tornar mais lento a sua passagem. 

O sinal tocou, e ele quase atropelou os colegas que chegavam à porta. Correu até a frente da sala de Raimund, mas não o viu. Su saiu e parou em sua frente. 

- Onde foi o Marrom? – perguntou Junior. 

- Ele foi à secretaria resolver algumas coisas, e depois vai ir procurar a Jack – respondeu solicita. – Por...? 

- Nada não, só curiosidade – sorriso vazio. 

- Então vamos arrumar um lugar pra sentar e trovar – ela disse. 

Foram até o saguão em frente à cantina, e visualizaram um banco vago ao lado do banheiro masculino. Sentados, caíram em silêncio. Com a cabeça apoiada nos tijolos expostos da parede, Junior virou o rosto e olhou para Su. Sorriu daquele modo vago e vazio de sempre. 

Su respondeu com um sorriso fraco, cansado. Estranhando, Junior ficou sério. Os olhos dela estavam pesados. Tocou em seu braço e sentiu o corpo dela amolecer. Impediu-a de cair para o lado e se levantou, com as mãos nos ombros dela. Nesse exato instante, Raimund surgiu gritando e sorrindo, como usual. Ao ver o rosto inexpressivo e sem cor da amiga, se aproximou, empurrando-o para o lado. Tomou Su pelas mãos e a pôs de pé. Virou-se para Junior e disse entredentes: 

- Espera aqui. 

Junior se limitou a assentir e sentar. Ficou cuidando enquanto Raimund conduzia a amiga para um lugar aberto. Quando voltou, sua expressão era de dúvida e temor. 

- O que aconteceu aqui? – perguntou Junior, soando despreocupado, mas sendo enganado em seu íntimo. 

Raimund suspirou, aparentando um cansaço de alguém que carrega um grande fardo de cereais às costas. – Foi você. 

Junior não entendeu, mas se limitou ao silêncio. Havia algo mais por vir, e esperou ele falar. 

- Tenho que ter uma conversa franca contigo depois da aula – passou a mão pelo cabelo, inspirando profundo e expirando pesadamente. Havia algo mais. – Na sua casa, pode ser? 

Junior fez que sim com a cabeça, e Raimund partiu.
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