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Canções da Meia-Noite #73 - O Grupo dos Quatro (Parte 3)

Olá caros aventureiros, nossa jornada pelo mundo a fora continua assim com as história que vão c...


Olá caros aventureiros, nossa jornada pelo mundo a fora continua assim com as história que vão chegando para serem contadas por aqui na taverna. Hoje chegamos a terceira parte da aventura de nossos heróis na terra dos elementos, onde uma nova viagem foi realizada, mas seja pelas mãos dos deuses ou pelas forças dos agentes do destino a viagem teve um final diferente, fazendo o temor crescer entre os aventureiros. 


Enquanto aguardava o sinal da saída, Junior tentava encaixar as peças que se dispunham em sua mente. O modo como Su passara mal ao seu lado ainda o deixava confuso e ao mesmo tempo amedrontado.

O sinal ressoou, liberando-os. Junior não foi encontrar Raimund na frente de sua sala, como de costume, mas foi em direção à saída da escola. Esperaria por ele na rua, longe da vista de Su (pensava que adiantaria, mesmo não sabendo o porquê).

Raimund o encontrou escorado no muro, em silêncio e fitando o vazio. Estalou os dedos diante dos olhos do amigo, trazendo-o de volta de qualquer que fosse o local em sua mente.

Seguiram em silêncio durante um tempo. Raimund puxou conversa.

- Já fez a prova de história?

Junior assentiu. Tentativa e falha número UM.

Raimund parou. – Tudo bem, então – estavam a algumas quadras da casa de Junior. – Acho que a gente já pode conversar.

Junior olhou fixo nos olhos do amigo. Era do tipo que sempre enfrentava as coisas de cabeça erguida, sem orgulho ou pedantismo. – Pode falar.

- Foi você que fez aquilo com a Su – não era uma pergunta. – Como?

- Não entendo disso – era real. Junior tentara achar explicações para o ocorrido, mas chegara apenas a uma única conclusão, que decidira ignorar por ser muito absurda.

O amigo suspirou. Olhou para os lados, confuso, buscando palavras. – Existem coisas... – tentava encontrar os termos certos, sem muito sucesso. – Coisas que acontecem com algumas pessoas... Coisas que causam transtorno e problemas para aqueles que nos cercam.

Junior captou a mensagem no ar. – Um vampiro.

Raimund se surpreendeu, mas apenas assentiu. – Isso, um vampiro da alma.

Era a suposição que tentara esquecer.

- Isso pode ser involuntário ou provocado.

- Com certeza não foi de propósito – Junior sibilava baixo.

- Eu tenho certeza que não... – era sincero, mas não parecia. – Eu quero te ajudar com isso...

Junior fez um sinal com a mão, e deixou o amigo falando sozinho. Não precisava de ajuda. Resolveria as coisas do seu modo.

No seu quarto, Junior trancou a porta e arrastara a cama. As roupas que se amontoavam foram atiradas e socadas dentro do guarda-roupa. Ajeitou o pequeno espaço que havia no centro do cômodo.

Com calma e precisão, fez uma miríade de símbolos, formando um círculo fechado, com um pentagrama no centro. Não precisaria de velas, ou outras coisas. Queria entrar em contato com alguém, e para tal apenas necessitaria daquela areia que recolhera no dia de sua iniciação na mata dos Bianchi. Sentou sobre a estrela de cinco pontas e se preparou.

Removeu a tampa da garrafa, e despejou um terço do conteúdo em sua frente, formando um arco curto com as bordas viradas para o norte. Fechou os olhos, e colocou os indicadores nas pontas do arco de areia. Respirando fundo, recitou uma curta prece que repetia baixo todas as noites. Dessa vez adicionou algumas outras palavras, direcionando sua vontade e untando-as com poder.

Em seguida, usando os dedos, percorreu o desenho formado pela areia, espalhando levemente pelos símbolos desenhados.

Juntou as mãos na frente do rosto, ainda com os olhos cerrados, e então os abriu.

As paredes haviam se ido. Não havia mais concreto ou azulejo, ou desenho ou estrela no chão. Havia apenas um grande gramado seco, sem vida e queimado. Não pretendia se demorar muito no país da terra. O usaria apenas como um portal de transição para outro local mais obscuro e profundo.

Ergueu-se e recitou uma prece que desenvolvera exatamente para aquele tipo de transição entre as paredes que dividiam os mundos. Algumas palavras sussurradas para o vento e para a terra, para o fogo e para a água.

O cenário mudou repentinamente. A paisagem se dissolveu, as árvores queimadas e mortas esmaeceram, e um véu negro e denso cobriu tudo que havia. Os sons desapareceram.

A privação de sentidos que Junior experimentou foi terrível, mas ele tentou manter o controle da melhor forma possível.

Ficar parado não adiantaria. Começou a caminhar adiante, sem noção exata do que encontraria.

Uma parede surgiu na escuridão. – Merda! – gritou, quando topou e, pelo modo como um líquido viscoso começou a verter fracamente, quebrou o nariz no impacto.

- Você costumava ser um pouco mais educado na presença dos outros, Ade.

A voz vinha de trás. Virou-se, mas não havia nada para ver. A escuridão parecia engolir qualquer som, impedindo suas propagações. Junior olhava para todos os lados, mas era o mesmo que fazer nada.

- Eu não gosto desse apelido – disse, esperando a resposta.

Veio da esquerda. – Eu sei disso – Junior tentou seguir a voz. – É mais ou menos por esse motivo que eu te chamo assim, Ade.

Correu rápido e reto, apenas para bater com força de frente em outra parede.

- Você também era mais esperto.

Junior correu para a direita, mas o mesmo ocorreu. As paredes surgiam do nada, cada vez mais próximas, chegando ao ponto se fecharem ao seu redor, impedindo-o de avançar ou retornar.

- Aparece logo, seu desgraçado filho de uma puta! – gritava a plenos pulmões, irado e descontrolado.

Algo roçou em sua perna, derrubando-o em seguida. As luzes voltaram de repente, revelando um ambiente vasto (sem paredes) e totalmente branco. Um homem alto e trajado como um advogado se encontrava sobre ele, olhando-o nos olhos e sorrindo.

– Você também costumava ser ágil, Ade – o tom escarnecedor fazia Junior perder a paciência. Sem palavras, saiu de cima dele, e estendeu uma mão. – Você fica melhor em pé, Ade.

Aceitou a ajuda, e disse:

- Você costumava ser mais agradável, Al – Junior sorriu. O homem não gostava desse nome.

- Eu ainda sou – apontou uma cadeira branca, que não estava ali a um segundo. – Sente-se.

Sentou em uma que surgiu atrás dele.

- Conte-me, faz quanto tempo?

- Um mês – Junior respondeu.

- Um mês... – acariciava o queixo, afagando uma barba que não estava ali. – Um mês é muito tempo, Ade.

- Eu sei.


Al assentiu. Ajeitou-se reto na cadeira. – E mesmo assim, aqui está você!

Levantou-se, e começou a rodear o rapaz. – Você saiu daqui na última vez bufando feito um touro, irado e descontrolado – aproximou-se do ouvido. – Eu me lembro de que você estava sangrando também.

Junior tremeu. Lembrava-se de um mês atrás, quando entrara naquele local pela primeira vez. – Tivemos nossos problemas, acho que foi só isso.

A mão do homem apertou seu pescoço. – Pode-se dizer que tivemos mesmo, Ade – a pressão afrouxou. – Mas acredito que isso não se repetirá, não é mesmo?

Alisando o pescoço, com a respiração entrecortada, apenas assentiu.

- Foi ele, eu tenho certeza!

Raimund balançava a cabeça, tentando organizar as ideias. Su não se encontrava junto deles. “Ela achou melhor não se juntar a nós”, dissera ele. Junior sabia bem quem achara melhor o quê naquilo.

- Eu preciso falar pra ela isso, Marrom.

Ele apenas balançava a cabeça, dizendo que não seria possível.

- Primeiro, tu vai precisar lidar com teu problema sozinho, depois volta a falar com ela.

Caso encerrado. Não havia discussão com ele.

A aula permanecia entediante. A professora tentava explicar um pouco sobre história medieval (o fim dela), mas nada prendia realmente sua atenção.

Na classe de trás, a voz estridente de uma de suas colegas martelava em sua cabeça. Uma mão tocou seu ombro.

Virando-se, Junior viu que a garota o chamava.

- Tem algum livro pra ler pra mim hoje?

Seco, um ‘não’ saltou de sua boca, retornando a atenção para o vazio de seu caderno. Essa garota, Andressa, costuma ouvir quando Junior lia alguns trechos de seus livros favoritos para ela. Por esse motivo, ela ficou um pouco chocada com sua reação.

Uma ideia surgiu em sua mente. Concentrou-se durante um segundo, e depois focou firmemente seus olhos em uma colega de classe aleatória.

Seu nome era Sandy, e era conhecida por ser uma tiete das bandas atuais. Era irritante em enorme escala. Valeria a pena testar algo nela.

Direcionou sua energia para um ponto específico de seus olhos, e bombardeou-a com ela. Sentiu perfeitamente quando a energia da garota começou a diminuir, e a sua aumentar.

Ela pesou os olhos, soltou um bocejo. E depois voltou ao normal.

Nesse ponto, Junior sentiu uma fraqueza instantânea. Era estranho, como se sua energia estivesse sendo drenada.

- Você não tá se esforçando o suficiente, Ade.

A voz surgiu repentina em sua mente. Sobressaltado, Junior quase gritou com o susto, mas se conteve. Era a primeira vez que aquela voz aparecia.

“O que você está fazendo na minha mente, Al?”, pensou.

- Eu sempre estive aqui, dããã.

“Como que eu nunca te ouvi antes?”.

- Eu sei ficar em silêncio, Ade.

Era confuso. Falar com sua própria mente era perturbador, onde não se sabia se era apenas imaginação ou realmente uma conversa.

- Dica do dia, pra te alegrar, Ade – disse, e pigarreou. – ‘Não tente drenar energia de receptores, pois eles reagem de forma equivalente’.

“Receptores?”, pensou.

Apenas silêncio. Ele se fora.

Esperou Raimund fora da escola, e falou-lhe sobre o ocorrido na sala de aula.

- A Sandy é receptora, então?

- Eu não sei o que isso quer dizer, mas tenho quase certeza que sim, ela é uma dessas aí.

- Huum... Isso explica o porquê da falta de empatia dos outros com ela...

- Como assim? – não explicava nada, na verdade. Não para ele.

- Receptores tem uma facilidade grande em absorver energia de outras pessoas desprevenidas – estavam chegando à esquina de sua casa. – Melhor tomar cuidado com ela, cabeção. Eles são muito perigosos quando irritados, mesmo inconscientemente.


- Vou tomar, capitão. Cuidado, no caso, capitão – fez uma continência e riu.

Marrom fez continência e riu também. – Faça isso, cabo.

O almoço estava pronto, e teria a tarde livre em seguida. Algo faria, pra não ficar naquele marasmo.

Após limpar a louça da comida, foi para a sala, onde ficava o computador. Ligou-o e aguardou que inicializasse normalmente. Abriu uma pasta onde guardava suas coisas, e clicou em um arquivo chamado mbmbasico.pdf.

Leu algumas páginas do manual de RPG e depois o fechou. Sua tarde estava muito tediosa. Resolveu fazer uma visita a alguns lugares novos.

E o melhor: sem precisar sair do quarto.

O círculo ritualístico estava pronto, a areia em meio-arco estava no lugar certo, e a estrela de cinco pontas se encontrava no centro do ambiente.

Repetindo a mesma ladainha da última viagem, fechou os olhos.

Quando os abriu, se encontrava em um longo corredor escuro. Caminhando adiante, era possível enxergar o contorno de algumas coisas: um bebedouro baixo; algumas portas; uma cadeira de rodas; uma estranha espada larga; uma tira de pano estreita atada na cabeça de um manequim; uma faca prateada e longa no bolso de um paletó caído no meio do caminho; um par de espadas japonesas atadas a um cinto, junto com uns óculos escuros; uma foice alta e larga; uma miniatura de uma forca e, por último, um bastão fosco de metal, de comprimento curto.

Viu aquilo, tocou na maioria daqueles itens, e não compreendeu o significado daquilo.

- Um dia tu vai entender, Junior.

A voz veio de trás. Rápido, virou-se, preparando um soco.

O que viu em sua frente, no entanto, era inominável.

Viu a si próprio, só que alguns anos mais velho.


- Nesse dia, você deverá deixar esse mundo para trás, e lutar para salvar a vida de seu espelho.


Uma luz forte o cegou momentaneamente.


Quando recuperou a clara visão, estava em seu quarto de novo.

Em suas mãos, sangue fresco e cinzas.


Aula novamente. Tédio renovado, matéria maçante, esforço zero.

O intervalo demorou a chegar. Junior esperava na porta da sala, aguardando o sinal. Quando esse veio, se dirigiu calmamente para a quadra de vôlei, na parte descoberta da escola.

Em um banco encostado às paredes do prédio, Su e Raimund conversavam. Pararam quando ele chegou.

- Eu preciso falar com vocês.

- Pode falar – Raimund estava contendo o tom de voz. Ficara irado pelo fato dele ter desobedecido a uma ordem direta, mas Junior não se importava realmente. Por esse motivo, ele se conteve. – Estou ouvindo.

- Eu quero primeiro pedir desculpas pra ti, Su – virou-se para a amiga. – Sério. Perdoe-me, eu não sabia que isso poderia acontecer – em seguida, voltou-se para Marrom. – Em segundo lugar, tem algo que eu queria contar pra vocês.

- E o que seria?

- Eu fiz uma viagem ontem.

- Legal. Pra onde?

- Era pra ser no país da terra.

- No país da terra? – Raimund se levantou. – Tu tá maluco? – estava visivelmente revoltado. – Quantas vezes eu já te avisei? Só tem guerras lá, por que ir lá, me explica?

- Você não sabe pelo que passei quando estive lá – e não saberia tão cedo. As batalhas que presenciara, o poder que desfrutara, a magia que descobrira. Foram ínfimos momentos na terra, muitos anos no mundo dos elementais. – Eu me sinto honrado de estar no meio dessas batalhas, então não tente me repreender – falou como se se sentisse ofendido. – E, no final das contas, eu tô de volta, não tô?

Raimund apenas bufou.

- Enfim – continuou. – Como dizia, antes de ser brutalmente interrompido, minha intenção era ir ao país da terra, mas fui levado para outro lugar.

- Que lugar?

- Já ouviu falar do sobremundo?

Raimund fez uma negativa com a cabeça. O mesmo fez Su.

- Pois bem: eu também não, até ontem – sentou-se ao lado do amigo. – De alguma forma, fui atraído para o local quando tentava me comunicar com o Al – olhou de soslaio para Su, mas não viu nenhuma reação aparente. – Tinha esse corredor, e várias coisas no chão, uns objetos sem nexo...

- Nexo zero?

- Vai se foder, Raimund – odiava ser interrompido por piadas toscas. – Tinha também um homem, talvez uns cinco anos mais velho, não tenho certeza.

- Quem era ele?

- Esse é o ponto: era eu.

Raimund e Su se olharam. – Você?

- Sim – assentiu. – Eu sei que pode parecer loucura, mas é verdade: era eu, mas não era eu, se vocês me entendem.

“Ele me falou algo sobre deixar tudo e salvar a vida do meu espelho, ou algo do gênero. Eu vi uma luz branca que me cegou por alguns instantes e quando me recuperei estava no meu quarto de novo. Eu tinha sangue nas mãos e cinzas.”

- Sangue e cinzas? – Su falou pela primeira vez. – O que isso significa?

- Eu não sei – disse Junior. – Mas eu sei o que estava escrito no chão quando eu acordei – colocou a mão no bolso traseiro e tirou um pedaço amassado de papel, entregando para Raimund.

Desdobrou-o, e leu-o em voz alta. – Olhe por seu espelho, cuide de seu reflexo no mundo superior – virou o papel, e devolveu para Junior. – O que isso tem a ver com o sobremundo que tu falou?

- Esta frase estava escrita em inglês no chão do meu quarto, com cinzas e sangue – guardou o bilhete novamente no bolso. – Estava quase desaparecendo, então decidi anotar. A palavra over estava antes de world, e eu pensei ter visto um s e apóstrofo, mas não havia nenhum, era apenas um garrancho do ‘r’. As duas palavras juntas formam overworld, ou sobremundo.

“Resolvi tentar esquecer aquilo, mas algo martelava em minha mente”.

- Recorri ao Al.

“Ele me disse que era apenas um rumor, algo que não podia ser provado, mas era algo corrente entre as entidades do mundo: o mundo como nós conhecemos é um universo paralelo a vários outros, onde cada um deles é reflexo do outro, com pequenas variações cruciais que diferenciaram nossos futuros e destinos.”

- Esses reflexos do mundo, também chamados de dimensões, coexistem no mesmo espaço, mas com uma película tênue que nos impede de enxergar além de nossa própria realidade – Junior se levantou. Estava empolgado, o intervalo estava quase acabando, e a melhor parte não havia chegado. – Lembra o que o eu mais velho disse sobre meu espelho?

- Sim.

- Pois então: meu espelho é, na verdade, um reflexo de mim mesmo propagado no universo!

Raimund e Su olhavam para ele com caras estranhas.

- Vocês não entenderam nada, não é?

- Uma parte sim, mas essa coisa de espelho... Não acha meio loucura isso? – Raimund queria acreditar, mas existem coisas e existem coisas, medidas e limites para a sua crença.

- Não. Seria algo mais como um alter-ego do que um clone meu, compreende? – os dois se levantavam, e iam deixando-o sozinho. – Vocês tem que acreditar em mim!

Os dois já estavam longe. Desanimado, Junior se atirou contra o banco.


O sinal do fim do intervalo tocou.

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