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Game Over #11 - O que é um jogo?

Hiho, gamers! Chegamos na décima primeira edição da Game Over e, até agora, já discutimos muitas coisas relacionadas aos games e ...


Hiho, gamers!

Chegamos na décima primeira edição da Game Over e, até agora, já discutimos muitas coisas relacionadas aos games e ao game design. Aliás, se você acompanha essa coluna, você sabe o que é um game, certo? Tem certeza? Tem certeza mesmo? TEM CERTEZA? Tá, ok.

..... mas você tem certeza?

Então vem comigo descobrir que você, talvez, esteja errado/errada!

Definir o que é um "jogo" pode ser mais problemático do que se pensa. Parem pra pensar: o que é e o que não é um game? É uma questão que vai muito além da semântica e da mecânica do jogo - e pode confundir muitas cabeças por aí.

Vamos começar lembrando daquele caso sobre a Jennifer Hepler, uma roteirista da Bioware que fez uma proposta um tanto quanto diferente sobre games: ela queria dar aos jogadores a opção de simplesmente pular cenas de combate (assim como muitos jogos permitem que você pule aquelas animações). Não é exatamente uma novidade, afinal, L.A. Noire fez isso - permitiu que jogadores pulassem as cenas de ação na qual eles tivessem falhado três vezes.

Algumas comunidades gamers atacaram a roteirista por ela ser mulher e atacaram também a ideia dela: "pular o combate de um jogo é um absurdo", "ela é o câncer da Bioware" e todo aquela blablabla de gente obtusa.

Um jogo é algo que permite não apenas a interatividade, mas um DETERMINADO tipo de interatividade (normalmente chamada de "gameplay" ou "mecânica de jogo") onde há controle de um ou mais personagens. "Jogos" que não se enquadrem nessa categoria são considerados... ahn, apenas "dvds" - como um show.

A encruzilhada dos argumentos contra os jogos não-tradicionais é exatamente essa: estamos jogando ou estamos apenas assistindo o desenrolar de algo?

... o que nos faz perguntar o que diabos é essa tal de "interatividade".

Vamos pegar dois exemplos: Dear Esther e LSD.

LSD, ahn... literalmente?

"LSD" - de Playstation - um jogo em primeira pessoa no qual você apenas anda por um cenário bizarro aonde pode acontecer todo o tipo de coisas bizarras. Você não "faz" nada. Você apenas anda por aí. E você nunca viu esse jogo por aqui porque ele foi lançado apenas no Japão, infelizmente.

Sim, Dear Esther tem gráficos assim.

Em "Dear Esther" não há lutas, nem puzzles, nem absolutamente nada além de belos visuais, onde você anda pelo cenário. Basicamente, é apenas uma exploração de algumas ilhas/cavernas. Porém, ele cria um cenário secundário de interação, onde o papel do jogador é ir ligando os pedaços da história e "assistindo" o desenrolar a medida em que descobre novos pedaços da narrativa.


Então, Dear Esther é um jogo indie ou é uma espécie de dvd/filme interativo?

Há um detalhe sobre Dear Esther que é crucial: você escolhe onde vai explorar. 

... não me olhem com essa cara, isso é realmente importante!

O fato do jogo permitir que você escolha aonde explorar (ao invés de sempre te obrigar a seguir determinada linearidade) é uma coisa grande, apesar de quase não ser notada. Sério, parem e me digam agora jogos mainstream onde você escolhe o que fazer e o jogo te permitir acompanhar a história sem te obrigar a começar ou terminar pelo caminho "x" ou "y".

Pois é.

Dear Esther é um premiado jogo do mercado indie porque, dentre outras coisas, permite que o jogador controle a maneira como vai "assistir" a história - e poucas interações são mais poderosas do que essa.

Mas vamos entender como isso se aplica no cenário mainstream?

Quem lembra de um dos maiores momentos de Modern Warfare, onde você controla o soldado Paul Jackson, quando uma bomba nuclear explode? Após a explosão, você joga com o Jackson e ele se arrasta lentamente, dando ao jogador a impressão de que pode se salvar - até finalmente entender que ele está apenas morrendo. Fim.



Outro exemplo? "All Ghillied Up", ainda em Modern Warfare.

"All Ghilled Up" é um flashback onde o jogador deve seguir direitinho as intruções do comandante e qualquer desvio é automaticamente uma falha na missão. Fim de papo.

Recapitulando: no primeiro exemplo, você controla um soldado se arrastando, mas ele vai morrer, não importa o que você faça. No segundo, o jogo te obriga a seguir o caminho "x" ou a missão falha.

Pensando por esse lado, essas partes de Call of Duty podem ser considerados parte do jogo ou são apenas um dvd interativo? Não há escolhas, não há caminho. Em ambas as cenas, você apenas tem a sensação de "controlar" algo, quando na verdade a história já está definida e você deve apenas seguir o roteiro.


Entenderam onde eu quero chegar?

Tá, mas e daí?

E daí que cada vez que tentamos excluir algum tipo de "interação" dos jogos, algo novo aparece e prova que estávamos errados. Existem diversos jogos mainstream que não se enquadram no comum. Pensem no "Wii Fit", por exemplo. Isso é um jogo ou uma espécie de "academia interativa"?

Interatividade é um conceito absurdamente complicado de definir, então esqueçam as ideias tradicionais de como ela deve ser implementada. Com mil diabos, uma vez, em uma agência, eu joguei um jogo que reconhecia os movimentos faciais através de uma faixa na sua cabeça! Imaginem poder combinar isso com o LSD!

... e não me olhem com essa cara, eu estou falando do jogo LSD e não da droga, malditos sejam!


Existe um jogo chamado "Journey to the Wild Divine", onde o importante é o corpo do jogador, e, para "avançar" em certos pontos, o seu corpo deve estar em determinado estágio de relaxamento. Então, basicamente, o jogo te ensina a meditar.

Infelizmente, eu nunca tive a oportunidade de jogar esse tipo de jogo, mas imaginem o potencial disso! Ficar se questionando se isso é ou não um jogo não importa pra ninguém. Sério, quem se importa?

Isso funciona? Vale o meu tempo? É bom para mim?

Essas são as perguntas importantes. Ninguém deveria se importar se estamos falando de Dear Esther, Call of Duty ou Super Mario; o que realmente importa é a maneira como o jogador vive essa experiência.

É estranho pensar que, nos games, um ambiente que fuja dos padrões é rapidamente isolado pela sociedade gamer. Não deveríamos abrir os braços para todos os gêneros? Os jogos, como fuga da realidade que são, não deveriam ser exclusivos. 

O perigo de ter um público com esse tipo de mentalidade (que exclui aquilo que não se encaixa nos padrões) é que grandes empresas como a Atari e Microsoft irão dar ouvidos a essa maioria - e vão deixar de produzir conteúdos fora do comum para nos dar apenas mais do mesmo.

E agora, Mister M?

É natural que os jogos absorvam técnicas de outras mídias - como as câmeras ou a narrativa de um filme, por exemplo. Mas é um delírio achar que os jogos sempre devem (ou irão) ser da mesma maneira. Eu sempre digo para vocês que os jogos são uma espécia de arte - como a pintura - e, particularmente, mal posso esperar para que apareça um movimento de "abstração" nessa arte, que permita que novos artistas e produtores experimente e que o público descubra os prazeres dos jogos que não seguem os padrões comuns. 

Infelizmente, hoje em dia, eles são chamados apenas de jogos "experimentais", embora não tenham nada de experimentais. São apenas modelos diferentes, tão importantes como qualquer outro movimento mainstream, mas que o público ainda não aprendeu a abrir a cabeça e aceitar isso como um gênero tão natural quanto qualquer outro.

Conclusão....

Perguntar se "isso é um jogo" é um argumento que nos impede de pensar em coisas mais importantes. Dear Esther é uma experiência, no mínimo, interessante, que pode certamente atrair muitos fãs e ser melhor aproveitada no futuro - mas que nunca irá para o mercado mainstream enquanto o público achar que um jogo deve ou não ser feito desta ou daquela maneira.

Se você se recusa a gostar de certos estilos de jogo, está tudo bem. Ninguém deve ser obrigado a gostar deste ou daquele estilo. Mas não podemos criar um paradigma e dizer que "apenas isso ou aquilo pode ser considerado um jogo". Asura's Wrath e Dear Esther são jogos excelentes que, mesmo que você não goste, podem abrir portas para um novo jogo do qual você pode vir a gostar.

Os jogos sairão ganhando. A indústria sairá ganhando. Os jogadores sairão ganhando.

E apenas quem diz "não" para qualquer coisa nova é quem sai perdendo.

E se você concorda ou discorda, por que não deixar um comentário e continuar a discussão? Ou pode ir lá no twitter e sugerir um tema para as próximas semanas!

Cheers!
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