rpgvale
1599924783602205
Loading...

Canções da Meia-Noite #70 - O Grupo dos Quatro (Parte 1)

Essa vida de bardo não anda sendo fácil, além de não saber soltar magias e usar armas, o tempo tem sido um inimigo difícil e por conta ...


Essa vida de bardo não anda sendo fácil, além de não saber soltar magias e usar armas, o tempo tem sido um inimigo difícil e por conta disso nossa taverna abrira suas portas hoje. Mas não se desespere jovem aventureiro, pois hoje nossa dose semanal de histórias fica por conta de Junior Ade, que traz a saga  de jovens amigos, semelhantes a você e seus companheiros sentados nessa mesa bebendo sua cerveja, que poem seus ideais a prova em tempos de guerra. Então deixem o taverneiro servi-los e que a canção de hoje comece a ser cantada!

































  Primeira Parte ou A iniciação nos elementos.

Raimund segurava firme o corpo imerso na água. Não havia resistência, nem um movimento tentando se libertar. Ele sabia o que fazia, sabia o tempo necessário. 

Olhava de cima o amigo sob a água, sem respirar e com os olhos abertos. Esses fitavam o céu, mas não enxergavam isso. Seus olhos se encontravam em outro lugar, visualizando outra dimensão, outro mundo. 

Junior não sentia a água ao seu redor. Não percebia que não respirava, nem mesmo percebia o céu borrado acima de si. 

Somente fitava o outro mundo, o local do repouso dos Pais da Água, jazendo em palácios de corais, encobertos pelas ondas e pelas marés no fundo do Grande Oceano. 

Fitava o mundo pelo qual escolhera lutar. 

Em um pequeno banco de areia, longe do chefe da seita, que se achava no centro do pequeno córrego límpido, submergindo outro amigo, ela observava quieta. Logo seria sua vez. Teria de passar pela água, seu elemento do zodíaco. 

Um rápido tremor passou pelo seu corpo. Provavelmente o frio, devido a pouca roupa que usava para a cerimônia. 

Era isso que queria acreditar, na verdade. 

Sobre uma pequena e arruinada represa, formada por pedras de arenito, quebradas e erodidas por muitos anos de atrito com a fraca corrente do córrego, sentado e largado, Karl observava a situação de um ponto de vista despreocupado. 

Havia a garota desconhecida antes dele, e o amigo do chefe da seita, submerso sem reação alguma. Já fazia quase um minuto que estava naquela, sem se movimentar ou reagir. Confiava em Raimund, mas não sabia até que ponto. 

Fez uma pressão fraca no pulso de Junior. Esse respondeu com um fechar de punho. Decidiu que já era o suficiente. Tirou a mão do peito do amigo, e ergueu sua cabeça para fora da água. 

- Você desceu sem o conhecimento da água – falava pausadamente, e alto o suficiente. – Agora, saia dela como um servo dela. 

Quando Junior subiu no banco de areia, do outro lado da corrente, Raimund fez um sinal para sua amiga. – Sua vez, Su. 

Respirava o ar com vontade. Havia saído de súbito do Grande Oceano, no reino das águas. A visão que teve enquanto se encontrava submerso pareceu ter durado uma eternidade em outro mundo. 

Não possuía muita fé em tudo aquilo antes de presenciar na própria pele a viagem entre os mundos, ali embaixo da água. Em um instante, o céu e a água, e depois havia apenas um grande mar ao seu redor. O mundo dos Pais da Água, sentados em seus tronos de conchas. Era impossível ser cético quanto a isso. 

A experiência foi inexplicável. Estava a poucos centímetros da superfície, e de repente ao seu redor tudo era água. Não se afogava, no entanto. Ao longe, uma construção incrível, alta e brilhante, destoando da escuridão daquele grande mar. 

Ao se aproximar, percebeu que as paredes eram de corais. Sobre eles, anêmonas e outros seres marinhos que viviam fixos. Uma grande porta feita de pedras e algas estava subida. Su seguiu uma trilha demarcada. No fim, viu o motivo de tudo aquilo: os Pais da Água a observavam, com sorrisos estampados. 

Estava nervoso, mas não admitiria isso. Já era a sua vez. Depois que Su foi erguida da água, Raimund pronunciou as mesmas palavras e mais algumas coisas. Fez o sinal para que entrasse. Karl não gostava muito daquela água. Parecia uma entidade viva. 

Raimund o ajudou a se deitar no leito líquido. O toque frio da água em sua pele somente piorou a situação. O amigo o alertou. – Você entrará no reino da água. Você é do fogo, então tenha cuidado. Não faça merda. 

Fazia alguns segundos que Karl havia sido submergido. Raimund pensava na situação em que se encontrava, tendo de agir com seriedade pelos amigos. Era o responsável pelo grupo, sendo chefe ritualístico e conselheiro pessoal de todos. Tinha de ser sério por todos. 

De repente, Karl começou a se mexer. A princípio, levemente, mas depois se sacudiu com violência, se debatendo descontroladamente. O amigo lutava para emergir, mas Raimund teve de agir com frieza, segurando-o imerso. 

Junior olhava inexpressivo enquanto o amigo se debatia sob a água. Fixava o olhar também no rapaz que o mantinha firme na corrente. Raimund fora a peça chave que o trouxera aquele local. O ceticismo forçado e inquebrantável que Junior sustentava era o que o manteve são e conciso durante toda a sua curta vida. 

A experiência daquele dia estava sendo enorme e impactante. Suas certezas e conclusões sobre tudo estavam confusas. Não conseguia absorver aquilo tão rápido quanto desejava. Karl se debatendo, Raimund o segurando. Loucura. 

Su olhava perplexa. Seu amigo não deixava Karl emergir, mantendo-se firme e sério. Não aguentando aquela passividade, gritou. – Solta ele, Raimund! 

O rosto de seu líder se voltou para ela, carrancudo. Ela conhecia aquele olhar: cenho fechado, chamas nos olhos, nenhuma palavra. Ela silenciou. 

- Eu sei o que estou fazendo. – a voz dura e rouca a amedrontou. As mãos de Karl tentavam segurar os braços de ferro que o mantinham imerso, mas não surtia efeito. Então, súbito e rápido, Raimund puxou o amigo para cima. 

O modo esforçado com que puxava o ar, sorvendo cada partícula de oxigênio, inconstante e afobado, o medo e a adrenalina liberada pela situação ainda galopando em suas veias. 

O pulmão doía, os olhos doíam. O corpo todo ardia e chiava, enrugado. 

Estava sentado no banco de areia junto de Junior e Su. Raimund vinha ao seu encontro. Seus olhos eram pura ira. Imperativo, perguntou. – O que tu fez? 

Karl, com a cabeça baixa, soltou um murmúrio baixo. – Fiz merda. 

Raimund balançava a cabeça de modo descontente. Suas calças e sua roupa de baixo estavam totalmente molhadas (obviamente), e seu humor estava completamente seco e ríspido. Não estava com vontade alguma de discutir sobre o que Karl vira quando estava imerso, pois já começara a imaginar. Sua raiva somente não era suplantada pelo seu dever para com os presentes. Os três se encontravam sentados no banco de areia, e o olhavam (menos Karl). 

- Para terminar, está na hora da iniciação mais complicada: a da terra. 

Junior sabia muito bem que era ele agora o centro das atenções. Os outros rituais de iniciação dos elementos haviam sido consideravelmente tranquilos em comparação com o que viria em seguida. O primeiro ritual havia sido o do fogo, fácil, em que saltaram sobre uma fogueira diminuta, feita em uma bandeja pequena de metal fosco. Era o elemento zodiacal de Karl. O segundo havia sido o do ar, em que eram abanados por Raimund com um grande leque. O terceiro era o da água (Su), também tranquilo. Mas agora era sua vez. Era a vez de a terra ser chamada. 

Su não estava muito certa sobre o que aconteceria em seguida. Dos antigos iniciados naquela pequena seita, apenas uma ela conhecia e, mesmo assim, não eram daquele tipo ‘BFF’ (best friends forever). 

Tudo bem, ela sabia mais ou menos o que aconteceria, mas não entendia como estaria em contato com o-que-quer-que-fosse que existisse daquele lado do mundo da terra. Raimund olhava fundo em seus olhos, percebeu. Um sorriso. 

- Tudo vai ficar bem, Su. – o sorriso naqueles lábios fartos não a convenceu. 



Karl seria o último, não havia com o que se preocupar, por hora. O ritual da terra seria naquele mesmo banco de areia, e consistia na mesma ordem de antes: Junior, Su, Karl, e seria executado com o máximo de cuidado. 

- Vamos fazer na mesma ordem, mas teremos de ser cuidadosos – Raimund virou-se para Su. – Principalmente você. Você é da água, e a terra tende a absorver seu tipo de elemento. 

Su olhou firme para Junior, um olhar que Karl não entendeu muito bem. 

Raimund deu início à primeira parte do ritual. Deitou Junior no banco de areia, e pediu que os outros se afastassem um pouco. Havia um tronco caído sobre o córrego, a dois metros dali, para onde Karl e Su se dirigiram e se sentaram. 

Com as duas mãos, começou a escavar logo ao lado direito do corpo do amigo. Foi amontoando a areia que removia, até que decidiu que era o suficiente. Pediu que colocasse o braço direito na pequena vala moldada. Em seguida, cobriu com terra o que ficava aparente. Repetiu o passo no outro braço, e em seguida nas pernas e na cabeça, mas cobrindo apenas atrás das orelhas. – Feche os olhos agora. 

Junior sentia o toque frio da terra em sua nuca e em suas extremidades. Gostava da sensação da areia molhada beijando sua pele, sorvendo sua energia e a renovando. Não havia mais espaço para descrença ou ceticismo. Estava na hora de mostrar que não estava ali para brincar, mas sim para se encontrar. 

Fechou os olhos e desacelerou a respiração, como pedido, e aguardou as próximas ordens, mas essas não vieram. O barulho desapareceu ao seu redor. O vento cessou. Deu-se por conta que não sentia mais nada sobre si, mas sim sob si. Como se fosse grama. Quando abriu os olhos, o céu que via não era mais o mesmo. 

De longe, sobre o tronco, Su observava o modo metódico com que Raimund cobria as pernas de Junior. Não parecia algo que fosse realmente perigoso, ou que fosse levar muito tempo, ou que gerasse algum desconforto além do usual (como a areia entrando em lugares desnecessários). 

Ouviu Raimund falar algo, logo após terminar de repousar a cabeça do amigo em uma cavidade rasa, deixando suas orelhas no nível da areia. 

Viu Junior engolir em seco uma vez. Viu o amigo respirando devagar. 

Viu quando algo explodiu em seu peito. 

O susto causado pelo som da explosão quase o derrubou do tronco. Quando retomou o equilíbrio, tentou entender o que acontecera. Não estava prestando atenção em Raimund, ou no amigo dele, ou mesmo na garota com pouca roupa logo ao seu lado. Tentava esquecer que estava ali, mas o barulho o puxara de volta. 

Saltou do tronco quando viu que Junior estava sentado com o peito fumegando, mas Raimund ergueu a mão e mandou que não chegasse perto. Ficou parado ali, até perceber que estava com água pela cintura e subir de volta à árvore. 

Junior se ergueu. No centro de seu peito, uma grande circunferência negra. 



Raimund perguntou mais uma vez. – Tem certeza que está tudo bem? 

O amigo apenas assentia. Já em pé, Junior não se voltava para ele, respondendo de costas a tudo. 

Estava realmente preocupado. Sabia que aquela poderia ser uma consequência de olhar dentro do mundo da terra, local de conflitos intermináveis. O amigo havia sido levado no meio do campo de batalha e, atingido em cheio, fora lançado de volta para o mundo humano. A grande marca circular no peito dele indicava que encontrara uma salamandra mal-intencionada. Mas ele estava vivo. 

Junior sentou no tronco em silêncio. Sentia o olhar de Karl sobre si, mas apenas o som das árvores e da corrente de água chegava aos seus ouvidos. Olhou durante muito tempo para sua grande e negra marca de fuligem no peito. Não doía, não estava vermelha, mas os danos haviam sido mais profundos do que na carne: haviam atacado sua energia, desintegrando-a quase por completo. Dentro daquele mundo em guerra, o tempo parecia não passar. Ficou durante um ano buscando os palácios dos Pais da Terra, mas não encontrou. Quando finalmente achou, estavam vazios. O país da terra estava vazio, e ele estava no meio de uma guerra. 

- Não – Su não iria aceitar isso. – Eu também vou fazer essa iniciação! 

Raimund tentava discutir isso, mas ela estava irredutível. Ela sabia da importância que existia em ser iniciada em todos os elementos, mas seu amigo dizia que não calculara direito o perigo, e que se tornara quase impossível passar incólume pela tormenta no país da terra. 

- Você sabe do perigo que corre, não sabe? – Raimund observou com pesar o assentimento da amiga. Não haveria modo de demovê-la daquela decisão. – Então está certo, mas você vai usar isso – e entregou-a um cordão feito de palha. 

Karl não acreditava que Raimund iria levar tudo aquilo adiante. Não interferiria em nada, pois não podia ir contra o gênio forte do amigo. 

Olhava de canto para Junior, ao seu lado no tronco. Por sua vez, esse fitava o vazio, com uma expressão vazia, em um silêncio profundo. 

A marca em seu peito era uma circunferência perfeita, com as bordas externas tendo grandes manchas como longos dentes negros. Karl olhava fixo para essas manchas, pensando em o que teria causado aquilo. Uma sensação de ódio repentino o tomou. Sentiu a ira subir e, súbito, um murro voou contra Junior. 

Raimund estava concentrado no ritual de Su quando ouviu o som de algo caindo na água. Quando se virou, viu a grotesca cena que se desenhava: Junior em pé no tronco, segurando o pulso esquerdo de Karl, enquanto o resto do corpo se encontrava imerso. Karl lutava para se soltar, mas Junior parecia manter firme e seguro em sua mão. 

- O que é isso?! – Raimund gritou alto. Junior olhou o amigo nos olhos, um olhar vazio, inexpressivo. Em seguida, olhou novamente para Karl, se balançando e berrando para que o largasse. Desse modo, sem piscar, Junior o soltou na água. 



Não soube explicar o porquê daquela reação extrema. Foi algo como uma defesa involuntária, uma retaliação ao ataque da salamandra. 

Estava claro: quando Junior se voltou a Karl, instantes antes do murro ficar próximo demais de seu rosto, havia visto quem estava por trás daquele golpe. 

Viu uma grande sombra vermelha e em chamas que se punha por detrás do conhecido, na forma de uma grande e personificada salamandra, o Elemental das chamas, que impulsionara o golpe. Por esse simples motivo, saber o arquiteto do golpe, reagiu de forma branda. Poderia ter sido pior, mas ele sabia medir seus atos. 

Su ouviu Raimund gritando, mas imaginou em seguida que ele não gostaria que ela se mexesse e arruinasse o avanço da preparação para a inicialização da terra. 

As pernas e os braços já estavam cobertos. A cabeça já repousava no leito arenoso. Tudo pronto. 

Sentiu os dedos de Raimund sobre seu rosto, e fechou os olhos em seguida, mantendo a respiração em um nível calmo e compassado. 

Foi quando sentiu seu mundo girando. 

Karl sentava novamente no tronco, afastado de Junior. Não entendia o que ocorrera mais cedo, mas sabia que não fora culpa sua. Antes de atacar, ouvira uma voz sussurrando em seu ouvido. Em seguida, perdeu a noção de tempo e espaço. Quando se deu por si, estava com metade do corpo mergulhado na água, e os punhos de ferro do amigo de Raimund o mantinham suspenso. 

O modo como os fatos haviam corrido o assustara, mas tentou tirar isso da cabeça. A voz da salamandra em sua mente, porém, ainda latejava e vibrava. 

“A guerra nunca vai acabar”, ela dizia. 

Raimund tomara o máximo de cuidado ao enviar Su para o país da terra. Entregara seu próprio cordão trançado de palha, proteção mística contra possíveis problemas que pudessem vir a ocorrer naquelas paragens. 

Fazia muito tempo desde sua última viagem até o local, e essa não havia sido agradável ou bem recebida. O constante conflito entre os países da terra e do fogo eram notavelmente intermináveis. Era sempre muito perigoso mandar alguém para aquele local, pois sempre havia o risco de um embate direto. 

Não medira todas as consequências. Viu isso quando sentiu que Su partia. 

Junior sentiu que algo estava errado. O silêncio repentino, o modo como o vento se acalmou, a água que parecia correr mais lentamente. O modo como o tórax de Su parou de se movimentar. Saltou rápido do tronco, e correu até onde Raimund e a amiga se encontravam. O amigo o olhou nos olhos, e havia medo em seu semblante. Ajoelhado ao lado dela, Junior colocou uma mão sobre o local do coração dela. Estava muito lento, batendo fracamente. Sem saber exatamente o que estava fazendo, fechou os olhos e se concentrou. 

Quando os abriu, estava no país da terra novamente. 

Ofegante, tentava processar o que havia vivenciado no país da terra. 

Havia sido pega no meio de um embate de proporções titânicas, onde seres de chamas com espadas de fogo e sombras combatiam seres de estatura mediana, com orelhas pontudas e roupas verdes, armados com arcos que pareciam ser feitos de um tipo claro de madeira, bem como longas lâminas curvas e claras atadas às cinturas. O choque entre os grupos inimigos foi incrível. Tentou fugir, quando um daqueles seres verdes a atacou. Ela olhou no fundo de seus olhos, e apenas vislumbrou o vazio. Antes de apagar, sentiu que uma mão segurava a sua. 

Karl não se atrevera a mover-se no tronco. Havia sido repreendido da primeira vez que o fizera, e não arriscaria ficar de frente com Junior novamente, ou pelo menos não por enquanto. 

Su se encontrava sentada na areia, respirando sobressaltada, e Junior segurava sua mão e fazia movimentos circulares em suas costas, falando algo inaudível que não lhe dizia respeito. 

Estava ficando cansado daquilo. 

O medo era enorme. O terror o tomou. Não havia como fugir.

E assim encerramos a primeira parte de nossa história, fiquem atentos a nossa taverna que na semana que vem teremos outra canção para todos vocês.
Contos 4607783996217444053
Página inicial item

Entre pra Guilda

Mais lidos da semana

Receba nossos corvos