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Canções da Meia-Noite #51 - Acerto Crítico. Ou Não

Nas terras de Arton muitas histórias cercam as montanhas e florestas que ali existem, entre ela...


Nas terras de Arton muitas histórias cercam as montanhas e florestas que ali existem, entre elas encontramos uma em especial, sobre jovens heróis que entraram em um perigoso torneio cobiçando seu prêmio e como todo bom ladino sabe, o desejo pelo ouro pode superar muitas amizades. Quem nos traz esse dilema é Igor André Pereira (@OrdemnoCaos) ,então apreciem mais algumas canecas de cerveja, enquanto nosso amigo bardo conta sua história a todos vocês.




















Acerto Crítico. Ou não

Aquela era Norm. Cavaleiros trotavam garbosos sobre os tapetes de pétalas de flores ao chão acenando para plebeus que não enxergavam, fosse pelos raios de sol ou por indiferença. Aquela era Norm, lar dos Cavaleiros da Luz, uma das duas confrarias de maior prestígio do Reinado. Orgulho da população. 

Em Norm, os dois andavam. 

- Eles sempre falam das flores no chão, mas nunca das bostas dos cavalos... – observou Spike com zombaria. O brilho em seus olhos poderia ser alegria genuína ou ódio irreversível. Ele mesmo não saberia dizer. Tampouco o homem que caminhava ao seu lado. 

- Como? Eles quem? – o homem respondeu olhando para cima não fazendo idéia da origem do comentário. 

Tonny Lee era um halfling. Trajava trapos que revelavam aqui e ali seus músculos definidos, cultivados através do duro treinamento. Reluzia de uma camada de suor que cobria seu corpo, parte por Azgher, impiedoso aquela manhã, parte pela quantidade de álcool na bebida que carregava no cantil que, ele nunca admitiria, fazia-lhe arder a garganta e as tripas. 

- Quem? Os bardos, claro! – respondeu Spike entre uma risada sem graça, enquanto roubava os tibares de um comerciante. – por causa desses filhos da puta, o moleque sai de casa perseguindo tesouros, procurando ficar famoso e culpa o Mestre quando a porra de um goblim acerta um golpe de sorte, derramando suas tripas, acabando com a farra. 

- Que Mestre, cara? – perguntou o outro enquanto desistia de tentar entender porque Spike jogava no chão, um a um, os tibares que roubara enquanto falava. 

Com um gesto Spike encerrou o assunto. 

Norm estava em festa. O Festival da Virada das Estações era um dos feriados mais famosos da cidade. Seriam três dias de bailes e jogos. Tibares trocavam de mãos em velocidade frenética enquanto os cavaleiros desfilavam suas melhores armaduras sobre o lombo de seus garanhões. A ordenação de novos cavaleiros ocorria no festival. 

Além da Justa. O torneio recebia cavaleiros de todos os reinos para testar suas lanças em combates amistosos, embora não raro fatais. A Justa sempre era o ponto culminante dos festejos, se esquecermos, é claro, do baile em homenagem ao seu campeão. Mas naquele ano seria diferente, graças ao último desejo de Sir Glaudir, o Marquês de Manchausen. 

Todos sabiam a história de Sir Glaudir. Um plebeu tornado nobre depois de salvar um conde e toda sua família de um ataque de goblinóides. Glaudir jamais fora um bom guerreiro. Dizia-se que tivera sorte pelos assaltantes serem muito mais estúpidos famintos que qualquer outra coisa. Outros diziam ter sido muito azar do conde – este sim um exímio guerreiro - ser picado por algum inseto venenoso uma noite antes do ataque e, doente, não ter podido lutar. Sorte ou azar, o bom conde garantiu terra e o título de cavaleiro ao bravo Glaudir, que prosperou, se tornou um guerreiro razoável, sobreviveu a uma ou duas guerras e se tornou marquês. E esse era o fim da história. 

Agora, o marquês estava morto. Em seu testamento, desejou que sua espada e seu escudo (que diziam ter alguns poderes mágicos) fossem oferecidos como prêmios ao campeão da próxima Liça do Festival da Virada das Estações. O porquê de ser na liça ele não disse, mas todos desconfiavam que fosse para oferecer uma chance de prosperidade como ele teve aos infortunados como ele fora. 

A Liça era um esporte tão democrático quanto sangrento. Montava-se uma espécie de arena rústica cercada por toras de madeira. Ali podia entrar quem tivesse coragem suficiente, não importando se nobre ou plebeu. Mulheres e até crianças podiam lutar. Todos lutavam ao mesmo tempo; um contra todos e, porque não, todos contra um, em um combate sem regras. As mortes não eram bem vistas, mas por vezes não podiam ser evitadas. Poucos observavam o que na verdade era peculiar: a liça era um tributo ao caos nas entranhas da cidade cujo deus patrono representava a ordem e a justiça. 

A arena já estava fervendo quando Tonny e Spike se aproximaram. Quem os visse ansiosos e confiantes na fila, rindo e fazendo piada de tudo e de todos, não saberia dizer se estavam mais interessados na briga ou nos prêmios. Faziam o tipo dos fanfarrões que não agüentavam 10 segundos dentro da arena. 

- A Liça é perigosa, senhor. Tem certeza que irá entrar desarmado? – disse o guarda quando Tonny se aproximou para fazer a inscrição – Não seremos responsáveis por quaisquer ferimentos mais graves – acrescentou. 

Tonny iria argumentar, mas foi interrompido: 

- ‘Rapá’, ta vendo esse baixinho aí? – se referindo ao halfling - Esse é o único cara que eu conheço que pode me matar – Spike para o guarda incrédulo. 

Spike carregava uma maça curiosa. Muito polida em alguns pontos e completamente enferrujada em outros. Vestia filetes desencontrados de couro e metal que protegiam ombros, axilas e coxas, deixando desguarnecidos pescoço, cabeça, peito e abdômen. Tonny nem isso. Entrou de mãos vazias vestindo trapos. 

A arena estava apinhada de homens que deviam ter ganhado uma os duas brigas de taverna na vida e pensavam que isso seria suficiente para fazê-los emergir vitoriosos daquela turba. Porém, verdade seja dita, tinham aqueles com algum talento. Jovens que invariavelmente seriam aproveitados pela milícia caso não decidissem rastejar por algumas masmorras. Mas esses eram minoria, assim como os nobres, que tendiam a achar a liça indigna de suas posições. Tinha Spike. Tinha Tonny. Mal soou a trombeta que marcaria o inicio do combate e Spike já derrubara dois ao seu lado. Riu sem ter certeza se havia sido antes ou depois. 

Tonny Lee também se divertia com o combate fácil. Seus movimentos eram precisos. Contrariando seu tamanho diminuto cada um de seus golpes era suficiente para derrubar um oponente e mantê-lo no chão. Logo muitos, armados com pedaços de madeira ou de coisas mais letais, faziam questão de esquecer que poderia ser considerado covarde se unir para atacar um halfling desarmado. Diante de dez ou doze homens com rostos indiscerníveis, tomou um gole e sorriu feroz. 

Spike gargalhava. E apanhava. Era cirúrgico na escolha de seus oponentes. Os nobres de Norm sucumbiam sob o poder de sua maça enquanto grupos aleatórios de desdentados castigavam-lhe as costas e os flancos ouvindo apenas impropérios como retaliação. Spike gritava: Khalmyr! Khalmyr! E partia ossos. Quebrava costelas, braços, pernas e uma vez ou outra uma têmpora. Sentia, embora nunca tivesse certeza de nada, que ali era onde deveria estar. 

Fora da arena uma criança olhou para o céu, incrédula do pingo que caiu sobre sua mão. Azgher havia estado inspirado pela manhã e talvez nem um druida pudesse prever as nuvens cinza que se formavam sobre Norm naquela tarde. Mas veio a chuva, encharcando a arena, logo criando pequenas poças de sangue que esvaia de incontáveis ferimentos. 

- Sente esse cheiro, Tonny? Fede a um matadouro de porcos, mas provavelmente o bardo que contar a história desse dia não irá mencionar isso – gargalhou Spike. Sua voz era um limiar indefinido entre satisfação e revolta. Ouviu-se um estalo quando sua maça encontrou as costas de um homem que tentava se erguer com dificuldade enquanto cuspia os poucos dentes que ainda lhe sobrava. Agora eram somente os dois. 

Tonny Lee ensaiou uma risada sem graça diante das palavras do companheiro saboreando o sentimento agridoce que elas carregavam consigo. Logo falou: 

- Os itens já são nossos, Spike. Agora só resta decidir quem irá desistir da luta e quem irá vencer a liça. E já aviso que não serei eu – riu sabendo que a piada seria mais engraçada não fosse o fundo de verdade que havia em suas palavras. Ele nunca havia perdido e parte de si, por vaidade ou por qualquer outro motivo que não sabia ao certo definir, não iria, nunca, dizer “eu desisto”. No entanto se surpreendeu com a resposta do amigo: 

- Eu também não! – disse Spike sorridente gritando contra a grossa chuva que caía – E vou lutar a sério, Tonny! Prepare-se! 

Surpresa. Quando Spike avançou, Tonny estava incerto sobre o que esperar. Poderia parar a maça a centímetros de sua cabeça e desistir ou bater mais forte do que havia batido naqueles infelizes no chão. O avanço rápido do amigo e o momento de hesitação tornou uma esquiva impossível. Quando aparou o golpe, soube que não havia brincadeira no ataque (ou Spike achava que aquela era uma brincadeira que seria ainda mais divertida se fosse levada a sério?). Não sabia o que esperar e então contra-atacou. Um chute. Um chute... 

- Aquele é você – disse o velho com a cara cinza de sorriso fácil, usando casaca e cartola verde, apontando para o corpo jogado displicente do chão. 

O pescoço quebrado em um ângulo impossível. O silêncio fúnebre do público depois da surpresa. O halfling diante do corpo sem entender como havia acontecido. Estavam ao lado da cena, mas ninguém parecia notar-lhes. 

- Você planejou isso... – disse Spike saboreando a sensação de enxergar a si mesmo jogado no chão. Morto. Não decidira se aquilo lhe era bizarro, divertido ou ambos! 

O velho não respondeu. Olhava a cena com um sorriso matreiro nos lábios enquanto brincava com dois dados de vinte lados entre os dedos. 

- Era impossível Tonny acertar um chute que fosse capaz de quebrar meu pescoço daquela forma. Só pode ter sido coisa sua! – disse Spike rompendo o silêncio. Clérigos de Khalmyr já se aproximando, inúteis, para socorrer seu corpo passando por ele sem enxergá-lo. 

O velho gargalhou. Um raio cortou as nuvens negras e fulminou, aleatório, um cavaleiro que cortejava uma nobre apetitosa. Logo, o sol voltava a aparecer diante de olhares estupefatos. 

- A culpa sempre acaba sendo do mestre, não?! – o velho tinha espasmos de risada – Não era impossível, meu jovem. Era imprevisível. 

Spike começava a entender. Estremeceu de antecipação diante das próximas palavras: 

- Na verdade qualquer um entre aqueles homens ordinários poderia conseguir. Mesmo uma criança. Mesmo sem querer. Basta rolar... – O velho rolou os dados: 

Vinte. 

Vinte!
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