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Canções da Meia-Noite #49 - O caçador e a criatura

Chegando as terras do vale mais uma história para todos vocês se entreterem em nossa taverna, sendo que  o bardo da noite de hoje perc...



Chegando as terras do vale mais uma história para todos vocês se entreterem em nossa taverna, sendo que  o bardo da noite de hoje percorreu os outros mundos e trouxe feitos de tempos distantes, de terras onde orcs e elfos já não existem, mas que muitas perigos antigos ainda permanecem e heróis de prestigio desse tempo ousaram desafiá-los. Quem traz os caminhos percorridos por este famosos personagens é José Ozorio Costa, então leiam com atenção as palavras que nossa amigo bardo escreveu com tanta emoção




















O caçador e a criatura
Já fazia vários minutos que Allan e seus três companheiros mercenários desciam por aquelas cavernas abafadas e escuras. Apesar de não precisarem se espremer pelos túneis, que acomodavam facilmente dois homens lado a lado, isto nem um pouco aliava a tensão do grupo. Afinal aquele lugar amaldiçoado merecia o nome que tinha. Meosthso na língua local, traduzido era “Entranhas Negras”. 

Já haviam cruzado pelo menos uma dúzia de salões daquela caverna e todos eles podiam ser definidos em uma palavra, repugnantes. O que começava como uma caverna normal se tornava um festival de horrores. Sangue espalhado por todo o lado, restos de pertences de pessoas e isto nem era o mais perturbador. O que realmente enlouquecia eram os desenhos que encontravam em cada salão. 

Allan não era nenhum especialista, longe disto, mas era óbvio que os desenhos usavam técnicas muito diferentes uns dos outros e dispostos de forma aparentemente aleatória. Alguns pareciam ter milhares de anos e outros pareciam ter sido feitos há apenas algumas horas. Mas todos tratavam do mesmo tema. Eles mostravam criaturas fantásticas e grotescas, sacrifícios com as sempre recorrentes imagens de estrelas e uma criatura sombria, com asas de morcego tendo sua cabeça repleta de tentáculos. 

O odor era de algo pútrido e misturado com alguma coisa ácida. Mas apesar de todo o sangue espalhado, não se encontrava corpos em nenhum lugar. Eles simplesmente não estavam ali. E a sensação de opressão era terrível, como se algo estivesse à espreita, em cada canto, atrás de cada passagem. O lugar inteiro estava na escuridão e se não fossem seus lampiões de querosene eles não enxergariam nada. Mas a luz não ia longe, como se a escuridão a devorasse antes de poder iluminar mais. 

- “Você devia ter nos pago mais Allan.” Comentou Nevil, que vinha por último no grupo, um dos três mercenários que contratara e o acompanhava. Nevil é um recém chegado de meia idade, moreno, que provavelmente perdeu tudo e resolveu ganhar a vida sendo pago para matar. Allan apenas esboçou um sorriso já que a busca por um Lorde inglês desaparecido, Sir August Matthews, estava pagando muito bem pelos serviços dos três, apesar das dificuldades encontradas. E o fato de ninguém mais ter aceitado o caso, nem mesmo a polícia e a guarda colonial só fez aumentar este pagamento. 

Ninguém mais aceitou o caso depois que dois inspetores da polícia foram encontrados mortos enquanto investigavam os misteriosos desaparecimentos de figuras britânicas importantes, que assolaram a colônia da África do Sul durante todo o ano de 1874 e este inicio de 1875. Quando Sir August desapareceu a maioria fez o que os de sangue azul fazem de melhor, fingir que nada aconteceu. Mas ele era a 11º vítima e sua família estava disposta a pagar alguém que o resgata-se, necessidade que os levou a ele, Allan, muito famoso na Inglaterra graças aos acontecimentos nas Minas ocorridos alguns anos atrás, fatos que fizeram sua fama. 

Foi preciso contratar mercenários e Allan observou seus outros dois companheiros. Primeiro Alec, um homem com uma cicatriz enorme no lado de seu rosto, endurecido nas lutas contra negros rebeldes e que já enfrentou alguns que se refugiavam em cavernas, que por esta experiência seguia na frente do grupo. Vindo logo atrás dele próprio caminhava o jovem Max, um ruivo magricela e bonachão. Mas nem era preciso um olhar atento para perceber que os dois mostravam reações diferentes ao que encontravam. Alec esta compenetrado, com um olhar de raiva sobre o que via e Max têm um olhar assustado, levando constantemente à mão a boca, aparentando estar muito nervoso. 

A rede de túneis e câmaras se mostrava cada vez mais labiríntica e se não fossem pelas marcações que eles faziam nas paredes mostrando o caminho, certamente se perderiam quanto tentassem refazê-lo. Isto demandava tempo, mas era necessário. No entanto a forma labiríntica e sinuosa da caverna só agravava a sensação de opressão do lugar. Somados a desorientação, o odor, as pinturas, o sangue... poderiam enlouquecer qualquer um. 

E a todo o momento as palavras dos anciões tribais, que indicaram o caminho para estas cavernas, voltavam à mente de Allan. Os sábios das aldeias contavam que este lugar fora abandonado por Deus no extremo norte da colônia, que apenas no mapa fazia parte dela, era amaldiçoado e nele morava um demônio. Eles repetidamente os alertavam para não seguir com a missão. Se não fossem suas experiências passadas e os anos que passara na África, ele até duvidaria dos anciões, mas toda a história popular tem um fundamento na verdade. Então ele rezava para que o demônio não fosse tão real quanto o povo afirmava. 

É claro que o lorde já deveria estar morto, tudo o que Allan conhecia indicava isto, mas ao menos um corpo poderia ser recuperado para um digno funeral cristão. 

-“Os boatos eram verdadeiros” – falou Max – “estamos nas entranhas do próprio inferno”. Ele olhava constantemente para os lados e o medo transparecia em sua voz. 

-“Esta com medo senhorita?” Debocha Nevil, tentando disfarçar seu próprio desconforto na caverna. 

-“Silêncio rapazes!” Ordena Allan. Já que depois de todo aquele tempo descendo aquele que parecia ser o mais íngreme dos túneis, o grupo começa a escutar uma cacofonia estranha. O som abafado e ininteligível, que aumentava conforme avançavam. Naquele lugar de trevas uma sensação de falta de ar tomou conta do grupo. As lamparinas pareciam iluminar menos, com a escuridão tomando conta de tudo. Algo como uma presença era sentida. Aparecia alguma coisa no canto da visão, na sombra formada por uma rocha ou reentrância em uma parede, como se alguém estivesse ali e, quando se olhava novamente não estava mais lá. 

Os companheiros então viram o final daquele túnel e alguma luz que vinha da passagem em frente. Alec olha para Allan esperando a ordem para entrar no lugar, que com um leve aceno com a cabeça ordena a entrada de todos. 

-“Santo Deus...” diz Nevil. Até mesmo o experiente Allan fica chocado com o que vê 

O grupo instintivamente prepara suas armas ao entrar no que é um salão gigantesco. Estavam localizados no topo de uma rampa da qual era possível ver a maior parte do interior graças a tochas lúgubres espalhadas pelo lugar. O teto do salão daquela caverna sumia na escuridão de onde apenas as pontas das estalactites apareciam, como as presas de uma boca negra. As paredes da caverna estavam tomadas dos mesmos desenhos macabros das outras câmaras. Haviam tochas lá, que lutavam inutilmente contra a escuridão. 



O que mais chamou atenção de Allan, quase que de forma hipnótica, era o que acontecia no centro do local. Pelo menos cinqüenta homens vestindo apenas andrajos tribais e sujos de sangue dançavam em um frenesi enlouquecido. Ali estavam os corpos da onde viera o sangue espalhado no resto do complexo. Restos de animais de diversas espécies, todos destruídos e desmembrados, alguns aparentando ter sofrido este destino há apenas alguns minutos, outros com dias de decomposição tomavam o lugar. 

O cheiro do lugar fez Allan vacilar, não era decomposição, urina e fezes. Era um cheiro que em si mesmo era maligno. Profano. 

De forma grotesca estavam espalhadas pelo lugar gaiolas. Em um círculo ao redor dos homens que urravam e dançavam estavam dispostas gaiolas de ferro, com corpos humanos em seu interior. Um total de treze gaiolas, com onze ocupadas por corpos. Todos em diferentes estágios de putrefação e com a carne que parecia ter sido arrancada de seus ossos. Provavelmente os ingleses desaparecidos, pensou Allan, até que a verdade lhe veio a mente e escapou como um sussurro. 

“Ainda tem três jaulas vazias...” E voltou seu olhar para o centro da cena que presenciava. 

As chamas bruxelavam naquelas formas dançando, que pareciam ser consumidas pela escuridão. No centro exato do grupo se destaca três figuras. Primeiro um homem branco, com marcas de tortura no corpo, rosto torcido em terror e desespero, amarrado pelos braços e pernas a dois postes que o obrigam a ficar de pé e ver o que acontece no ambiente a sua volta. A sua frente um grande homem com uma mascara de caveira e pinturas tribais misturadas com sangue, que porta uma faca. O homem mascarado parece que esta em transe, fazendo alguma espécie de prece macabra. E atrás do homem amarrado esta uma estatua gigantesca. 

A estatua é uma representação imensa e horrenda da criatura retratada repetidas vezes nos desenhos, percebe Allan. O corpo distorcido, a cabeça que parece um polvo bizarro e as asas de morcego envolvendo o corpo como em um abraço, já deixariam qualquer um aterrorizado. Mas muito pior que isto é a impressão que se tem ao observá-la. Algo incompreensível, mas perceptível. Algo que vasculha a alma, que provoca um medo primitivo, como um medo irracional, algo que perturba a mente. Um sentimento de inferioridade absoluta, de insignificância. 

Com custo retomando o controle sobre si ele olha para seus companheiros. Eles esboçam as mais variadas reações. Das tremedeiras de Max a raiva de Alec, todos foram afetados. Mas havia algo de bom em tudo aquilo. 

Não foram notados. 

Aparentemente todos os malditos estavam concentrados naquele lugar e não viram a chegada dos quatro porque estavam em seu transe maldito. E o mais urgentemente possível eles precisavam fazer algo e resgatar o refém antes que fosse tarde de mais. Allan lembrou então das bananas de dinamite que trouxeram para a caverna. 

-“Agora é a hora! Alec jogue uma banana de dinamite no fundo da caverna, agora. Depois que ela detonar você e os outros matem todos que puderem. Não se esqueçam de tampar os ouvidos. Eu vou correr lá e soltar o refém” Grita Allan para os outros. 

-“Mas é loucura jogar dinamite dentro de uma caverna, vai desmoronar tudo...” Max se assusta com o plano. “Vamos todos morrer.” 

-“Vamos morrer de qualquer maneira, então precisamos nocautear o máximo deles para poder chegar no homem. Agora mecham-se e não se esqueçam da minha cobertura.” 

Alec acende a dinamite e joga ela o mais longe que consegue, cuidando para não ser muito perto do homem que esta amarrado. Ela voa por cima da dança e cai próxima ao frenesi daqueles condenados. Allan e os outros correm de volta para o túnel e tapam seus ouvidos. A explosão reverbera pelo túnel e quase ensurdece o grupo. 

Se recuperando da explosão Allan e os outros voltam para o salão. 

Adentrando novamente a poeira tomou o lugar. Corpos estão em todos os lugares e os que estão vivos foram nocauteados. Ocorreu um pequeno desmoronamento mas as paredes agüentaram. Por enquanto. 

Allan sai em disparada pelo salão e escuta seus companheiros disparando contra os que pareciam estar vivos depois da explosão. Ele passa pela cena horrenda das jaulas e atinge o homem amarrado, que por um milagre ainda esta vivo, no entanto desacordado. 

Cortando as cordas e jogando o corpo do homem como um saco sobre seus ombros, Allan vai o mais rápido que suas pernas permitem de volta para a entrada, onde Max o ajuda a carregar o homem para que possam correr e sair dali o mais rápido possível. 

Após terem percorrido boa parte do caminho de volta seguindo as marcações que fizeram para descer, em uma das diversas câmaras existentes no caminho, eles encontram algo. 

Vindo de outro túnel, um ser, uma criatura, se colocou imediatamente fora do alcance da luz e estava ali os observando. Parecia que a luz se recusava a tocar tal criatura de tão maligna que era sua aparência. 

-“Por tudo que é mais sagrado...” balbuciou Allan. A criatura era igual as representadas nos desenhos que preenchiam as paredes. Com mais de quatro metros de altura e estava ali, imóvel, nem respirava, se é que ela necessitava respirar, com os tentáculos ondulando e gotejando algum liquido pegajoso. Mas o que feria a alma eram os olhos, que tinham um brilho pálido, como se fossem pupilas gigantes, gélidos e transmitindo uma malícia que fugia a compreensão humana. 

Antes que Allan pudesse completar o pensamento, Alec reagiu à criatura abrindo fogo com seu rifle contra ela. A criatura pareceu não se importar com os tiros e com muita agilidade, coisa que pelo seu tamanho ninguém suspeitaria, já estava em cima de Alec, destruindo sua barriga com um poderoso golpe do que parecia ser uma garra. 

Depois disso tudo é um borrão para Allan, como se sua mente já não estivesse ali e, antes que percebe-se, ele e Max corriam carregando o homem desacordado que resgataram, vendo apenas ao longe a sombra de Nevil, que estava completamente desesperado. Escutavam apenas os gritos de terror de Alec, que a criatura parecia fazer questão de torturar. 

Até que os gritos cessaram. 

Após subirem durante o que pareceu uma eternidade, alcançaram outra câmara e encontraram Nevil acendendo dinamites, com a intenção de explodir o túnel. Continuaram correndo. Porém quando Nevil os estava alcançado as dinamites explodiram. Todos foram jogados ao chão e Max deixou cair sua lâmpada. 

Neste momento o homem que estava desacordado subitamente desperta como se estivesse vindo de um pesadelo. Olhando ao redor e vendo que não são os indivíduos que o seqüestraram ele se controla, mostrando que possui firmeza de caráter. 

Allan não perde tempo e, se erguendo, ajuda o homem a ficar de pé e conta com a ajuda de Max para fazê-lo correr o mais rápido possível. Mas algo acontece. No instante que Max juntava sua lanterna Nevil da um grito estridente, puxado pelas garras da criatura, que deve ter pego outro túnel para chegar ali. 

Novamente movidos pelo terror, eles correm escutando os gritos de Nevil que ecoam pela caverna e podem ouvi-lo por um bom tempo. Quando chegam à última câmara antes do túnel de saída eles notam que os gritos pararam. Max então larga o homem resgatado. Seu olhar esta obstinado agora, decidido. Ele pega as bananas de dinamite que estão no cinto de Allan e as suas. São oito bananas no total. 

-“Continue correndo, não olhe para trás.” Diz Max. 

Com dificuldade Allan ajuda o prisioneiro a ir o mais rápido possível pelo túnel e após alguns pouco minutos eles escutam tiros, vários gritos e uma grande explosão. São jogados ao chão. Quando conseguem se recuperar um pouco do impacto percebem que o túnel desmoronou na parte que eles já tinham percorrido. Com muito esforço Allan ajuda aquele que libertara a levantar e ruma para a entrada da caverna. 

O último trecho é pesado para eles, mas ao conseguir chegar na saída Allan vê o sol queimando sobre a savana africana e se joga no chão junto com o prisioneiro. Ele pensa que vai precisar de ajuda, que devem sair dali antes que a criatura encontre outra saída da caverna. Depois ele pensa que sua missão esta longe do fim e talvez tenha de chamar seus antigos companheiros das minas, talvez até aquele jovem detetive de Londres que ele escuta tanto falar. 

Mas alguma coisa tem de ser feita 

Ele é trazido de volta de seus pensamento pelos movimentos do prisioneiro, que ainda muito abalado e um pouco surdo pergunta aos gritos. 

-“Sou Sir August Matthews, posso saber o nome do homem que acaba de salvar minha vida?” 

Aos gritos e tendo certeza que o homem veja os movimentos de sua boca ele responde. 

-“Meu nome é Allan Quatermain.”
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