rpgvale
1599924783602205
Loading...

Canções da Meia-Noite #41 - O Peso do Mundo

Saudações bardos de plantão,hoje trazendo mais um conto épico para leitores épicos! O mundo de Arton sempre foi cercado por grandes ...


Saudações bardos de plantão,hoje trazendo mais um conto épico para leitores épicos!

O mundo de Arton sempre foi cercado por grandes ameaças e dentre elas uma das mais famosas é a Praga Coral,uma doença que causa grande sofrimento aos infectados e tem causado grandes problemas para o Reinado.Em meio a está crise muitas histórias  envolvem-se neste evento e entre perdas ou maus presságios,uma jovem mente repleta de tormentos pode vir ser aquela que trilhara um caminho para o fim deste mal.Quem nos traz essa história é Igor André Pereira ( @OrdemnoCaos ) e vocês conferem essa narração a seguir 


















O Peso do Mundo

Lomatubar, 1384


Heidrian Nuaver olhava a pequena casa. As paredes de tijolos precariamente sobrepostos; os móveis de madeira já envelhecidos; as camas. Em uma, um casal de idosos agonizava baixo como se já não tivesse força e nem motivos pra luta. Na outra, dormiam Algenor Lovallar, que já fora soldado da milícia de Barud, capital do reino e sua esposa, Berenice. A jovem hesitou um instante quando encarou os olhos de Joan, o primogênito do casal.

O garoto prendia um olhar sério sem sua direção e não havia parado de fazê-lo desde que terminara o jantar. Do seu lado, a caçula Jenisse era abençoada com um sono tranqüilo. O rosto tenro e o sorriso doce e de dentes perfeitos de Heidrian encontraram o semblante duro de Joan. Ela era uma clériga de Marah, deusa da paz. Seus milagres ainda eram muito limitados. Para aquela família, era uma santa.

Eles haviam sido vítimas da peste vermelha, a Praga Coral. O nome é agourento, sem dúvida, mas ainda não faz jus ao sofrimento que carrega. A praga atinge o organismo logo nas primeiras horas de contágio, provocando febre alta, dores musculares fortes e espasmos constantes. Ainda nos primeiros dias atinge o sistema nervoso. O enfermo perde o controle dos movimentos dos músculos e, obviamente, sobre suas necessidades fisiológicas. Em pouco mais de uma semana, passa a expelir secreções amareladas e viscosas pelo nariz, ouvidos, olhos, saliva e suor. Este muco se cristaliza adquirindo uma coloração avermelhada. Placas destes cristais rubros cobrem o corpo do doente comprometendo todo seu sistema respiratório, levando à morte em menos de duas semanas. Como se não bastasse, a Praga Coral era bastante contagiosa.

Era um milagre sob todos os aspectos o fato de Joan ainda não ter sido contaminado pela doença. A clériga o chamava a seguir com ela até o templo, jurando que ela mesma voltaria todos os dias, como já fazia, para cuidar de sua família. Sempre tinha um não como resposta. A verdade é que em seu íntimo reconhecia que a compaixão do menino era maior que a sua. Ele não iria abandonar a família. Fazia questão de ir todos os dias à lavoura separar os legumes que ainda restavam, pois até os animais haviam sido contaminados. O momento que se aproximava seria muito difícil para aquele menino e ela deveria alertá-lo. Protegê-lo. Era sua a responsabilidade de revelar o que estava por vir.



Heitor Sinclair caiu no chão apavorado sem conseguir suportar o peso. Não podia acreditar no que estava acontecendo. Era verdade que sua curta carreira de aventureiro não fora suficiente para desvendar os vários segredos que Arton escondia em seus três cantos. Mesmo em um mundo onde a magia era presente e alguns magos fossem capazes de levantar montanhas inteiras com o seu poder, para ele aquela cena ainda parecia impossível. Não por não poder existir, mas por invadir o seu mundo simples onde a batalha estava na colheita e o tesouro na sombra, no balanço da rede, no sabor do jantar e no amor da esposa e dos filhos.

O homem havia invadido sua casa alguns minutos depois do jantar. Atravessou o peito de seu filho no primeiro golpe de espada. Seu herdeiro era um ótimo guerreiro. Planejava ter uma carreira de aventureiro melhor sucedida que a sua. O grito de desespero da mulher se calou em um instante. A espada que perfurara o jovem foi retirada, fazendo-o desabar inerte e em mais um movimento a cabeça de sua esposa rolou até a porta do quarto onde estava, até um minuto atrás, degustando a sexta.

Heitor foi até à velha espada que ainda guardava com carinho no fundo do armário. Uma lágrima furtiva rolou quando lembrou que a arma seria dada de presente ao filho na próxima semana, quando completaria dezoito outonos. Antes que a confusão nublasse de vez o pensamento, foi até a sala onde estava o invasor.

Era um homem alto, pálido e magro. Como um cadáver. Não parecia capaz de domar as rédeas de um potro xucro, mas estava erguendo sua filha pelo pescoço a ponto de seus pés saírem do chão com apenas um braço. As mãos trêmulas seguravam a espada com dificuldade diante da visão aterradora que era ver sua caçula sufocando aos poucos com os dedos longos e cheios de ossos em volta do pescoço. Heitor espantou o pavor do coração e segurou mais firme o cabo da espada. A investida foi rápida - um observador mais cuidadoso poderia até mesmo enxergar uma técnica enferrujada por anos de desuso – e suficiente para abrir um profundo corte no braço que suportava o peso da moça. A carne foi separada, cedendo espaço para a saída de um líquido verde e viscoso, como uma geléia de limão recém saída do forno. Mesmo com o corte, o invasor ainda teve força para quebrar o pescoço da garota e jogar seu corpo contra ele.

O fazendeiro mais durão daquelas terras estava no chão. O corpo da filha jogado displicente. Os olhos abertos expressavam pavor. Heitor tateava o chão em busca da espada enquanto encarava o invasor. Sentiu náusea diante do sorriso amarelo cheio de dentes. A bocarra esverdeada aberta por sua lâmina se fechava lentamente. O gosto azedo subiu a garganta e o vômito foi inevitável. Não tinha mais forças. O invasor se aproximava em passos curtos e vagarosos. Sabia que ao fim daqueles passos estaria decretada sua morte, mas a aproximação fora-lhe surpreendentemente demorada. Seus lábios tremiam. Olhou para os corpos em volta e para o teto procurando resposta dos deuses. Fitou os olhos verdes do algoz e com dificuldade balbuciou as perguntas que jamais seriam respondidas. Quem é você? Por que fez isso?



Inis Sildes gostou do lugar. Sua localização era ótima. Perto o suficiente da cidade para saber das notícias trazidas da capital e longe o suficiente para realizar seu culto à vontade. A casa pareceu pequena a principio, mas a verdade é que ele ainda estava se acostumando com aquela forma. Decidiu ficar. Inis Sildes...Não um nome verdadeiro, mas o adotado para o disfarce. Estava ali para confirmar se os rumores de que Barud havia mesmo feito um trato secreto com alguns cavaleiros de Khalmyr a fim de quebrar o Tratado de Lennórien, mandando soldados, suprimentos e armas para os elfos na guerra contra os goblinóides eram verdadeiros. O tratado previa que os humanos não deveriam se envolver em assuntos élficos e nem contar com os mesmos em seus assuntos. Uma vez que houvesse o rompimento, seria ele o responsável por fazer com que as provas chegassem, através de uma intricada rede, até os ouvidos do Imperador-Rei e, óbvio, de alguns de seus opositores políticos que saberiam tirar proveito da situação. Satisfeito, Sildes decidiu enterrar os corpos. Não por compaixão, mas por conveniência. Aqueles corpos não poderiam ser descobertos. Além do mais, quem fosse investigar teria o mesmo “destino misterioso”. A partir daquele dia, a fazenda dos Sinclair seria um lugar assombrado. Sorriu desdém.



Heidrian cobriu melhor os dois casais que tremiam de frio. Também substituiu o cobertor de Jenisse por um limpo. Tudo sob o olhar atento de Joan. Sentou-se ao seu lado. Ambos de frente para as camas dos casais:



- Quando eles vão morrer? – perguntou Joan enquanto uma lágrima fugia dos seus profundos olhos azuis. A pergunta surpreendeu a clériga que naquele instante pensava em como começar o assunto. Joan tinha gênio difícil. Não demonstrava leveza de espírito típica de um garoto de 14 anos. A calamidade que se abateu sobre a família só fez com que sufocasse ainda mais seus sentimentos, substituindo, por vezes, por atitudes arredias. Mas tinha bom coração e certamente não merecia o sofrimento.



- Pra ser honesta, estão sofrendo muito, Joan. Não irá demorar para que a deusa os acolha nos braços da Paz – Heidrian encarava o abismo azul que eram os olhos do jovem – A verdade é que não há mais nada a ser feito a não ser cuidar para que tenham uma passagem tranqüila. Você deveria agradecer por ainda não ter sido contaminado. Mas se continuar aqui...



- Eu não vou abandoná-los!! – Joan interrompeu alterado, secando novamente as lágrimas do rosto – Eu agora sou o homem desta casa, se for embora serei um covarde!


Heidrian respondeu com um sorriso tímido. Não percebeu que as maçãs de seu rosto delicado haviam ruborizado, emolduradas pelo cuidadoso corte dos fios negros e lisos de seu cabelo. Ainda era jovem. Não sabia se portar diante da segurança das palavras de um homem, ainda que proferidas pela boca de um menino. Sua compaixão estava dividida e não tinha mais discernimento do que era certo. Despediu-se com um beijo carinhoso na testa de Joan e seguiu para o templo desistindo de tentar conter as lágrimas.

Omar Ortis esbravejou com os escudeiros que ficaram incumbidos de cuidar dos cavalos da comitiva. Não queria acreditar no que acabara de ouvir. Seria realmente possível alguém trair sua própria raça?

Dias atrás, quando os preparativos para a viagem estavam concluídos os elfos vieram em sua procura. Lienn e Mirthiri eram seus nomes e disseram saber da comitiva através de um clérigo de Thiatys, deus da profecia. Acompanhar a comitiva seria a missão exigida pelo clérigo em troca da ressurreição de Lienn após uma morte prematura numa emboscada:


-“O caminho que percorrerão os levará de volta ao seu destino” Foi o que ele disse. – revelou Mirthiri carregando na face uma expressão inquestionável de solenidade e respeito.


- Além disso, conhecemos atalhos que farão a viagem até Lennoriem ser muito mais rápida e segura, Sir – acrescentou Lienn.

Os ensinamentos de Khalmyr, seguidos fielmente pelos membros da Ordem que carregava com orgulho seu nome, pregam que qualquer ser vivo é inocente até que a balança da justiça revele algo que o desminta. Naquele momento, porém, Ortis não pôde evitar o formigamento na nuca, um mau presságio que só a intuição de um cavaleiro calejado como ele podia entender. Seriam úteis, sem dúvidas. E não aceitá-los poderia causar indisposição com alguns clérigos de Thiatys que faziam parte da comitiva. Era um risco que o cavaleiro não gostaria de correr, embora não houvesse alternativa.

Desculpou-se com os escudeiros pelo mau jeito e ordenou que fizesse os preparativos. Naquele dia, partiriam mais cedo.

Lienn e Mirthiri cavalgavam rápido cortando as planícies de Lomatubar. Enquanto Azgher se punha entre as montanhas, questionavam se naquela altura o cavaleiro ranzinza já havia percebido o roubo. O galope vertiginoso já durava horas; os estômagos e as gargantas já gritavam. Hora de descansar.

Dividiram um pedaço da carne seca e tentaram começar a comer sem dizer uma palavra, mas se olharam: o suficiente para iniciar uma longa e contagiante gargalhada. As risadas eram idênticas, assim como eles. Gêmeos elficos são tão raros quanto a morte de um deus. Em Lennóriem acreditava-se que o nascimento de gêmeos era o prenuncio de uma nova era. Os gêmeos seriam tratados como reis. Se fossem descendentes da nobreza. Lienn e Mithiri não eram. Ao contrário, eram filhos de Algareenn, o único elfo condenado à morte que se tem notícia. Eles não sabiam direito o que tinha acontecido. Sua mãe os escondeu em uma carroça de mercador assim que teve oportunidade. Foi assim que rumaram para o continente norte.

Foram criados por Ferbrain, o mercador que amaldiçoou o destino no momento em que os descobriu escondidos entre seus pertences. Se pudesse escolher, não teria criado os filhos de um verme, mas tinha compaixão e não podia entregá-los à própria sorte.

Não conversavam sobre o passado desde o dia em que fugiram de casa levando todas as economias do homem que havia salvado suas vidas para se aventurarem em Ahlen - lugar que Lienn fazia questão de chamar de “verdadeiro paraíso”. Descartaram as memórias e as risadas, pois já não tinha importância. O importante era planejar. Saber como poderiam trapacear na negociação. Ganhar aquela quantia exorbitante oferecida pelo livro sem ter que entregá-lo. Seria o golpe de suas vidas. A refeição foi interrompida porque o vento trouxe a notícia. Acabara o descanso.

A comitiva atravessava as planícies liderada por Ortis. Fúria e preocupação no olhar. Por algum motivo acreditava que aqueles elfos não sabiam realmente o que aquele livro representava. O mesmo, no entanto, não podia ser dito sobre quem os enviou.

- Malditos elfos tolos – praguejou antes de acelerar ainda mais o ritmo da cavalgada.

Sildes terminou suas orações com um sibilo estranho. Saiu e olhou a lua cheia da entrada do casarão da fazenda. Quinze dias desde a sua chegada. Sorveu o líquido que fumegava de uma caneca de ferro enegrecido. Olhou novamente para o céu e viu uma nuvem negra cobrindo totalmente a luz da lua. A escuridão colaborou para que o verde dos seus olhos brilhasse ainda mais. Um pensamento:

- Estão atrasados...

Mirthiri puxou forte as rédeas de sua montaria. Acenou com a cabeça e Lienn entendeu de pronto. A trilha à direita era um atalho que eles já haviam visto, mas esqueceram totalmente. Iria acelerar a viagem, além de fornecer um ótimo esconderijo: um antigo templo dedicado a Marah. Cavalgaram.


Joan não conseguiu conter o choro implacável que tomava pulmões e garganta. Lágrimas inundaram seus olhos e transbordaram fartas pelo rosto indo de encontro à saliva amarga. O gosto da perda. Trincava os dentes numa tentativa inútil de conter o sentimento tal qual um cavaleiro que levanta seu escudo contra a baforada de um dragão. Nunca havia sentido uma dor tão forte, como se um pedaço de sua alma fosse dilacerado. Estavam mortos. Todos. Tudo o que tinha indo embora junto àqueles cinco cadáveres. Olhou as placas vermelhas no corpo de sua irmã e amaldiçoou sua impotência, jurando pra si mesmo que um dia acabaria com aquilo. Sua mão finalmente sangrou depois de tantos golpes no assoalho. Secou as lágrimas e levantou. Não importava os perigos que espreitavam na escuridão de Tenebra. Iria ao templo. Precisava vê-la.


- Você é uma criança, Lienn – repreendeu Mirthiri tentando ele mesmo não achar graça da infantilidade cruel do irmão. Haviam pedido abrigo no templo e seu senso duvidoso de justiça dizia que não era um ato muito nobre tentar tomar a força a jovem clériga que os acolheu de forma tão amistosa.

Heidrian resistia. Debatia-se o máximo que podia para tirar aquele homem asqueroso de cima do corpo. Não que fosse um homem desprovido da beleza tão comum a raça efica, mas o cheiro que exalava, as expressões que fazia e a forma como expunha sua língua tentando dominar sua boca a deixava enojada. Lienn se divertia. Gargalhava. Quanto mais aquela ninfeta em trajes de santa se debatia, mas suas coxas bem torneadas se revelavam. O que o deixava excitado. Decidiu levar a brincadeira a outro nível. Tirou um punhal que sempre carregava na bota. A face lacrimosa de tanto gargalhar se transformou em uma expressão de insanidade malvada. A boca cheia de dentes se fechou. Os olhos se arregalaram de forma assustadora.

A face da clériga ardeu diante do tapa, seguido por um insulto tão baixo que nem as piores prostitutas mereceriam ouvir. As lágrimas verteram quando ouviu o som rasgado do punhal separando em dois o pano branco de seu vestido por entre suas pernas. O grito de pavor foi abafado pelos lábios do elfo.

Joan abriu ofegante a porta de sua casa. Não gostou quando Heidrian falou sobre a presença dos elfos que pediram abrigo no templo há alguns dias, mas foi forçado a aceitar quando ela disse...

- “É a vontade da deusa, Joan. Não posso negar-lhes abrigo. Mas agradeço seu sentimento de proteção. Você é mesmo um homem de verdade”.

O presságio súbito no meio do caminho só fez aumentar sua desconfiança. Se ela estivesse mesmo em perigo iria protegê-la. Foi até o quarto e achou o que procurava em meio aos cobertores. Estava envolvida em um pesado pano marrom que não demorou a remover. Encarou o brilho vermelho da lâmina e sentiu o gelo percorrendo sua espinha. Sempre o sentia quando o seu pai mostrava a “rubra”. Nunca soube como ele a havia conseguido e nunca fez questão. Ela o apavorava. Mas hoje não podia se permitir ter medo. Os cadáveres ainda jaziam em seus leitos. Seu pai...

- Levante, Joan. O inimigo não irá esperar. Você precisa treinar se quiser um dia chegar à milícia de Barud. Talvez ser um aventureiro. Chegar mais longe do que o seu velho e tolo pai chegou... – lembranças de tempos mais felizes. Era hora de colocar em prática os ensinamentos que aprendera. Não queria decepcioná-lo. Não podia decepcioná-lo.

Joan apertou mais firme o cabo da espada e a ergueu. Seu peso não era muito maior que o da espada de madeira do treino. Rezou pelas almas de seus familiares e partiu. Ele jamais iria voltar àquela casa. Ele jamais rezaria novamente.
Contos 1875929452489279995
Página inicial item

Entre pra Guilda

Mais lidos da semana

Receba nossos corvos