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Canções da Meia-Noite #40 - Intrigas do Abismo

Saudações caros aventureiros a Canções da Meia-Noite de hoje vem com uma grande surpresa para todos os leitores e escritores ,além de um ...


Saudações caros aventureiros a Canções da Meia-Noite de hoje vem com uma grande surpresa para todos os leitores e escritores ,além de um super conto marca a 40ª edição da coluna.Confiram a seguir.
O RPG Vale está desenvolvendo um mega overpower pdf contendo os melhores contos que já passaram pela canções e para ajudar nesse projeto o amigo paladino @Elwe_Razengor veio com uma equipe de primeira de desenhistas, que estão produzindo imagens exclusivas para cada uma das histórias.Este material em sua conclusão estará disponível para download no blog,portante fiquem atentos para as novidades sobre o projeto.Abaixo vocês conferem os contos selecionados para o pdf:

‎#22 Grimoire Sorciére - http://bit.ly/yJBJ48
#23 O Que os bardos não cantam - http://bit.ly/khqUhk
#24 Bella Natura -  http://bit.ly/r8TEoX
‎#19 A última Execução - http://bit.ly/jPCYYy
#16 Ex malum, scientia - http://bit.ly/ffJspS
#15 O Nascer de um mundo - http://bit.ly/etTPMC
#36 - Renascimento- http://bit.ly/tkwkrZ

Agora falando da história de hoje,quem traz ela para nós é @TheJuniorAde , um escritor que cresceu junto da coluna e já passou por aqui com outras grandes histórias e hoje nós traz uma fantástica história que envolve o mundo dos obscuros anjos caídos.



























Intrigas do Abismo

O ocaso começava a se aproximar.
Sentado em uma cadeira na beira da muralha, as baforadas do longo cachimbo enevoando sua visão, Meliath observava o longo horizonte que se punha a sua frente.

- A vista parece não ter fim. – Meliath falou para ninguém em especial.
- E realmente não tem, mesmo que se olhe mais e mais adiante, nunca termina.
Meliath não se assustou. Argor era bom em ser silencioso, seus pés quase não tocando o chão áspero da longa e poderosa muralha do Forte dos Renegados. Senhor daquele local havia muito, o Vigilante tornara as muralhas intransponíveis aos alados de fora. 

As longas e grossas muralhas se estendiam por não mais que cinco quilômetros, mas sua altura era quase o dobro disso, o que impedia a entrada pelo céu, pois os querubins de fogo não possuem o vigor necessário para flutuar tão alto. Sua casta era acostumada a batalha próxima do solo, e por isso suas asas não aguentavam longos momentos sustendo o corpo aos céus.

O interior do forte era imenso e, no entanto, era simples: uma enorme construção de pedras encaixadas umas sobre as outras, e o telhado era formado por longas e rígidas lâminas de cobre, forjados com as espadas dos renegados.

- Eu nunca quis entrar na Terra, você sabe, não é? – Meliath quase sussurrava.

- Eu sei, meu amigo. – o Vigilante sabia, realmente. – Mas os nossos caminhos nos foram traçados desde nossa criação. Eu e você, fomos feitos para lutar juntos.

Meliath somente grunhiu. Cansado, ser lembrado de sua origem o deixava irritado.

Quando entrou para a causa de Lúcifer, a Estrela da Manhã, Meliath pertencia ao destacamento de querubins, sob o comando de Argor, a Flecha da Justiça. Já nessa época, Lúcifer tentava incutir ideias revolucionárias nas mentes dos alados.

Argor não concordava com os ideais dele, mas não se pôs ao lado de Miguel, pois era sabido que o Primeiro Arcanjo pretendia o controle sobre todas as castas angélicas. Meliath estava em um empasse enorme, entre a Estrela da Manhã e Miguel, mas amava seu comandante, e o seguiria onde fosse ordenado.

Por fim, o mais amado dos anjos foi deposto de sua posição, e se rebelou contra Miguel. Nesse momento, Meliath se viu preso a suas obrigações. Argor, não desejando tomar parte na rebelião, liberou Meliath de seus encargos.

Esse, munido de toda sua coragem e poder, adentrou no exército revolucionário.

No entanto, a rebelião foi rapidamente sufocada, e Lúcifer foi expulso dos céus, e com ele um terço de todos os anjos. Meliath era um deles.

Foram lançados no abismo do Hades, e reinaram no interior da terra por milhões de anos, enviando seus espíritos perturbadores aos humanos, já que não lhes era permitido pisar nas paragens humanas.

O olhar de Meliath perdia-se nas árvores e montanhas que cercavam o Forte. No alto de um monte, acima das nuvens, o local permanecia oculto aos olhares de humanos, alados e demônios, e somente aqueles que sabiam a entrada conseguiam perscrutar seus bastiões inexpugnáveis.

Um alado surgiu pela pequena porta de madeira que levava ao solo, vários e vários metros abaixo, por uma escadaria no centro da muralha que era quase interminável. Educadamente, pediu a atenção dos dois. Primeiro, olhou nos olhos de Argor, e em seguida nos de Meliath. Não havia desprezo em seus olhos. A visão do demônio por aqueles lados era comum, e era sabido que a amizade entre o comandante dos renegados e o demônio Meliath era a mais pura e sincera. Era o único lugar no mundo onde Meliath era tratado como igual, e sua condição era quase esquecida ali.

- O garoto e seu pai, Calehb, acordaram a pouco e desejam vê-lo, Meliath.

Meliath assentiu, e convidou Argor para que viesse junto. Ele apenas anuiu, e desceram as escadas.

Dentro do forte, entre as altas paredes de pedra meticulosamente encaixadas sobre si, o frio era misteriosamente espantado. Um calor morno viajava solto pelo grande salão comum.

Os quartos que havia eram poucos, pois os anjos não necessitam de descanso, exceto em situações pós-batalha, onde a fadiga podia facilmente derruba-los. Eram pequenos biombos de peles esticados entre longos e esguios galhos negros de pinheiro.

Dentro de um deles, duas camas de palha improvisadas eram usadas para descansar os corpos dos dois visitantes trazidos pelo demônio. O rapaz não estava adoentado, mas permanecera dormindo por mais de dois dias. Dias em que delirava e ardia em febres torrenciais.

Já Calehb era um caso diferente. Seu corpo chegara sem vida no local, mas sua alma retornara para ele tão logo sua carne adentrou no santuário dos renegados.

Suas entranhas e seu corpo estavam quase destruídos, com os órgãos perfurados, ossos esmigalhados e quase sem sangue nas veias. A recuperação fora lenta, e a alma de Calehb permaneceu próximo a eles durante todo o tempo. Quando seu corpo se recuperou, sua alma foi sugada para dentro novamente, e Calehb começou a reagir, primeiro com febres, e em seguida vieram as convulsões.

Acordava com alguma frequência, mas não por muito tempo, e não dizia nada de inteligível.

Quando Meliath atravessou o biombo que guardava seus dois amigos, viu Calehb e seu filho sentados nos colchões de palha. Estavam um ao lado do outro, com os colchões juntos.

Estavam abraçados, e Meliath viu as lágrimas que rolavam na face do rapaz. Calehb afagava levemente a cabeça do filho.

Meliath pigarreou alto, deliberadamente. Os dois não se assustaram, e afastaram-se vagarosamente. O garoto limpou as lágrimas com as costas das mãos.

- Você parece bem melhor, Calehb. – Meliath comentou, sentando-se em um banco rústico baixo, logo ao lado das peles. – Sua recuperação é rápida, apesar dos ferimentos.

Calehb anuiu, balançando a cabeça positivamente. – Sim, meu amigo. Esse local é abençoado, e minhas forças estão quase todas de volta.

Meliath apontou com o queixo para o rapaz choroso.

- Ah. – Calehb coçou timidamente os poucos pelos que nasciam em seu queixo descarnado e pálido. – Algumas outras coisas tinham que ser ditas, e creio que estamos em perfeita paz novamente.

Meliath assentiu gravemente. Tinha algumas coisas a perguntar e acertar, algumas das quais não poderiam esperar.

- Bem, ao que me parece, vocês estão suficientemente bem para uma viagem de emergência, não é? – Meliath tentou soar cordial (para um demônio, o que significa “ácido e ríspido”), mas a pergunta não foi bem recebida pelos dois.

- Meliath, compreenda -.

- Infelizmente, não há tempo para compreensão, Calehb. – era Argor, e seu tom era duro. – Meliath, você e seu filho são e serão sempre bem-vindos em nossas muralhas, para visitas ou para batalhas, mas o momento não é propício para sua permanência dentro de nosso forte.

- Uma batalha se aproxima, e o dia do quadragésimo segundo ano da abertura do Hades está batendo em nossas portas. – Meliath agora se pronunciava novamente. – Eu e você sabemos muito bem o que isso significa, não é, Calehb?

Calehb ouvia a tudo em silêncio, sorvendo aquela realidade que tentava manter longe desde que iniciara sua causa contra os demônios maus, por assim dizer.

- O que é o dia do quadragésimo segundo ano, pai? – o rapaz parecia perdido.

- Você vai descobrir, garoto. – Argor sussurrou. – Para seu bem, ou para seu mal.

Meliath se ergueu. – Parece que Argor já lhes explicou a situação em que estamos. – bateu de leve em seu capote, tirando um pouco de gelo que se formara quando no topo da muralha. – Então, devemos partir assim que arrumarem suas coisas e nos alimentarmos para a viagem.

Calehb se ergueu com dificuldade, mas as pernas se mantiveram firmes. – Para onde vamos, Meliath?

Meliath sorriu com o canto da boca. – Para o deserto do Saara, meu amigo pálido.

Calehb gelou.

- Mas pense pelo lado positivo, velho amigo.

- Qual é o lado positivo disso?

- Você vai poder pegar uma cor nessa sua pele branca.

Um candeeiro passou voando em sua direção, mas Meliath desviou a cabeça, e saiu do biombo aos risos, com as pragas do amigo as suas costas.

A entrada e a saída do forte dos renegados eram secretas, e dois vigias incansáveis os guardavam dia e noite, sem nunca fechar um olho sequer, sem piscar ou respirar.

As sentinelas que ladeavam os portões invisíveis eram duas grandes colunas de pedra, em forma de grandes lanças, que ficavam cruzadas sobre a passagem.

Essa somente se abria com as palavras corretas, pronunciadas pelo Senhor do Forte, no caso Argor. Isso impedia que algum desertor saísse, e que algum desertor de batalha entrasse antes de Argor chegar com os destacamentos.

Argor e Meliath andavam um pouco a frente da comitiva que os acompanhava até os portões secretos. Calehb e seu filho vinham logo atrás, em passos descompromissados.

Estavam longe o suficiente de Meliath para não entender suas palavras e de Argor.

Calehb seguia com o filho ao seu lado, que abraçava inconscientemente a adaga que Meliath lhe presenteara.

Aquela faca, com seu cabo ornamentado e suas gravuras na lâmina, possuía uma beleza intrigante e aterradora. Aquela lâmina era feita do mesmo material da foice da Morte, o que fazia daquilo quase tão perigoso quanto Meliath e seus punhos em ação. No entanto, ela era de tamanho pequeno, e seu poder não permitia ceifar ninguém, mas cortava tão bem quanto.

Sentiu a pequena mão do filho puxando a manga de sua camiseta.

- Pai, posso lhe fazer uma pergunta?

Ainda não se acostumara à ideia de ser chamado de ‘pai’. Limitou-se a assentir.

- Por que nós temos que ir ao deserto antes do quadragésimo segundo ano?

Calehb respirou fundo. Era uma pergunta que lhe cabia, e a curiosidade era válida. – Bem. O número 42 é conhecido como um número abundante. – encarou seu filho. – Você sabe o que é um número abundante? – vendo a negativa do filho, continuou. – Um número abundante é aquele cuja soma de seus divisores próprios é maior do que ele mesmo. Nesse caso, a soma dos divisores é igual a 54, o que faz dele um número abundante. – via que o filho não estava entendendo nada. – Tudo bem, isso não importa realmente.

“O número 42 também é tido como místico por alguns. Antigamente, dizia-se que a ‘resposta para a pergunta fundamental sobre a vida, o universo e tudo mais’ era 42. Antes da abertura do Hades, havia uma teoria de conspiração que mostrava que vários figurões daquela época tinham ligações com esse número. Um grande músico que morreu há quase um século atrás morreu quando tinha 42 anos, e outros tantos também. Um grande físico daquela época antes da perdição nasceu no ano 42 do século passado.”

“Mas o mais importante de tudo é que 42 são as gerações que ligam Abraão a Jesus Cristo de Nazaré. Acredita-se que, na época de Abraão, houvesse acontecido o início de algumas possessões no meio do povo da terra. Demônios que cruzavam o interior da Terra e penetravam nesse mundo em forma de vultos, e tomavam os corpos das pessoas como moradia. Esses homens tornaram-se violentos e lascivos, e Deus tirou Abraão de seu meio.”

- Acredita-se que uma aliança fora feita entre os dois, e que somente 42 duas gerações seriam capazes de trazer a paz e a libertação ao povo no mundo. Foi com o nascimento do Filho de Deus que se consumou a aliança, e foi com sua morte que a libertação foi trazida perante nós.

Não havia compreensão nos olhos do filho, então ele continuou.

- Pois bem, essa é a questão: no quadragésimo segundo ano após a abertura do Hades, advirá um grande cataclismo, que poderá por fim na humanidade, impedindo que os planos divinos sobre a libertação no fim do milênio de dominação se concretizem.

O filho parou de repente. – Quer dizer que...

- Temos que parar as bestas do apocalipse antes que elas acordem algo bem pior e mais nervoso do que tu pode imaginar, guri. – Meliath havia escutado a conversa, e estava parado em frente ao garoto. – E é lá, no meio do deserto, que fica o local onde o que quer que seja fica dormindo, entendeu?

- Nossa missão é impedir que as criaturas malignas cheguem até o deserto. – Argor se pôs na conversa. – A criatura imensa que você viu na sua catedral, destruindo a cidade de Erloorhe era a primeira besta, causadora da ruína e da desgraça.

- Esperem um pouco. – ele ergueu as mãos em sinal de ‘parem’. A cabeça dele estava confusa. – Aquela ‘coisa’ enorme tem que ser destruída, não é? – tentou organizar as ideias. – Mas ela estava adormecida, se entendi corretamente? Quem a acordou?

Meliath ergueu a mão direita. – Fui eu mesmo, rapaz.

A situação só complicava.

- Mas por que acordar algo que deve ser destruído?

- Por que somente uma besta do apocalipse pode acordar outras bestas.

- Então por que não deixa-las dormindo?

- Por que assim não poderemos encontrar e acordar a grande criatura do quadragésimo segundo ciclo.

- Mas por que vocês querem acordar algo que vocês não querem que acorde?

- Nunca dissemos que não queremos que ela acorde. – Meliath não conseguia ficar quieto. – As bestas nos guiarão, mesmo contra a sua vontade. Quando soubermos onde devemos ir, deteremos as bestas, e então iremos para o deserto acordar a criatura. Para ai sim, destruirmo-la.

- É uma missão perigosa, e não é livre de falhas. – Calehb tentava consolar o filho.

- E, no entanto, não pode haver falhas, se não haverá muita dor e destruição no mundo humano. – Argor era grave, e suas palavras soavam duramente nos ouvidos do garoto.

Meliath se virou e continuou andando. Calehb deixou o filho para trás, ciente de que ele preferiria alguns instantes sozinhos para digerir tudo aquilo.

Apenas Argor ficou junto dele, olhando-o nos olhos. Deu de ombros, e disse antes de sair. – Você perguntou algo. Sua curiosidade é a culpada pela sua dor de cabeça agora.



Do lado de fora da muralha, o vento era forte e frio, e somente com muita dificuldade se mantinham em pé e caminhando.

Meliath seguia na frente, de modo a servir de proteção contra os ventos dianteiros, formando uma espécie de área de caminhada sem a força do vento os empurrando, mas não era o suficiente.

A grande montanha sobre a qual fora construído o forte possuía neve durante todo o ano, e as camadas fofas e brancas eram espessas, afundando quase até a cintura qualquer que por ela caminhasse.

O trecho de neve eterna terminava algumas dezenas de metros adiante, mas era impossível seguir em linha reta, pois o vento os forçava a andar em curvas, para não permanecer sempre na direção contrária ao vento, o que tornava a viagem mais longa e dura.

Após alguns longos e penosos minutos, conseguiram cruzar o trecho nevado.

Meliath não demonstrava, mas era óbvio que estava cansado. Traziam consigo muito alimento. “Apenas o suficiente para uma viagem curta”, dissera ele, mas era claro que não seria uma viagem curta até qualquer que fosse o local.

Colocando a mão sobre os olhos, vislumbrou ao longe apenas os borrões do que deveria ser a muralha. Mesmo estando a poucos metros dela, era como se nada houvesse a sua frente senão neve e pedras, que seguiam montanha acima. Era essa a maior das proteções da muralha, que conseguia se ocultar até mesmo dos mais acurados olhos.

Abrigaram-se sob a copa de uma grande e monstruosamente enorme sequoia, que fornecia abrigo do vento e da neve que caia ali. Escolheram o lado da grande sentinela em que o vento fosse a favor, de modo a se abrigar também das rajadas fortes e frias.

Mesmo sobre a barreira que ela formava, uma fogueira se tornava inviável. Nesse momento se provou a utilidade e a necessidade dos mantimentos.

A maior parte do que fora trazido eram sólidos de fácil digestão, em sua maioria alimentos que não necessitassem de fogo para serem preparados. Mel, pães, bolachas e vinho para ‘esquentar as tripas’, como brincara o pai.

Sentados em um círculo, Calehb e o rapaz ingeriram alguns pequenos pedaços de pão com mel, e alguns goles de vinho, servidos em dois pequenos copos de madeira, fortes o suficiente para não quebrarem e naturais o suficiente para não racharem com o frio. Aquele vinho era doce, e parecia um pouco morno.

- Isso é por causa desses cantis. – balançou o cantil de couro na frente dos olhos do filho. – São de couros crus, lavados e forrados com uma camada fina de vidro, para manter um pouco do calor deles aqui.

O vinho lhe caia bem, e aquela sensação morna e doce na garganta o revigorou um pouco.

O olhar de Meliath estava perdido, fixo em nada em especial. Girava um punhal de cabo de osso na mão direita. O punhal era longo, de aproximadamente vinte e cinco centímetros, com a ponta aguçada e curva, com o fio bem feito e afiado. A empunhadura era de um osso cinza-amarelado, com tiras de couro fervido atadas para dar firmeza no manejo do objeto. Não possuía adornos, gravuras nem nada de especial como a lâmina que lhe dera, mas era muito afiada, em igual teor àquela. A lâmina fora lhe dada por Argor, como um gesto de despedida. Meliath não gostava de despedidas, mas não se impediu um abraço apertado no amigo e anjo guerreiro de tantas batalhas.

Fora uma despedida especialmente rápida, mas Argor tinha algo para presentear a todos.

À Meliath entregou a lâmina, dizendo que não seria de muita utilidade em batalhas, mas que ela seria uma ótima aliada em persuasões que se botassem em seus caminhos.

À Calehb foi dado um pequeno bastão de madeira, feito com um único espigão de metal em uma das extremidades. Argor lhe disse que se mostraria útil em momentos em que a simples persuasão não fosse o suficiente para liberar o caminho.

Finalmente, ao rapaz foi entregue um simples cordão com um grande pingente em forma de pena, negra e vermelha nas pontas. Para ele, Argor falou gravemente. – Quando a diplomacia e a força não forem o suficiente para limpar seu caminho, encontrarás sua ajuda junto dessa pena. Não a perca de vista nunca, não a retire do pescoço em hipótese alguma. – Argor colocou o cordão ao redor do pescoço fino do rapaz. Em seguida, envolveu a pequena pena de metal com uma das mãos. – Assim farás quando vires que nada mais irá lhe ajudar a prosseguir. Se tiverdes fé em sua força, essa pena me trará para perto de você, e o protegerei com minha vida, pois você ainda tem uma longa missão a cumprir antes do fim. – soltou a pena, e pôs a mão sobre a cabeça do garoto. Um sorriso surgiu nos lábios do anjo. – Mas não se esqueça: apenas se não houver outro modo de continuar adiante, e se estiver sozinho e desamparado. E você terá de acreditar que ainda pode vencer. Caso contrário, nenhuma magia ou poder me trará até você, compreende? – o garoto assentiu com um sorriso no rosto. Argor também assentiu, e descabelou amigavelmente os cabelos dele. – Então não há motivos para temer, por hora.

Agora estavam ali, sentados tentando se aquecer da melhor forma possível. – Na árida região de aço e pedra eu ergui a minha voz para que você possa escutar. Eu chamo o Leste e o Oeste. Eu mostro um sinal proclamando o Norte e o Sul. – Meliath recitou aquelas palavras calmamente.

- Morte ao fraco, saúde ao forte. – completou Calehb. – Fazia tempo que você não recitava algum trecho do livro de satã, meu amigo.

O garoto estava alheio à conversa, em um estado que se definiria como ‘boiando’. – Como que é?

- Esse é o primeiro verso do primeiro capítulo do Livro de Satã, da Bíblia Satânica. – Calehb parecia quase iluminado ao ver ouvidos atentos a sua explicação. – Esse é um livro de ensinamentos e estudo, usado por satanistas ao redor do mundo. Diz-se que foi pessoalmente recitado pela Estrela da Manhã quando foi lançado nas profundezas do Sheol.

- O que era o Sheol? – o rapaz perguntou.

- É ainda. Esse é o nome do inferno em hebraico, e significa ‘túmulo’, o mesmo que Hades. – Meliath entrou na conversa. – Eu não gosto muito de falar do meu ‘padrinho’, mas a situação exige alguns esclarecimentos antes de continuarmos. – olhou para Calehb e para o rapaz, e recebeu apenas seus silêncios. Tomou isso como um ‘sim’. – Pois bem.

“O inferno nunca foi um lugar receptivo para ninguém, simples assim. Tudo que ia parar lá tinha um propósito, o qual não nos era explicado. Há e sempre houve quatro príncipes coroados no inferno: Satã, o adversário, opositor, acusador, Senhor do Fogo. Ele simboliza o sul. Lúcifer, o portador da Luz, a iluminação, o ar, a Estrela da Manhã. Simboliza o leste. Belial, o sem-mestre, base da Terra, a independência. Ele é o norte. E por último, Leviatã, a serpente fora de suas profundezas, o mar. Este é o oeste.”

“Esses príncipes tem controle sobre os chamados círculos do Sheol, ou Hades, se preferir. Sob seu comando existe um barão que comanda seus exércitos.”

“Sob o comando de Satã, Mammon, o Senhor da Riqueza e do Lucro, tão astuto quanto perigoso. Abaixo de Belial, Euronymous, Príncipe da Morte, responsável pelas punições aos espíritos que chegam ao inferno. Sob o mando de Leviatã, Sabazios, a personificação frigia e em forma de serpente de Dyonisus. Era ele a serpente no Paraíso.”

“Não se sabe ao certo a forma do subordinado da Estrela da Manhã. Alguns pensavam que poderia ser Apollyon, o arquidemônio, mas esse se mostrava frequentemente e, portanto, não poderia ser ele. Sabe-se que não será conhecido até que se chegue o Juízo Final. A única coisa que se sabe sobre esse barão é seu nome: Demogorgon, ou Gorgo, o ‘não visto por mortais’.”

Meliath apontava para o rapaz. – Eu somente te falei isso para que saiba onde tu ‘tá te metendo. – o garoto permanecia em silêncio.

“É sabido que, quando na rebelião de Lúcifer, um terço dos anjos do céu se uniu a ele. Eram em sua maioria kuriothes, anjos responsáveis pela execução das ordens Divinas sobre as coisas criadas. Havia também querubins, os anjos responsáveis pela guarda do trono de Deus, anjos de sua própria casta. Os serafins não se juntaram a sua causa, por serem eles feitos de uma pureza mais profunda que qualquer coisa.”

“Na expulsão do Paraíso, Adão e Eva foram impedidos de retornar ao Jardim. Sobre o mundo, o reinado dos demônios era extremamente poderoso. Suas hostes, desprovidas de glória e poder, transformaram o mundo habitável em um caos.”

“Em meio a esse caos, Miguel interveio e os expulsou para o Sheol, e decretou que os demônios seriam mantidos aprisionados ali até que se chegasse a hora do seu último reinado sobre a Terra.”

“Outra coisa sobre os anjos: a quantidade existente de anjos é única e incontável, porque desde que foram criados não foram aumentados nem diminuídos. Eles não procriam e foram criados de uma vez pelo poder da Palavra de Deus. Isso significa que nenhum morreu, e nenhum novo nasceu.”

“Todos aqueles que se juntaram a Lúcifer ainda vivem, do seu modo amaldiçoado, mas vivos. No entanto, demônios podem ser criados. Simplesmente dê um motivo, uma mágoa e uma oportunidade de blasfêmia e terá tudo para ser um demônio. E ele soube muito bem como arrecadar novos ‘sangues’ para suas fileiras.”

“Sua contagem de servos é quase incalculável, mas não chega nem próximo da metade de anjos, o que faz dele alguém um tanto quanto impotente no sentido de iniciar uma nova rebelião.”

“Mas ele nunca quis uma nova rebelião. Sua tática agora mudou: ele pretende fazer com que a dúvida e a discórdia atuem antes de seus atos. Seu objetivo é virar a própria criação contra o Criador, entende?”

Meliath tomou fôlego. – Bem, eu te falei isso pois acho que já estava na hora de tu ver que essa seria uma batalha perdida não fosse esse trunfo do ‘padrinho’. – fechou os dedos, como se faz para pegar sal, com os dedos esticados e juntos, e os mexeu em um gesto de ‘acredita nisso?’. – Essa criatura no deserto. Era a possibilidade de frustrar os planos divinos. Nós temos que parar com isso antes que seja tarde.

Um galho se partiu as suas costas.

Antes que pudesse reagir, Meliath saltava sobre sua cabeça, com os cascos erguidos e direcionados a qualquer coisa atrás do rapaz.

Um forte baque, e o garoto correu para o pai, mas este estava preso em uma gravata bem aplicada por um alto e forte homem. Paralisado, sem saber o que fazer, logo pensou no pingente de pena, mas lembrou-se que as esperanças ainda eram propícias. Sacando sua faca, jogou-a de uma mão para a outra e preparou um salto contra o homem que segurava o pai.

Arqueou o tronco, e saltou. Foi nesse momento que percebeu as longas e alvas asas nas costas dele. Esse ínfimo instante o desconcentrou, e algo o agarrou pelo peito e o apertou em um abraço de quebrar ossos.



Meliath saltou prodigiosamente, e os cascos acertaram em cheio o peito do anjo, e esse se desequilibrou. O demônio pousou sobre o tronco arfante do anjo e desceu a lâmina em arco contra o coração.

Uma mão forte parou seu punho, e o arremessou longe. Somente parou de encontro a um tronco escorregadio e gelado de uma longa sequoia.



O braço que prendia seu pescoço era vigoroso, e a entrada de oxigênio estava obstruída. A cabeça latejava forte, a visão começava a enevoar. Logo, não sentia mais os braços, nem as pernas.

Calehb perdeu os sentidos logo em seguida, e seu corpo relaxou.

O braço ao redor do pescoço do humano aliviou a pressão, e permitiu que o corpo desacordado caísse.

Ali foi deixado.

- Esse garoto. – o anjo que fora atacado pelo demônio do grupo era quem falava. – É ele mesmo?

O maior e mais forte deles, que segurava o garoto em um braço e a sua faca afiada na outra mão respondeu. – Ele mesmo.

- O que faremos com os outros? – era o anjo que aplicara a gravata no humano pálido.

Uma gargalhada saiu do fundo da garganta do anjo com a criança. – Deixe que morram de frio aqui. Ou que os animais se alimentem de suas tripas, da forma que lhes pareça melhor.

Os outros anjos apenas assentiram. Não foram feitos para discutir, apenas para acatar ordens.

Virando-se, com o garoto desacordado no lado esquerdo do tronco, preso sob um braço coberto de ferimentos e ataduras, andou alguns passos adiante. Em um movimento quase invisível, saltou ao ar, e abriu as asas. Os outros o seguiram, e logo o local estava vazio. 
 Uma pálida luz brilhava no seu campo de visão debilitado. O forte choque contra a árvore o desacordara por alguns instantes. Sentia como que se tivesse quebrado algumas costelas, mas não era nada muito grave.

Erguendo-se, olhou em volta e viu o amigo caído no chão. Correu até ele, e segurou-o nos braços. Deu algumas palmadas fracas no rosto, para que acordasse. Alguns instantes e tapas depois, ele acordou.

Nada delicado, Meliath o soltou e correu ao redor gritando pelo garoto. Nesse momento, virou-se para Calehb e fez uma pergunta. – Eu conheço teu filho a algumas semanas, sabe? Mas qual é o nome dele mesmo, por que não me lembro de tu ter me falado.

Calehb, ainda atordoado, respondeu. – O nome dele é... Espere ai. – finalmente caiu a ficha. Toda sua consciência retornou. – Onde está o meu filho?

Meliath desistiu. Virou-se e tentou seguir os rastros dos anjos, mas percebeu o quão inútil seria em decorrência de suas asas. Perto de onde estiveram sentados, um brilho reluziu em seus olhos novamente.

Um medo súbito o tomou, e temeu pelo que encontraria.

Quando se aproximou, tudo ruiu.

No chão, meio enterrado na neve remexida, uma pequena pena branca e negra, de metal, brilhava com uma luz vinda de lugar nenhum.
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