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Canções da Meia-Noite #37 - A Balada do Caçador - 1. Harmonia que se Perde

Olá caros leitores,o natal passou e com ele muitas histórias novas estão chegando.A Canções de hoje vem com um conto que traz uma perspe...


Olá caros leitores,o natal passou e com ele muitas histórias novas estão chegando.A Canções de hoje vem com um conto que traz uma perspectiva de leitura inédita,trazendo o estilo conhecido como Ligth Novel( um estilo de escrita muito famoso no oriente).O responsável por essa narração é  Rodolfo (@rofoldoo),que te leva a embarcar  em mundo marcado pela a existência de criaturas sombrias ,nas quais poucos são capazes de enxergar ou entender,ao mesmo tempo que os verdadeiros inimigos mostram-se mais próximos da face humana do que a de horrendas criaturas.

















Harmonia que se Perde


Eloy tinha a perfeita harmonia.

Apresentava-se semanalmente numa casa de teatro, acompanhando de um show de marionetes e grandes bonecas de pano. O piano era sua vida, a melodia seu sangue. Para as dançarinas mascaradas, a música era a companhia perfeita. Para Eloy, o salário era o suficiente.

Aurora sempre estava lá, o assistindo. Sempre presente, sempre companheira, sempre fiel. A melhor dentre as mulheres, costumava dizer. Jurara lealdade frente a um padre gordo e garboso, Eloy também o fizera. Eram marido e mulher, eram apenas um, um casal, um relacionamento perfeito. Por anos.

Naquele dia, ela não estava na plateia.

Naquele dia, Eloy vestia uma máscara. Não gostava de máscaras, atrapalhavam sua visão, confundiam seus olhos, o ritmo do dedilhar do teclado. Não gostava de máscaras, pois elas escondiam o verdadeiro eu, ainda que não o modificassem.

Ali, ao seu lado, mulheres de família, mães e filhas, dançavam seminuas. Com máscaras. Exibiam seus dotes sem se importar, não eram vistas, não seriam reconhecidas. O corpo importava, não o rosto, não a alma. A dança, a música, a sedução, a provocação. Nada mais.

Ali, no palco, não eram mulheres. Eram atrizes.

E Eloy era o pianista.

Sempre houve aplausos. Naquele espetáculo, porém, Aurora não estava presente. De resto, pouco se importava com o ressoar das palmas. De que adiantaria tocar a melodiosa harmonia que marcara seu casamento, sem sua esposa para escutar?

Mais cedo, no mesmo dia de sua apresentação, discutiram. Nada fora do comum, nada diferente do normal. Discutiram, pois eram casados, pois isto fazia parte de uma vida a dois. Ela fingiu não desejar assisti-lo. Ele fingiu não se importar. Pois assim era a vida de dois apaixonados: nas brigas, cada um finge não ver os problemas, e tudo está certo.

Quem sabe?



Lá fora, a chuva caía. Eloy observava sua cidade do local costumeiro, uma gárgula no topo de um arranha-céu. Era bizarro, mas sentia-se um super-herói. Não gostava de super-heróis, nunca os admirou, nem mesmo na infância. Eles eram indestrutíveis, passavam a falsa imagem de que todos poderiam ser.

Eloy sabia, no fundo, que os homens eram tão destrutíveis quanto sulfite na fornalha.

Para muitos, a vida era apenas uma sequência de atos, poucos bons, infindáveis péssimos, uma sequência inacabável de ambição e envolvimentos. Para muitos, ou talvez para todos. Poucos sabiam da fragilidade humana. Poucos sabiam que havia algo diferente do homem, algo superior, ou inferior, ou talvez fosse a mesma merda, mas diferente. Saídos de vários lugares, de lugar nenhum. Existentes, reais, poderosos e perigosos. Aproveitadores, enganosos, atuantes.

Sobrenaturais.

A chuva encharcava Eloy, as roupas respingavam. O cabelo já estava colado ao rosto. Os olhos tinham dificuldade em manter-se abertos.

Não só os dele.

Ao longe, alguém lhe observava. Atento, esperto, astuto. Outro caçador. Abel.

Eloy o viu, não se importou. Abel era um maníaco, um insano. Não fazia diferença.

Outra coisa o fez.

Algo se moveu na cidade, não eram carros. Havia poucos automóveis nas ruas, era madrugada, o frio incomodaria qualquer pessoa que se aventurasse nas calçadas. Os semáforos estavam desligados, evitando assaltos. Gangues sentavam-se no terraço de construções, usavam suas drogas em coberturas, não roubavam na chuva. Tudo estava em silêncio, inerte e mórbido.

Mas algo se moveu, porque sempre tinha algo para se mover.

Eloy se levantou, suspirou. Trabalho.

Além da profissão, é claro.

De pé, pegou a espada que o aguardava jogada. Não a tratava com carinho. Carinho era algo que preservava apenas para Aurora.

“Não vai tentar me impedir?”, perguntou ele, sem se virar. Sem carinho.

Abel estava lá. Chegara sem ruído, mas fora notado. Sempre que juntos, duelavam da maneira dos cavalheiros: com palavras.

“Não gosto de caçar na chuva”, disse ele em resposta. As roupas claras estavam manchadas pela tempestade. “A presa é sua, sinta-se à vontade.”

“Seria minha de qualquer maneira”.

Abel riu.

“Você é convencido, não acha?”

Silêncio.

“De qualquer maneira, não me importo com este monstro. Ele é todo seu”.

Eloy acendeu um isqueiro, a chuva apagou.

“Você não se importa com nada”.

“Brigou com ela outra vez?” Sorrindo. “Com a sua daminha?”

Eloy suspirou, saltou para o prédio seguinte. Abel gargalhou.

Assim era a rivalidade.

Algo se movia, e era rápido. Eloy estreitou os olhos, era um carniçal, um homem transformado por vampiro, mas incompleto, fraco e escravo. Eram rebeldes, fugiam de seus donos, faziam arruaça. Não pensavam. Talvez não pudessem, talvez não desejassem. Mas nunca pensavam.

Eloy saltou sobre ele, rolaram ambos no asfalto inundado. Água espirrou para longe, a chuva continuava a cair. Vermelho manchou as poças d’água, a espada rugia. Três cortes, caíram dois braços, o peito se abriu num sorriso. Um quarto, era o último, o carniçal jorrou escarlate, como um hidrante. Uma estocada na testa, desintegrou.

Eloy limpou a espada.

Este era seu trabalho. Não sua profissão.

“Até quando vai caçar esses monstrinhos?”

Abel era inconveniente. Eram rivais, sempre foram. E, como rivais, sabiam deduzir o que o outro estava pensando. E Abel sabia a fraqueza de Eloy.

Pois a fraqueza de Eloy era Aurora.

“Enquanto eles importunarem a cidade”.

“Eles são fracos, Eloy”.

“Todos somos”.

“Você é. Por isso se sente feliz derrubando esses pobres coitados.”

Tirou o isqueiro das roupas, brincou de acender, deixava a chuva apagar.

“Você não me machuca com suas palavras, Abel”.

“E que tal Aurora?”

Eloy jogou o isqueiro para longe, avançou para sobre Abel, grudou-o pelas vestes.

“Ouse”, com tranquilidade.

Abel sorriu.

“Não luto desta maneira, Eloy. Vou derrotá-lo, quando for a hora, mas não precisarei abusar daquela vadia”.

Eloy socou, Abel evitou o golpe, ambos se afastaram.

“Cale a boca”.

Abel ria. Sempre ria.

“Faça as pazes”, zombava. “Volte para ela, como o cãozinho submisso que é. Volte correndo, Eloy. Sua coleira vai enferrujar na chuva”.

Gargalhou, acenou uma última vez, desapareceu na tempestade.

Eloy procurou seu isqueiro, não encontrou. Deixou-o na chuva, foi embora.



Abriu a porta, as luzes estavam acesas. Eram quatro horas, madrugada gélida. Algo estava errado.

A visão turvou, Eloy cambaleou.

Piscava, cada piscadela parecia meia hora, foi tomado por ilusões. As paredes gargalhavam, como Abel, a casa tentava devorá-lo. Escutava sua esposa grunhir, como uma porca, gritar por uma dor irreal. Escutava a dor de sua filha, que sequer planejava nascer.

Sentiu aquela loucura, aquela insanidade o corrompeu. Caiu de joelhos, socou o chão, as mãos sangraram pelos golpes. Rolou no tapete luxuoso, debateu-se contra o sofá, derrubou uma mesa de vidro, tudo trincou no chão. Pegou uma peça do vidro, apertou nas mãos, viu seu sangue escorrer, mas aquilo não o livrou da tortura mental. Estava louco, estava perdido, confuso. Sangrava.

Ergueu o vidro, rasgou um dos pulsos na horizontal, a dor o assolou. Não morreria. Balbuciou coisas estranhas, não se entendia. A saliva impregnou sua boca, vomitou na madeira. Tentou se arrastar, o corpo ardia, como se em chamas. Empurrou o sofá para longe, se ergueu, sangrava muito. Passo ante passo, seguiu aos tropeços, alcançou seu quarto com dificuldade.

Tudo se apagou.

Então gritos, estrondos, silêncio.



Música.

A plateia aplaudiu, o pianista tinha uma máscara. Não era Eloy. Os olhos eram diferentes. Mas tinha de ser ele, aquele espetáculo era dele.

Não era Eloy.

As mulheres dançavam, o público se agraciava. O pianista era bom, talentoso. Eloy estava na plateia. Alucinava. Aplaudiu também. A sensação era estranha, como um espelho, onde se vê tudo ao contrário.

Música.



Então gritos, outra vez.

Escuro.

Sangrava, sentia-se vazar pelos cortes, a dor era intensa. Estava deitado, mas não no chão. Era o colchão, era sua cama, tinha o cheiro de sua mulher.

Aurora.

Onde estava Aurora.

“Aurora?”, chamou, sem resposta.

Havia algo em seus braços. Era quente.

“Aurora?”

Nada.

Seu sangue se misturou a outro líquido, o escuro não o deixava ver.

“Aurora?”

Eloy não sabia o que era tristeza. Não sabia o que eram lágrimas. Sempre estivera sozinho, Aurora era um brinde inesperado. Uma mulher que o amou, que fez de tudo por ele, que o deu afeto e carinho. Ele fez o mesmo, como nunca achou ser capaz de fazer. Ela o apoiava no piano, sua profissão. Apoiava em seu trabalho, por mais que desconhecesse a verdade.

“Aurora?”

Chorava, mas não sabia dizer se era sangue ou lágrimas. Tudo era confuso.

“Aurora?”

“Estou aqui”, fragilizada.

“Onde, meu amor?”

“Em seus braços”.

Tortura. A mente se comprimiu, parecia prestes a explodir.

“Não...”, inconformado.

“Não se importe, Eloy”.

“Não, Aurora”.

“Eu te amo”.

“Não!”

“Eu te amo”.

As luzes se acenderam, a escuridão se foi. Eloy viu que chorava, sentiu-se uma criança.

Então viu, em seus braços, sua amada. Agonizava, coberta por vidro e sangue, os olhos choravam vermelho. Morria.

“Eu te amo”, repetiu ela, tossiu sangue.

Eloy também morria, mas de um modo diferente.

“Viva...”

A cabeça pendeu para o lado, sem forças.

“AURORA!”

Eloy tinha a perfeita harmonia.

Não mais.

Dois olhos observavam.

Eram violeta.


Se vocês desejam acompanhar esta saga basta acessar o blog  Elhanor .
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