19 de dezembro de 2011

Canções da Meia-Noite #36 - Renascimento


Olá caros amigos contadores de histórias, esse bardo (que estão transformando em Ent!) retorna de sua aventura com a galera do RPG Vale na busca pelo prêmio TOP BLOGs 2011 e agradeço a todos que ajudaram nessa conquista.Quem vem hoje trazer uma história pra vocês é o bardo das cidades  Mestre Urbano (@mestreurbano) ,que através de seu conto, mostra como seria um mundo sem os heróis e  a importância simbólica que as pessoas que carregam esse titulo possuem.






















Renascimento

Gritos.

Gritos de dor, de medo, de perda, de impotência sobre um acontecimento.

Eram gritos de morte.

Ela, a morte, vinha pela terra na forma de humanóides cheios de ferimentos com pus saltando a cada passo da corrida. Em alguns desses, já não existia ferida alguma, mas sim cascas quase negras, meio esverdeadas. Em poucos, essa casca eram escamas negras, brilhantes como ágatas do inferno.

Humanos, anões e orcs. Alguns halfings e até alguns centauros cinzas. Todos investiam como loucos para a pequena cidade.

Mas não era “só esse” o motivo dos gritos, no céu a morte também bailava, algo escuro como uma noite de eclipse total, sobrevoava o que estava para se transformar em um matadouro, cuspindo ácido, que caiu com uma chuva torrencial, a primeira chuva daquele início de noite.

O Ácido chiava, enquanto derretia carne e ossos.

Uma mácula invadia os corações dos habitantes e se alguém tivesse coragem para enfrentar o inimigo, agora era quem mais corria.

Outras três formas voadora, miniaturas da primeira, planavam em volta desta. Por vezes davam um rasante, trazendo nas garras algum azarado, homem, mulher, criança ou velho, que era devorado. Apenas uma dessas pequenas formas não saia de perto da maior.

Uma dragoa negra e seus três filhotes.

Aquela cena não era inédita, muitos locais eram atacados, principalmente nos últimos vinte anos, quando o mundo caiu em desgraça.
Quando os heróis sumiram.

Existiam outros heróis, é óbvio, mas eram poucos ou inexperientes, não tinha força ou sabedoria para mudar aquele estado atual. Por isso, quando falamos que os heróis sumiram, estamos falando dos maiores heróis dessa era.

Traídos ou enganados, poucos sabiam o que tinha acontecido, mas era conhecimento popular que um deles sucumbiu às trevas. Um estava preso, como lixo em Digvar-Dun, a prisão eterna. Outro tinha se auto aprisionado em um encanto para conseguir escapar em um último combate. O destino dos outros dois era um mistério.

Eram conhecidos como o Sexteto, os seis imortais, por quase trinta anos não houve mal que perdurasse. Agora eram lendas.


Ele estava ali por acaso, Guilliam era um bardo que, mesmo tendo tempo de estrada, não era famoso e não tinha uma grande balada. Viajava de cidade em cidade, contando a história dos outros. Viveu algumas aventuras, que seriam usadas por qualquer bardo para criar alguma balada, mas ele queria escrever logo de primeira uma história fantástica. E ele vivia sempre esperando.

Naquele lugar, ele sentia, que ainda não era a hora, pouco ouro e péssimos ouvintes. E nada de novo, sempre a mesma cidade.

Se ele soubesse o que estava prestes a assistir, daria um beijo em cada um dos habitantes.

Os gritos continuavam, as pessoas corriam para floresta que circundava boa parte da pequena cidade.

Os velhos ensinavam a respeitar a mata, ainda mais com uma crença surgida nos últimos anos, que só fez fortalecer esse ensinamento. Era dito que um espírito bom começou a viver ali nos últimos tempos. Para muitos era pura bobeira, porém ninguém tinha como contrariar que as fruta estavam mais belas e abundantes nos últimos tempos. Até os animais estavam mais calmos e não atacavam como antes. E, naquele momento, todos se agarravam a qualquer chance.

Conhecendo essa história, Guilliam achava normal que eles fossem para aquele lado. Ele também corria naquela direção, não por crença, mas porque sabia que seria mais fácil despistar aquela turba pela mata.
Ele até poderia lutar contra eles, mas ele não era um herói, não conseguiria salvar ninguém ali, só morreria como um idiota.
Como a maioria, ele tinha perdido a fé. Não acreditava que heróis surgissem no último momento para salvar o dia.
E assim como aqueles que perdem a fé, ele nunca associou o tempo que as lendas daquela floresta se intensificaram ao período que os heróis sumiram. A lenda que um grande espírito ou um semideus vivia ali.

Talvez fosse um pouco de tudo e muito mais.

O som do mundo pareceu sumir, levando o vento com ele.
Muitos ainda corriam e matavam, corriam e morriam, só os mais sensíveis ou que já tinha desistido perceberam.

Um dos filhotes planou por cima das árvores, soltava pequeno jatos de ácido, orgulhoso que estava. Cipós serpentearam da mata e puxaram-no, sem que tivessem tempo de reagir.
A cena acontecia com os humanóides com as chagas, os mais pertos da floresta eram tragados gritando tanto quanto as pessoas que morriam

O maior dos filhotes fugiu do abraço da mãe e tentou abrir um caminho na mata para achar o irmão. Uma baforada poderosa abriu um caminho na mata, no meio ele viu um enorme volume envolto de plantas.

Sem medo, o dragão, que era quase um adulto da sua raça, entrou na floresta, farejando, chegou perto do que, agora, achava ser uma pedra. Mas pedras não se mexiam.

Uma forma humana, ou quase, totalmente feita de plantas, um pedaço de mata, com quase quatro metros de altura o envolveu, o dragão, que não conseguiu fugir do aperto esmagador. A floresta fechou-se a sua volta. Um urro acompanhou o barulho de ossos partindo.

Outros daqueles homens plantas atacavam os aliados terrestres da dragoa. Bem mais fracos que o dragão na floresta, eram mortos, com a mesma facilidade que fizeram com as pessoas dali.

A Dragoa olhava horrorizada, lágrimas do tamanho de punhos caiam. Ela não entendia. Aquele era o quarto ataque, matava uma parte das pessoas e infectava as outras Tudo tinha dado certo, seu plano esta indo perfeitamente bem, mas agora...

Então ela sentiu, soltou o filhote e procurou o culpado. Viu em cima da maior casa daquele lugar, uma das mais distantes da floresta. Fazia gestos, que ela sabia ser de magia, mas estava de costas para ela. Ignorando-a.

Furiosa ela desceu rasante na direção dele, mesmo não sendo da sua natureza, perdeu o controle e partiu com tudo para cima do seu inimigo, uma tática habitual dos seus parentes Brancos.

As pessoas demoraram a entender o que ela fazia, quando notaram o homem em cima da casa do líder, muitos os corações, principalmente os mais velhos, encheram-se de esperança.

O vento que a dragoa provocou, jogou no chão quase todos, fora os homens-plantas, o golpe poderoso da garra, destruiu parte da casa e ela carregou algo até o céu. A dragoa sentiu uma dor intensa na pata, quando viu que carregava um dos homens-planta, que a atacava com fúria, mas não era o culpado por tudo aquilo. Em uma mordida arrancou partiu ele em dois. Eles se encararam.

Lá em baixo, todos olhavam para o estranho em cima do que restou do casarão. Os cabelos que já foram dourados eram uma mistura de folhas, galhos e barro e tranças grossas. Onde não estava sujo de lama, runas que brilhavam em verde estavam desenhadas e se moviam no ritmo de um vento místico que ninguém sentia.

Estava mudado, diferente de vinte e poucos anos atrás, porém todos sabiam o que aquele homem representava, não só ali, naquele desastre, mas para o mundo.

A Dragoa urrou. Era uma exigência, queria saber quem era ele, mas no seu coração havia a medo.

Passaram alguns segundos, o único som era dos humanóides infectados lutando contra os homens-planta. A boca dele mexeu e a floresta amplificou sua voz.

“Suma! Desista agora e ficará viva, continue e não terei piedade!”

Fora ele, ninguém saberia dizer se o som de resposta da dragoa era medo ou uma afronta. Ela liberou a mácula do seu corpo, vários voltaram ao chão com a mente abalada, a maioria tremia ou tinha convulsões. O herói continuava parado. Até os aliados da dragoa sofriam, lutando contra um medo primitivo.

Sem pestanejar ela usou a arma que dava aos dragões a sua fama. Realmente estava desesperada.

Acima da aura de medo, da astucia ou de qualquer magia.

A Baforada.

Uma enorme massa de um líquido acido desceu sobre eles. Quem não estava estático pelo medo, tentou correr, apenas para descobrir que eram vitimas de algum encanto que prendia no mesmo local. O bardo viu que o herói tentou se mover, também estava preso.

Esse por sua vez cortou os pulsos, um líquido que parecia musgo escorria dos cortes, ele fez alguns gestos e tocou no sangue que escorria pela parede da casa, o volume do sangue aumentou, formou uma onda que banhou toda a vila.

Era uma espécie de musgo pegajoso, mas ninguém teve tempo de pensar muito, o mundo sumiu quando a baforada chegou ao chão.

Era a segunda chuva daquele dia.

Houve gritos, muitos e altos, porém acabaram rápido. Pois a dor que os gritos previam não existiu ou não foi tão forte.

Um ou outro tinha marcas de queimadura na pele, mas nada grave. Aquele musgo tinha protegido a todos.

O herói estava ajoelhado, fraco, as runas da pele tinham sumido.

Todos que acompanhavam a cena, acharam que era o fim. A Dragoa desceu de novo, das patas raios saíram em direção ao herói. Suas garras e mandíbula brilharam. O som que ela produziu o bardo sabia que era uma gargalhada, uma risada de vitória, sobre aquele mísero mortal que a desafiou.

Em meio ao vôo certeiro a cabeça dela tremeu, ela conseguiu manter o controle, mas o crânio majestoso tremia. Um dente caiu da boca, fincando no chão bem ao lado do bardo. Da boca dela, um homem-planta, com só metade do corpo, dava socos por dentro.

Ela mastigou-o, seguindo sua trajetória. Na mente só a morte daquele maldito existia, mataria todos daquela vila e destruiria quantos mais fossem necessários, para recuperar seu exército.

Foi quando sentiu uma dor no peito, depois em uma pata e na asa. Na mão do herói um arco feito de galhos, disparava flechas, cada uma se partia no ar transformando-se em duas, tinham pequenos orifícios, que em contato da carne dela, continuam atacando, mordendo.

Mais três vieram na sua direção ou ela estava indo de encontro às flechas.
Três viraram seis. Um no olho, no peito, outra na asa, na cabeça e nas patas. Os raios que ela lançou sumiram antes de tocá-lo.

A terceira chuva, agora de sangue, caia, em quanto ela tentava manter o controle, mas cada vez chegava mais perto do solo, até se chocar.

Parecia um pequeno terremoto, a poeira encobriu tudo.

Quando a poeira baixou, todos viram que a casa tinha sido destruída, além de outras atingidas pelas asas. A dragoa estava a mais de duzentos metros, um enorme rastro se entendia desde onde ficava a casa do chefe da vila até o grande descampado a frente.

Alguns chamaram pelo herói, pois ninguém o via em nenhum lugar, Uma menina que viu a mãe ser morta e abraçava o irmão caçula foi a primeira a gritar, quando viu o herói em cima do corpo da Dragoa.

Todos correram para saudá-lo.
Mas ainda havia mais surpresas naquele dia.

Ele encarava o algoz da sua família, sem saber o que sentir. Estava entre ele e as pessoas que ele salvou. Mesmo sendo um filhote, tinha idade para saber quem era aquele herói, o druida. Sabia que ele faria tudo de novo se necessário. E sabia que ele estava certo.

O druida não parecia surpreso com aquele novo personagem, o filhote da dragoa, o único a sobreviver, o único que não atacou ninguém.

Parte das pessoas que sobreviveram, queriam atacá-lo, corajosos que estavam, já que o herói tinha dado cabo de uma fera muito maior.

O último homem-planta ficou às costas do dragão, mesmo sem olhos ou boca, todos entenderam bem o que aquilo queria dizer.
- Você fez isso porque ela era má? – O filhote disse no comum, o linguajar que todos os povos entendiam, o que fez que todos se calassem.

- Também, mas, principalmente, porque ela resolveu praticar essa maldade contra pessoas inocentes, veja que mesmo dentro de comunidades boas, há pessoas ruins, mas nem por isso elas agem com maldade. Talvez por medo ou por lealdade. - O herói disse mais para as pessoas da vila, que para o atormentado dragão.

- Você fala, como se ela tivesse escolha, como se não fosse a natureza dos dragões negros que a fez agir assim... - Aquelas palavras eram muito mais a busca da verdade, da dúvida no seu coração, do que entender o porquê da mãe ter atacado.

- Se fosse assim, porque você não fugiu? Ou me atacou desprevenido? Toda ação é uma soma de fatores, que leva uma pessoa, ou melhor, um ser-vivo, a ser bom ou mau. Você viu muitas coisas horríveis que sua mãe fez, e mesmo assim eu posso ver que seu coração é puro, que procura uma maneira de pagar por pecados. Que nem são seus, certo? Somos nós que escolhemos a tendência que queremos seguir. Qual é a sua?

A conversa deles era simplória, mas pela alma eles trocavam muito mais do que as palavras podiam dizer.

Com olhos brilhantes, como um belo céu estrelado, o dragão sabia que tinha um difícil caminho. Provar que era mais do que sua raça mostrou por tantos anos. Talvez nunca conseguisse, mas queria tentar.

- Gostaria de conhecer outro modo de viver, além desse que foi apresentado a você? – O herói tocou a cabeça do novo amigo.

Não houve necessidade de resposta, um enorme sorriso infantil apareceu naquele rosto duro de escamas negras.

A última chuva daquele dia desceu, era uma chuva limpa, que lavava a dor e o sangue.

Por semanas os amigos, druida e dragão, ajudaram no que foi possível. O Druida ensinou como usar o cadáver da dragoa, suas escamas e ossos valiam um bom dinheiro, sua carne era uma rica fonte de alimento. Ele só ficou com o coração dela.

O jovem dragão, após vencer a desconfiança, ajudou com a força da sua raça, além ter conhecimentos que perdiam apenas para o druida, ensinou muito àquelas pessoas.

O bardo finalmente tinha sua história única, para ser contada em todas as tarvenas ou na frente de reis. Entretanto, ele sabia que muito estava por vir e queria ser ele a contar toda aquela saga.

Ele chamou a introdução da sua história de “o retorno”, isso porque o herói voltou para dar esperança a todos. Mas o ele ainda não percebia que aquilo era um renascimento. Que o próprio conceito de herói renasceu tanto com um herói do passado, quanto com um improvável que surgia.
Assim como ele, poucos percebem que ao levante de um herói, outros, inspirados por esse, levantam e começam a lutar, seguindo seus passos, tentando alcançar aquelas costas que estão muito a frente.

Podem ser humanos, elfos ou dragões.

Lutando por algo maior do que eles mesmos.