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O terror de qualquer coadjuvante #haloweenroleplayer

Olá roleplayers, tirem as crianças e os jogadores de Ragnarok da sala porque estamos no Haloween – o dia das bruxas, e para comemorar no m...

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Olá roleplayers, tirem as crianças e os jogadores de Ragnarok da sala porque estamos no Haloween – o dia das bruxas, e para comemorar no melhor estilo rpgista convidei alguns autores para escreverem seus contos aqui no RPG Vale. O primeiro de hoje é o @felippelmartins, editor de games do site “Com Limão” e dono do blog egoismodocervejeiro.blogspot.com. Agora vamos ao que interessa.

Segunda-feira, 24 de Julho.

O frio percorreu sua espinha com um arrepio típico de um pesadelo. O assovio do vento informava o que ele já sabia. Aquela noite seria a grande noite. A rua estava vazia. Jornais voavam pelas calçadas mostrando as manchetes de um dia esquecido. No céu, escondida atrás das nuvens, a lua observava a cidade condenada.

A espingarda calibre 12 de cano cerrado brilhou em suas mãos refletindo a luz fraca que vinha dos postes. O vento parou repentinamente. Silêncio. Andou alguns metros, ouvindo apenas o som de seus passos, o barulho do piscar intermitente das lâmpadas e o tilintar da engenhosidade belicosa em suas mãos.

Parou em frente à igreja abandonada. A grande porta de madeira jazia fechada. Manchas escuras marcavam a parte inferior. Empurrou a porta que imediatamente rangeu, dando acesso a parte interna da igreja.

O local cheirava morte. Partículas de densa poeira eram visíveis através dos feixes da luz noturna proveniente dos grandes vitrais. Tony caminhou em passos lentos em direção ao altar. Sob suas botas, o chão de madeira rangia. Sabia quem procurava. Esperava com todas as suas forças que ela estivesse bem. Engatilhou a espingarda.

Repentinamente, quebrando o silêncio da igreja, um choro feminino ecoou pelo local.

Sentada num dos bancos da segunda fileira, uma mulher aos prantos se prostrava abaixada e o rosto coberto pelas mãos.

“Você está bem?” - disse Tony se aproximando.

“Ficarei agora.”

Tirando as mãos do rosto e virando-se a Tony, a mulher mostrou sua verdadeira e horrenda natureza. Abriu a boca e dentes pontiagudos do tamanho das presas de algum animal saíram de sua arcada. Sua mandíbula se deformou grotescamente para se adequar ao tamanho daquelas presas. Seus olhos eram brancos, grandes globos leitosos. Pústulas amarelas estouravam em sua face. Suas mãos continham unhas gigantes, perfazendo garras. Suas orelhas ficaram pontudas. Sua espinha se moldou em um arco e os nós de cada osso da coluna aumentaram se mostrando em relevo sob a pele. Soltou um som parecido com um urro.

Tony ergueu a arma. Apontou para a cabeça da criatura:

“Mande lembranças para o seu cirurgião plástico.”

E apertou o gatilho.

Pedaços suculentos da cabeça voaram por todos os lados em câmera lenta. Miolos se espalharam pela parede e mancharam o altar. Tony virou-se. Atrás dele mais criaturas se aproximavam saídas das sombras da igreja.

Tirou de seu cinto um revolver. Disparou dois tiros certeiros nas rótulas de ambos os demônios com uma perícia incomum. Assim que caíram no chão gritando de dor e com a falta de sustentação das pernas, engatilhou novamente a espingarda apertando imediatamente o gatilho. Estourou novamente a cabeça de um e abriu um buraco do tamanho de uma laranja no peito do outro.

Sentiu uma presença às suas costas, mas não conseguiu reagir com rapidez. A criatura o segurou por trás, prendendo seus braços em um abraço mortal, enquanto mais destes seres horrendos rastejavam como aranhas pelos afrescos do teto sagrado. Sua espingarda caiu. Tony começou a correr de costas, levando a criatura que o segurava em direção à parede. Viu uma haste presa entre dois pilares perfazendo noventa graus com a parede. Com agilidade microscópica Tony apertou a criatura contra a parede, que teve a cabeça empalada pela haste. Por milímetros a cabeça de Tony escapou de ter o mesmo triste destino.

As criaturas que vinham pelo teto, caíram à sua frente bloqueando o acesso à arma que havia se arrastado para debaixo de um dos bancos. Tony tirou de um coldre especial em suas costas um machete. Esquivou das garras do primeiro monstro com uma finta, completando o passo com o golpe de machete, arrancando o braço da criatura. O membro fez um arco no ar tingindo os bancos vermelho. Seguiu em frente andando, soltou mais um golpe de machete e a cabeça de outro demônio rolou pelo chão. Nem um pingo de suor caía de sua testa.

Quando um terceiro atacou-o pelo flanco esquerdo, segurando o machete com mão direita, puxou de seu cinto com a mão livre uma faca de pesca e cravou-a no pescoço do infeliz. Com um grande arquejo, o monstro caiu no chão levando a mão ao ferimento e silenciou-se.

Por fim, a última criatura correu em sua direção, mas tombou instantaneamente em um gorgolejo quando a machete arremessada por Tony trespassou em cheio seu pescoço.

Quando estava para entrar na sala atrás do altar, a criatura que estava sem um braço se arrastou e agarrou seu tornozelo. Livrou-se com um chute e esmagou sua cabeça com sua bota. O som do crânio se espatifando era equivalente ao quebrar de um ovo. Miolos estavam espalhados por todo o chão.

Observou a igreja e os corpos das criaturas. Limpou a poeira de sua roupa, acendeu um cigarro e entrou no pequeno vestíbulo. Amarrada a uma cadeira e amordaçada, lá estava ela.

Tony tirou a mordaça de sua boca. Ela disse:

“Estava te esperando”

“Desculpe a demora. Transito.” – respondeu erguendo a sobrancelha e sorrindo enquanto tragava o cigarro e soltava fumaça.

Vestindo uma camisola de seda branca, a linda atriz italiana Ana Falchi o beijou.

De repente, em um piscar de olhos, estava em um quarto. A cama era grande e a mulher estava ajoelhada em seu centro, olhando para Tony. Começou, lentamente a tirar a camisola...

Foi neste momento que o rádio relógio começou a tocar Thriller. 

Tony abriu os olhos. Os raios de sol entravam pela janela de seu quarto anunciando a segunda-feira. Tony nunca odiou tanto Michael Jackson como naquela manhã. 

“Morpheus... Meio-minuto a mais... meio-minuto!” – pensou numa sonolenta súplica.

Era, enfim, hora de trabalhar.

***

 Saiu de sua casa atrasado, lembrando de seu épico sonho e sem tempo para tomar café nem ler o jornal matinal. Montou em sua moto, uma Shadow preta e sua paixão não-oficial.

Olhou para a casa ao lado da sua e percebeu que seu vizinho ainda não saíra de casa. Todos os dias o velho Sr. Mauro saía algumas horas antes de Tony. Não achou a situação digna de muito raciocínio e dirigiu-se até o trabalho fazendo a Shadow roncar.

***

“... Então podemos concluir que é quase impossível saber com precisão cirúrgica, o que de fato foi contribuição de Pitágoras para o contexto da matemática. É inegável que devemos a ele, e aos pitagóricos, seus seguidores e aprendizes, muito do que hoje vemos como a massa crítica da matemática, porém enumerar exatamente o que devemos a ele ou o que devemos aos seus sucessores torna-se uma missão nula, devido ao grande fato de sua própria vida estar envolta em uma névoa um tanto quanto... misteriosa...” – falava Tony de cima do palanque para o anfiteatro lotado de estudantes.

Ao fundo alguém levantou a mão.

“E quanto aos rumores de alguns autores que afirmam que Pitágoras faria parte de uma seita que realizava sacrifícios humanos?” – perguntou o aluno.

Todo o grande salão olhou para Tony com ar interessado. Alguns alunos seguraram a risada.

“Ora meu caro. Creio que você esteja lendo muito Dan Brown...” – soltou Tony com um sorriso.

Todo o anfiteatro riu fazendo o aluno ficar vermelho.

“Existe sim, uma vertente de pensamento que afirma categoricamente que o matemático e seus seguidores faziam parte de uma seita. Esses pesquisadores acreditam que a seita pitagórica, como a denominavam, utilizava os números como uma forma de comunicação com seres misteriosos...” – replicou o aluno com ar indignado.

“A real origem destes ‘seres’ muda de acordo com o autor” – interrompeu Tony mostrando que sabia do assunto – “mas eu possuo minha própria teoria acreditando que na verdade, tais seres foram os antepassados de Clovis Bornay...”

Novamente o anfiteatro irrompeu em risadas.

“É claro que tudo isso não passa de baboseira sensacionalista. Pitágoras foi um proeminente matemático muito acima de seu tempo. É normal que as pessoas de sua época não entendessem seus métodos e deixassem para posterioridade relatos deturpados do que observavam. Aí qualquer fã hardcore de filmes de terror simplesmente sai escrevendo, e o pior, publicando, que o pobre coitado conversava com homenzinhos verdes, ou o que seja através do seu ábaco...”

“Então o senhor acredita que na verdade este tipo de seita não existe? Que a pesquisa dessas pessoas é besteira?” – retrucou o aluno claramente irritado.

“Não, não. Veja bem. Seitas, cultos e outras reuniões pagãs foram reais por toda história do homem. Mas afirmar que Pitágoras utilizava de meios profanos como sacrifício humano e matemática para poder se comunicar com entidades supranaturais, é um pouco demais para nossa palestra de História da Matemática, não acha?” – a voz de Tony era apaziguadora.

“Para mim...” – disse o aluno de forma claramente afetada e escandalosa – “... o senhor é exatamente igual ao povo contemporâneo à Pitágoras. Vê justamente o que o limitado conceito de ‘realidade’ de sua época lhe permite.” – e se retirou abruptamente do anfiteatro.

Todos os alunos se entreolharam perplexos.

“Uau” – soltou Tony relaxado – “Alguém precisa urgente de um abraço...”.

E todo o anfiteatro explodiu em gargalhadas.  

“Não deixem o surreal cegar o que está a sua frente pessoal... Mais alguma pergunta?” – concluiu Tony.

***

A sala de Tony na universidade era diferente dos outros professores. Era digna de um louco. Pôsteres de filmes antigos na parede ao lado de um grande quadro do Homem Vitruviano de Leonardo Da Vinci. Uma lousa continha fórmulas de diversos pensamentos momentâneos e livros e papéis jogados para todos os lados. Em cima da mesa, uma estatueta de não mais de vinte centímetros do super-héroi Batman se atracando com o monstro alienígena Predador em detalhes minuciosos.

Sentado em sua mesa, começou a pensar sobre o aluno. Não se lembrava de tê-lo visto em suas aulas. Raios; não se lembrava de vê-lo nem na universidade! Porque ficara tão irritado com a réplica ao assunto, Tony não imaginava.

Seus pensamentos foram interrompidos pela recepcionista entrando na sala.

“Boa tarde Professor, você tem um pacote.” – disse.

“Hum... quem mandou?” – perguntou Tony intrigado.

“Não sei.” – respondeu à recepcionista entregando o pequeno pacote embrulhado com jornal e revestido de fita adesiva. Possuía uma etiqueta do correio com o destinatário - ele mesmo - porém sem remetente.

Assim que entregou o pacote, a recepcionista, uma bela morena com curvas pronunciadas e um belo par de seios soltou um grande espirro.

“Desculpe – Disse desconfortável.

“Acho melhor tomar uma vacina pra isso; não? Onde você prefere? No braço ou... lá atrás...?” – disse Tony levantando a sobrancelha direita “a lá” Bruce Campbell ainda com o pacote na mão.

“Hum... claro. Acho que o hospital em que a sua namorada trabalha, as injeções são menos dolorosas, certo? Acredito que ela mesma saiba aplicar...” – respondeu a bela morena com um sorriso sarcástico.

“Touché, minha querida... touché...” – disse Tony meio sem graça, mas apreciando a sagacidade da morena.

Realmente, não queria nem pensar em Fabiana brava.

***

A tarde estava dando lugar à noite quando Tony retornou a sua casa. Reparou que o carro do Sr. Mauro ainda estava lá e que o jornal ainda não havia sido recolhido.  O velho deveria estar doente. Deu de ombros e decidiu começar uma sessão de cinema no seu recanto cinematográfico com uma hora e cinqüenta minutos de canibalismo italiano.

O filme foi interrompido com o toque do telefone.

“Alô?”

Silêncio.

“Alô? Quem é?”

Silêncio.

“Carlos, se for um de seus trotes eu...” – disse Tony em tom de brincadeira.

Repentinamente, pelo telefone, uma música começa a tocar. Musica clássica. Não era estranha, porém o conhecimento musical de Tony não abrangia o refinado mundo da música clássica.

A linha caiu.

“Desocupados.” – pensou colocando o telefone de volta no gancho.

Lembrou-se do pacote que havia recebido. De dentro de sua mochila retirou o pacote embrulhado em jornal. Era um livro. Na capa de couro muito antiga, em letras artesanais, estava escrito:

Al Azif

Folheou o pequeno livro e percebeu que era inteiramente manuscrito. Além disso, estava escrito em um inglês gramaticalmente diferente e cheirava a mofo. Passou os olhos pelos escritos. O autor era alguém chamado Abdul Al-Hazred. Tradução inglesa de John Dee em 1586. Não lhe era estranho. Começou a ler o estranho livro em inglês.

“O testemunho do Árabe Louco

Este é o testemunho de tudo que tenho visto, e tudo que tenho aprendido nos anos em que estive de posse dos Três Selos de MASSHU. Tenho visto mil e uma luas e seguramente é o bastante para toda uma vida, entretanto é dito que o Profeta viveu muito mais (...).

O peso de minha alma decidirá meu local do descanso final. Antes disto, preciso colocar aqui tudo que posso acerca dos horrores que esperam na porta de cada homem, pois isto é a arcana antiga que foi escrita há muito tempo, mas que foi esquecida exceto por alguns homens, os adoradores dos antigos (que seus nomes sejam apagados!).

E se eu não conseguir acabar essa tarefa, pegue o que está aqui e descubra o resto, pois o tempo é curto e a humanidade não entende o mal que a espera, de cada lado, de cada portão de cada barreira quebrada, de cada acólito sem mente nos altares da loucura.

Pois este livro é o Livro dos Mortos, o Livro da Terra Negra que eu escrevi ao risco de minha vida exatamente como recebi, nas planícies de IGIGI, dos cruéis espíritos celestiais(...).“

Tony parou de ler. Não acreditou que aquilo que estava em suas mãos fosse o que imaginava. “Livro dos Mortos”, “Al Azif”, “antigos”.

Épico. Quem quer que tenha lhe enviado o livro, conhecia seu gosto pelo bizarro...

Resolveu deixar por hora as questões. Colocou o livro de volta em sua mochila e voltou ao seu lazer. No dias seguinte iria descobrir quem lhe havia mandado o livro. Na certa, Carlos ou a própria Fabiana.

Ao fim do filme, desligou a televisão e foi para o quarto. Deitou a cabeça no travesseiro e lentamente caiu no sono. Em seu sonho lá estava Fabiana e Ana Falchi, juntas em uma cama usando ambas, camisolas brancas de seda.

“Temos uma surpresa para você querido...” – disse Fabiana.

E por uma entrada de cortinas que antes não estava lá, mas ora, era um sonho e nos sonhos as entradas são criadas como desenhos em um papel em branco, a linda morena, recepcionista da universidade entrou e pulou na cama sorrindo junto aos três.

Tony, com um charuto na boca e uma espingarda calibre 12 nas mãos soltou:

“Give me some sugar baby”.   

Terça-Feira, 25 de Julho, 8:50 hs.

Naquela manhã de Terça-Feira, Thriller não tocou. Tony abriu os olhos e o sol já estava bem acima do normal da hora de acordar.

O rádio relógio estava desligado e nada funcionava em sua casa. A TV não ligava e nem sua geladeira estava acesa.

Tomou um banho gelado, o que serviu para desperta-lo ainda mais. Colocou sua roupa apressadamente e saiu de casa, rezando para que os alunos não tivessem escapado.

Saindo de sua casa notou duas coisas. A primeira é que em plena manhã de terça feira não havia uma alma viva nas ruas. Sem carros, sem pedestres, sem nada. O silêncio era quase assustador. Apesar de seu bairro ser afastado do centro, o movimento na sua rua de manhã era intenso. Mas não naquela manhã. O ar estava estranho. Rançoso. Pesado. Quente. Os pássaros não cantavam. Se Tony não ouvisse seus passos, juraria que estar surdo. O silencio total do ambiente era assustador.

Notou também que novamente o Sr. Mauro não havia saído. Será que o velho estava bem? Nunca ficara mais de uma tarde sem vê-lo ou sua esposa cuidando das orquídeas do jardim. O Jornal estava lá fora ainda e Tony era incumbido de tirar o jornal quando ele não estivesse em casa. Coisa de vizinho. Mas outra coisa deixou Tony intrigado. O jornal de terça não fora entregue, apenas o de segunda. Apesar de atrasado, Tony resolveu checar como estava o vizinho. Pensou naquelas noticias onde os idosos morriam e só encontravam os corpos dias ou até mesmo semanas depois, quando a decomposição já estava avançada e o mau cheiro se espalhava.

O grande portão frontal estava trancado. Resolveu pular o portão.  Pensou que o vizinho poderia ter viajado, mas o carro ainda estava lá e se estivesse fora mesmo, esquecera de entregar a chave do portão a Tony como de costume nestas ocasiões. Chegando à frente da casa, andou alguns metros pelo jardim extremamente bem cuidado com orquídeas, margaridas e rosas que Dona Lídia – a esposa – cuidava tão bem e abaixou-se para pegar o jornal em frente á porta de entrada. Neste momento, um vão abriu-se e Tony pode ver dentro da casa. A porta estava aberta. Estranho.

Tony entrou na casa com o jornal na mão, colocou-o em cima da mesa decorativa perto da porta.

A sala estava impecável. Tentou acender a luz, mas não havia energia, como em sua casa. Quase escorregou em uma estranha poça no chão da sala. Colocou a mão e viu que era um líquido viscoso negro-escarlate. Poderia aquilo ser óleo de automóvel? Cheiro de óleo aquilo certamente não tinha.

Sr. Mauro era uma pessoa organizadíssima, sua mobília era cara, sua casa era decorada com móveis de madeira fina, tapetes raros e toda quinquilharia que um ano do salário de Tony não poderia pagar.

O velho era casado, sem filhos e tinha uma estranha aversão à felicidade alheia. Sempre mal humorado apenas falava “bom dia”, “boa noite” ou que quer que pareça um cumprimento quando precisava que Tony pegasse o seu maldito jornal.

Não havia ninguém na sala de estar.

“Seu Mauro! O senhor está aqui?” – chamou Tony.

Não houve resposta. Um cheiro doce penetrou em suas narinas, algo que lembrasse nozes. Adentrou mais para a escuridão da casa, passando para a sala de jantar. O cheiro se pronunciou mais forte, agora acentuando um aroma mais azedo junto ao adocicado, provocando náuseas em Tony. Levou a mão ao nariz para tentar barrar o cheiro.

Na sala de jantar viu a mesa posta. Dois pratos faziam conjunto com uma vela pela metade e uma rosa morta dentro de um pequeno vaso. Nos pratos havia uma mistura de comida e fungos, formando uma coloração ao mesmo tempo nojenta e belíssima em contraste com o fino prato de louça e anunciando que aquela refeição havia sido posta à mesa já a algum tempo. O cheiro vinha dos pratos, mas ainda deixava um rastro até a cozinha. 

Cautelosamente entrando na cozinha, Tony sentiu seu estômago revirar. A intensidade do cheiro era insuportável ali. Em cima do fogão havia uma panela grande e cilíndrica de inox e dentro dela, centenas de vermes se alimentavam e se mexiam com aquilo que um dia já foi algo comestível. Em cima da mesa da cozinha, várias facas e cutelos e metade do cachorro da família (um mini poodle) outrora branco e agora totalmente escarlate com um cutelo cravado em sua metade ceifada. Em várias ocasiões pensou em degolar aquela criatura irritante - sempre preferira os gatos - e finalmente estava olhando para o produto de sua imaginação concretizado. Não gostou nada do que viu. Olhando horrorizado para a mesa ensangüentada cheia de tripas e para a metade do cachorro, Tony voltou os olhos para a panela lembrando também dos pratos na sala de jantar e imaginou com noventa por cento de certeza qual era a fonte daquela bizarra refeição.  Não agüentou. O refluxo de vomito veio como uma tempestade interna. Um ano sem vomitar e aquela ocasião estragou tudo. Limpou o vomito da boca e mentalmente revisou a situação.

Naquele momento sentiu sua língua secar e percebeu sua adrenalina subir a mil. Seu cérebro calculava as reações que devia tomar em situações plausíveis. Aquilo estava longe de ser plausível. Algo estava terrivelmente errado naquela casa.

Sua primeira reação foi sair daquele cenário horrível e chamar alguém, a polícia, os bombeiros, a porra da sociedade de proteção dos animais.

“Qualquer coisa com sirenes e luzes.” – pensou.

Correu até a porta da cozinha, passou pela sala de jantar novamente, sem olhar para os pratos e levou um susto ao vislumbrar a silhueta do Sr. Mauro em frente à porta que dava para fora na sala. Não conseguia enxergar seus detalhes, a claridade de fora, em contraste com a penumbra interna não deixava.

“Seu Mauro? O Sr. está bem?” – perguntou sabendo que não teria uma resposta fácil.

Conforme foi caminhando lentamente ao encontro do Sr. Mauro sua face foi ficando mais nítida. E aquilo não era nada o que estava esperando.

O rosto do velho estava irreconhecível. Só soube que era seu vizinho devido ao seu inconfundível colete de pescador. Sua pele estava cinza-esverdeada, com um aspecto escamoso. Não conseguia ver detalhes, mas jurava que havia calombos em sua face, pulsando como se algo ou alguma coisa estivesse se mexendo lá dentro. Sua boca estava coberta de sangue e algo dizia a Tony que aquele sangue não era do irritante finado poodle – coisa que por si só já seria extremamente bizarra.

“Seu Mauro? A Dona Lídia está aqui?” – perguntou gaguejando e se surpreendendo em não surtar momentaneamente pela imagem.

“Líiiiiiiijjaaaaaaaaaaa.....”- soltou Sr. Mauro olhando por cima dos ombros de Tony.

“Acho que já to indo embora seu Mauro, seu jornal está em cima da mesa e...”.

Não conseguiu terminar a frase. Não porque o Sr. Mauro tentou atacá-lo. Muito pelo contrário, o velho ficou imóvel, apenas se permitindo levar algo à boca que parecia uma coxinha de frango, se coxinhas de frangos tivessem dedos e esses dedos usassem anéis.

Seu vizinho estava comendo os dedos de uma mão recém decepada e cuspindo os anéis, junto com algumas lascas de dente, após tentar mordê-los pensando que pertenciam à parte suculenta dos dedos.

“Eu vou gastar meses em terapia...” – pensou Tony, dado o absurdo da situação.

Sentiu alguém à suas costas.

Se o que estava vivendo naquele momento fosse um filme, estaria pulando na cadeira de satisfação e divertimento. Mas ele não estava se divertindo.

A sempre dócil e simpática Dona Lídia estava parada atrás de Tony, com o toco da mão esquerda enfaixada, um avental ensangüentado digno do melhor açougueiro da cidade e segurando um cutelo na mão direita. Aquele mesmo cutelo que estava cravado na metade do pobre poodle. Seu rosto possuía o mesmo aspecto do velho, porém observou menos calombos em sua face.

“Você foi um mau menino. Não devia estar aqui.” – disse Dona Lídia para Tony de forma tão dócil que parecia estar dizendo o seu habitual “bom dia querido”.

“Mas que merda está acontecendo aqui?” – soltou Tony sem tirar os olhos do cutelo na mão direita de Dona Lídia e do Sr. Mauro, ainda mastigando pedaços da mão decepada.

“Olhe seu linguajar em minha casa!” – e falando isso, a dócil Dona Lídia atirou com extrema destreza o cutelo, que girou no ar em direção à cabeça de Tony.

***

Tudo o que aconteceu naquele instante foi muito rápido e mesmo que por um milagre Tony tivesse planejado em fazer, não resultaria no que se sucedeu.

Ao perceber aquela doce velhinha levantar o cutelo para arremessá-lo, Tony não fez nada. Simplesmente deu um passo para trás, por puro susto, escorregando naquilo que alguns minutos atrás pensara ser óleo de automóvel. Caiu e bateu a cabeça no chão, sentindo uma dor dos infernos. Dor esta não tão grande como a que o Sr. Mauro sentiu quando o cutelo que era direcionado a Tony, passou pelo alvo que não estava mais lá e acertou em cheio a cabeça do velho, que caiu no chão aparentemente como se levasse um balaço na cabeça.

“Querido!” – gritou Dona Lídia ao ver seu marido estatelado no chão com o cutelo cravado dez centímetros na testa.

“Ah, mas que garoto travesso!” - dirigindo-se agora a Tony que estava no chão.

Tony, ainda no chão, sentiu as camurças geriátricas da velha bem em suas costelas. Todo o ar de seus pulmões pareceu desaparecer quando sentiu algo que nada se parecia com um chute de uma senhora de sessenta e poucos anos.  Na verdade era um chute muito forte para uma mulher, ou mesmo para um homem.

Estava sem ar e parte dos sentidos. Tudo à sua volta girou com aquele chute. Imagens desfocadas mostraram Dona Lídia retirando o cutelo da testa do marido, limpando o sangue negro – exatamente igual ao que Tony havia escorregado – do utensílio em seu avental e dirigindo-se a Tony. Agachou-se ao seu lado e disse com a voz de alguém, alguma coisa, mas que com certeza, não era de Dona Lídia.

“Não vai doer.” – sorriu.

  Tony sentiu o hálito podre e quente ao levantar a cabeça e olhar nos olhos daquilo que não era mais Dona Lídia.

“O que está acontecendo?” – perguntou com um olhar de um coadjuvante de filme de horror que estava prestes a morrer.

“Isso meu querido, é o fim.” – disse.

Tony fechou os olhos. Era então aquela sua hora. Nada mais irônico ele morrer numa situação digna de um filme de horror. Perguntou-se sobre tudo que poderia pensar na hora da morte, mas não veio nada em sua cabeça, apenas que não podia morrer agora. Não podia! Precisava saber o que estava acontecendo. E aquilo não era a merda de um filme e, mesmo que fosse; ele não era a merda de um coadjuvante. Seus sentidos começaram a retornar; o ar enchendo os pulmões apesar do peito, que doía muito. Pegou disfarçadamente a chave da Shadow em seu bolso.

“Diga suas últimas palavras.” – Falou finalmente levantando o cutelo.

Tony soltou um murmúrio inaudível.

A velha aproximou o ouvido da boca de Tony, se deleitando com seu sofrimento.

“Fale mais alto, verme.”

Pegando a chave da Shadow entre seus dedos, olhando bem nos olhos da velha e dando um sorriso irônico, soltou:

“Posso comer seu cú?”

E com isso, num movimento rápido e gritando como um louco cravou a longa parte de metal da chave da motocicleta no pescoço daquilo que parecia ser Dona Lídia, fazendo sangue negro jorrar em seu rosto e em sua roupa.

A velha soltou o cutelo com um arquejo e levou sua mão direita ao ferimento. Sangue negro jorrou e Tony teve certeza que havia atingido algo vital. Tony pegou o cutelo e cravou na perna de Dona Lídia fazendo a velha soltar mais um urro de dor, dessa vez parecendo um animal e mostrando aquela voz com que falou com ele da primeira vez. Uma voz não de mulher, mas de outra coisa.

Levantou e saiu cambaleante para fora, fazendo questão de pisar no peito do Sr. Mauro na saída. O velho não reagiu. A dor era tanta que Tony achava que tinha quebrado uma costela.

Olhou ao lado na garagem e viu o carro do Sr. Mauro. Um modelo Astra prata. Não pensou duas vezes. Entrou no carro. Por um milagre a chave estava na ignição. Em um susto, Dona Lídia surgiu na frente do carro, como uma louca, gritando com seu pescoço ensangüentado e sua perna ainda com o cutelo fincado. Pulou no capô do carro e deu um murro no pára-brisa. O vidro reforçado rachou.

“Não vai doer. Vadia.” – pensou Tony. Sem pestanejar girou a chave na ignição, colocou na primeira marcha e derrubando Dona Lídia no chão passou com o carro por cima da velha, esmagando sua cabeça, passando direto pelo portão, quebrando uma lanterna, derrubando sua Shadow que estava na frente, arrebentando lixeiras e tudo que estava na frente enquanto saía dos perímetros da casa, para as ruas da cidade.

Conforme foi adentrando ao centro da cidade, o caos foi se mostrando. Alguns carros batidos, fogo em algumas casas, sirenes, mas nenhuma pessoa. Seus pensamentos o levaram para Fabiana. Deu a volta e dirigiu-se para o endereço de trabalho de sua namorada. Queria saber se ela estava bem e quem sabe, descobrirem juntos, que porra estava acontecendo.

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