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Canções da Meia-Noite#23 O Que os bardos não cantam

Chegando as férias do meio de ano ,um rápido descanso para muitos e uma oportunidade para conhecer as histórias dos bardos que deixam por a...


Chegando as férias do meio de ano ,um rápido descanso para muitos e uma oportunidade para conhecer as histórias dos bardos que deixam por aqui ,algumas de suas histórias.Hoje temos o retorno de Igor André (@OrdemnoCaos) ,que mostra que o lado mais obscuro da mente humana e como os heróis sofrem ao se deparar com tamanha insanidade.

O que os bardos não cantam

Tortura. Todas as pessoas do mundo conhecem esta palavra e a utilizam em seus dias. A verdade, no entanto, é que somente aqueles que foram vítimas sabem, no corpo e no espírito, seu real significado.

Poucos teriam visto o sorriso irônico que nascera nos lábios de Dimitri um instante antes da lâmina da foice encontrar o seu flanco macio, rasgando sua carne. O sangue jorrou farto. O joelho dobrou pesado. Encontrou o chão duro numa queda sem glória. Viu seus companheiros inertes e não pode deixar de pensar em como aquilo havia sido estúpido. É verdade que não tinha grandes planos para a vida, mas não poderia imaginar que acabaria assim. Sorrir era sua única alternativa porque sabia que dali não teria escapatória. Um “merda” foi seu último suspiro. 

A pesada porta de aço se abriu com apenas um pouco de força. As chamas débeis de uma tocha iluminaram o aposento que era muito mais um cubículo. Bardur, que já chamara a si mesmo de Jerônimo em dias mais bem-humorados, abriu os olhos como se emergisse de um afogamento que durara três vidas de anões.

Era capaz de enxergar na escuridão total. Para ele, a chama tênue daquela tocha iluminava aquela sala como um dia de verão. Mesmo assim não foi capaz de discernir o rosto sob o manto vinho. Foi arrastado da pedra fria que fazia as vezes de cama e tentou forçar a mente para que seu corpo reagisse. Nada aconteceu. Talvez seu espírito já estivesse morto.

Tentou se debater e gritar quando viu o bisturi indo em direção a algum lugar de seu tronco atarracado. Sentiu no corpo espasmos de luta e resistência. Seus gritos seriam capazes de esmagar tímpanos. Não poderia saber que tudo que o homem de manto ouvia eram murmúrios enfraquecidos. Tudo que via eram olhos de desespero. Nenhuma luta. Nenhum grito. O anão, que tinha muito mais talento com um machado do que com a bigorna, estava completamente a mercê daquele sujeito envolto em panos.

Laussian, no entanto, podia apostar que o homem de manto vinho e o mago de talento duvidoso com quem lutaram anteriormente eram a mesma pessoa.

Manteve a mente intacta ainda que em detrimento ao corpo fracassado desde a hora em que fora arrastado do cubículo onde ouvia o que era a lamúria constante e desconexa de Bardur, a ira de Dimitri e as preces de Thalles. Estava em outra sala agora. Discerniu com exatidão o tilintar de metais leves esbarrando e o assovio distraído do homem de capuz que, e ele não tinha dúvidas, era o mago. O cheiro do sangue de muitas épocas permeava o local. A luz tremulante da tocha era um convite doce à perda da consciência. Duas baratas copulavam no teto. Uma voou. O elfo insistia na luta contra a perda dos sentidos fixando a atenção no que podia. Quando sentiu o correr leve e preciso da lâmina e o sangue escorrendo pelas costelas, gritou. No segundo corte, na altura do externo, desistiu. Na escuridão não havia mais dor.

Thalles, o jovem clérigo de Khalmyr, não tinha a mesma sorte. Ao contrário do companheiro élfico, o sacerdote não cedia ao alívio da inconsciência durante os não mais contáveis dias de cativeiro.

Sempre a mesma rotina. O homem de manto vinho, que Laussian balbuciava ser o mago durante seus delírios de dor aguda, surgia todos os dias estuprando a escuridão do cubículo onde os mantinha com a sua tocha, carregando consigo um deles. Era um rito metódico. No início, desesperador. A rotina, porém, fez bem o seu papel de analgésico. Todos já haviam ido rumo ao desconhecido mundo de dor oferecido pelo mago e seus instrumentos mais de uma vez. Nenhuma pergunta. Nenhuma palavra. Enquanto os outros dormiam, o clérigo lutava para não perder a fé.

E foram suas palavras de fé que garantiam uma luz àquele cenário de trevas e a salvação do espírito enfraquecido dos companheiros, enquanto a mulher de Tenebra garantia que os ferimentos abertos não os levassem a morte. Era quase uma dança profana: Tenebra lhes curava o corpo; Khalmyr, a alma.

Thalles não sabia o quanto iria agüentar aquele cenário, pois era o único que via. Estava certo de que estavam sendo utilizados como cobaias para os experimentos do mago depravado. O bisturi riscava a carne em pontos variados, abrindo as cortinas de músculos e sangue viscoso para o espetáculo pulsante dos seus órgãos vivos. O mago cortava e estudava seus interiores com o afinco de uma criança maldosa. Cantarolava enquanto anotava suas impressões em pergaminhos manchados de sangue. Informações que só uma mente doentia poderia entender. O clérigo não sabia precisar a duração de cada sessão e isso também não importava porque a dor era eterna! Muito mais que a dor da carne sendo mutilada, o pavor diante da devoção quase religiosa com que o mago estudava as nuances de seus corpos abertos fazia doer a alma. Sua fé fraquejava. Sentia seus milagres escorrendo do espírito como o sangue escorria de suas feridas.
No início o ódio, o gosto da vingança dançando na língua. A esperança de que quando saíssem dali distribuiriam aço fartos em cada um de seus captores. De alguma forma isso, talvez mais que as palavras do clérigo, os mantinham vivos. Quanto tempo havia se passado desde a desastrosa luta?

Ainda estavam vivos, mas o ódio morrera. Os desejos de vingança definhavam. O aço ficara cego. A vontade de morrer prostituia seus corações com proposta de alívio para a dor e humilhação. As barbas já lhes tomavam os rostos e os dentes já deixavam suas bocas. Dimitri já não tinha forças para fazer piadas salpicadas de humor negro. Bardur não tinha forças para praguejar. Laussian permanecia em um silêncio lúgubre. Esperavam a próxima sessão de obscenidades do mago com a mesma resignação a que esperavam as esposas de soldados que sabem que serão violentadas por seus próprios maridos em seu regresso. Descrentes de milagres. Vazios de esperança.

A serva de Tenebra entrou no cubículo espalhando seu perfume, uma mistura perturbadora de jasmim e cadáver. Espantou alguns ratos e livrou de vermes algumas feridas mal cicatrizadas. Despejou uma benção salgada, hostil e inebriante, curando os ferimentos mais profundos na medida certa poupando cicatrizes e quelóides. Era uma artista. Caminhou até Dimitri. Passos lentos. Sorriso nos lábios. Malícia e crueldade na alma.

- Gosto do seu olhar – sussurrou no ouvido do guerreiro. Voz rouca. Hálito de gelo.

- Por que não enfia no seu rabo e leva pra casa – Era Dimitri forçando um sorriso feroz, irônico e podre.

A mulher olhou incrédula, mas o olhar não era todo reprovação. – Pervertidos do caralho... – sorriu Dimitri antes do tapa, suficiente para lhe arrancar dois dentes podres.

A clériga já estava sobre o guerreiro. Joelhos apoiados nos dois lados do bloco de pedra fria. Seu quadril iniciou um movimento quase imperceptível de tão lento. Um manto leve, negro e transparente como a água de um pântano fétido cobria seu corpo. Somente o manto.

Dimitri tremia. O frio da nudez e da ânsia. Sentia seu sangue correr gelado em suas veias até quase parar de circular. Um suspiro furtivo lhe escapou ante os movimentos lascivos da mulher sobre seu quadril. O sexo enrijecido como se fosse indiferente à desgraça que se abatera sobre os companheiros e sobre ele mesmo. Era mesmo um maldito e mesmo no fim não conseguia envergonhar-se de sua índole. Pensou se, no fim das contas, aquela não era uma maneira boa de morrer.

O movimento da mulher lhe era tão interessante que o guerreiro não chegou a perceber a adaga que passeava sobre seu dorso magro, sorvendo com ternura algumas gotas de sangue. O sorriso nos lábios da mulher denotava a crueldade observada nos olhos de uma criança que tem como brincadeira predileta matar animais indefesos. O prazer que sentia naquilo era flagrante, mas ainda não o suficiente...

Súbito, a adaga cessou seu passeio. - Gosto do seu olhar. Exala ódio. E que ele seja eterno! – Trêmulo, Dimitri chegou a ver seu olho e o olho da clériga refletidos na lâmina um instante antes dela descer veloz, terna e fria.

Sophie descartou a adaga ensangüentada como uma menina descarta uma boneca sem cabeça. O globo ocular em sua mão, a órbita vazia e os urros de dor e ódio genuíno do guerreiro eram uma diversão mais interessante...

Quanto tempo desde a desastrosa luta? Haviam sido salvos por homens até então desconhecidos e se não fosse pelas cicatrizes e pelas máculas em suas almas poderiam acreditar que o cativeiro no mausoléu de Conair de Sarcarstach não havia passado de um terrível pesadelo.

Por outro lado, a sensação da areia da praia penetrando algumas feridas abertas, o ar salgado ardendo em suas peles, o Sol violando profundo íris sensíveis de escuridão e a terrível sensação de que, ainda que livres, o que aconteceu iria marcar para sempre seus futuros a ferro em brasa poderia não passar de uma ilusão. Tudo isso era maravilhoso demais diante da agonia. Isso é o que, no fim das contas, poderia ser o sonho. Um sonho tolo. O terrível sonho de uma criança pobre que espera um brinquedo que nunca ganhará. Uma última esperança. Agradável e dolorida esperança compartilhada por aqueles que já não têm mais nada, e por isso aguardam a morte nus, indefesos, em um quarto escuro.

Porque somente aqueles que foram vítimas de tortura conhecem, no corpo e no espírito, seu real significado.
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