rpgvale
1599924783602205
Loading...

Entrevista: Leonel Caldela!

Hey, kids! A maioria de vocês já deve estar familiarizado com o trabalho do escritor Leonel Caldela, certo? Ahn... não? Sério... não? En...



Hey, kids!

A maioria de vocês já deve estar familiarizado com o trabalho do escritor Leonel Caldela, certo?

Ahn... não? Sério... não? Então sai já daqui e vai ler alguma coisa, pelo amor de Odin!

Pros outros 99% de humanos, elfos e anões que já leram algo do cara, deixo aqui meu presente para vocês: uma entrevista abordando os trabalhos dele e a visão pessoal do autor sobre a literatura fantástica no Brasil e o RPG. Enjoy!



1. Primeiramente, fala pra gente sobre você, se apresenta aí pro pessoal e conta pra gente como foi seu primeiro contato com o mundo dos Role Playing Games.

Bem, eu sou o Leonel. Autor da Trilogia da Tormenta, de mais uns (deixa eu contar) sete suplementos de RPG para Tormenta e do romance O caçador de apóstolos. Também sou tradutor da Jambô (embora a minha participação nas traduções esteja diminuindo, devido à falta de tempo), co-editor da revista DragonSlayer e mais recentemente editor das linhas traduzidas da editora. Mas, de uns anos pra cá, sou principalmente escritor de literatura e RPG. :)

Meu começo com o RPG foi típico da década de 90, eu acho. Bem no início dos anos 90 (91, 92), o RPG estava começando a aparecer em vários lugares, na forma de pequenas reportagens sobre “tribos”, notinhas em revistas de HQ, etc. As lojas de HQs estavam começando a trabalhar com RPG. Assim, eu (fanático por quadrinhos desde uns 4 anos de idade) comecei a ter contato com o jogo, mesmo sem entendê-lo. Freqüentava a Planeta Proibido (uma loja de HQs que existia aqui em Porto Alegre) e via os pouquíssimos RPGs em português (GURPS, Tagmar, Dungeoneer) e um punhado de importados. Um dia, um amigo me convidou pra jogar um jogo que ele tinha aprendido com um terceiro, que eu não conhecia. Não era RPG, mas um jogo de tabuleiro parecido com Hero Quest (quem se lembra?). 

O detalhe era que o tabuleiro e as regras não vinham prontos, nós fazíamos tudo! Ficávamos longas tardes desenhando mapas, elaborando pequenos históricos e regulamentos, etc. Até hoje não sei de onde ele tirou esse conceito. Ao mesmo tempo, comprei uns livros-jogos da série Aventuras Fantásticas (hoje publicada no Brasil como Fighting Fantasy, pela Jambô), e fui descobrir que eram bem parecidos com livros-jogos portugueses que eu tinha comprado aos 9 anos, sem saber o que eram. Enfim, tudo foi se encaminhando, até que eu e esse meu amigo compramos exemplares de GURPS (aquela edição com a cabeça roxa na capa, e uma sobrecapa de plástico ou acrílico transparente). Achávamos que seria um misto dos jogos de tabuleiros que nós inventávamos e os livros-jogos. 

Quando lemos tudo aquilo, ficamos fascinados, e começamos a planejar aventuras em seguida. O curioso é que, no começo, não jogávamos, só criávamos aventuras! Se não me engano, meu primeiro personagem (um pirata de fantasia medieval) nem chegou a ser usado. Isso tudo foi em 1992.

2. Beleza, agora vamos falar um pouco de literatura. Você escreveu a trilogia “O Inimigo do Mundo”, “O Crânio e o Corvo” e “O Terceiro Deus”. Além disso, teve “O Caçador de Apóstolos” e, mais recentemente, “Deus Máquina”. Fala um pouco pra gente desse seu trabalho como escritor. Como foi que você ingressou nesse mundo?

Pequena correção: Deus máquina ainda não foi lançado. Está na fase de edição (isso me lembra que eu preciso cobrar o Trevisan...).

Bem, eu sempre quis ser escritor, desde pequeno. Durante muito tempo, achei que meu futuro estaria nas HQs (como eu falei, era fanático por quadrinhos), mas sempre adorei ler de tudo e queria escrever romances.
O problema é que não existe faculdade para ser escritor, eu não tinha idéia de como começar a carreira. Ingressei na faculdade de Artes Plásticas aos 17 anos (também tive um período em que queria ser ilustrador), mudei para Letras, acabei voltando para Artes, mas, enfim, sabia o que queria, mas não sabia como chegar nisso. Com 21 ou 22 anos, eu não estava estudando, não tinha grandes perspectivas. Outros dos meus interesses era RPG, claro. Assim, eu, minha esposa (namorada ou noiva na época) e uns amigos começamos um fanzine de RPG (o Campanhas inacabadas), com a intenção de alavancar isso para um trabalho profissional de alguma forma. Depois de algumas edições “publicadas” (em xerox, apenas 100 exemplares), decidimos ir ao Encontro Internacional de RPG, para divulgar nosso trabalho. Fomos apenas eu e a Patricia (minha esposa). Bem, eu às vezes sou muito tímido, então a Patricia acabou fazendo quase todos os contatos lá (truque sujo da minha parte).

Eu e ela tínhamos escrito um conto ambientado em Dragonlance (basicamente um fanfic com personagens próprios), e isso fazia parte do material que estávamos levando ao EIRPG, além do fanzine. A Patricia entregou esse conto para o J.M. Trevisan, então editor da revista Dragão Brasil. O pessoal da revista também se interessou pelo fanzine, e publicamos um artigo na DB tirado diretamente do Campanhas inacabadas
.
Quando voltamos a Porto Alegre, minha situação continuava basicamente a mesma. Eu estava sem trabalho — meu último emprego, como professor de inglês, acabara porque o curso fechou as portas subitamente, dando calote em todos os funcionários. Ingressei na Oficina de Criação Literária do prof. Assis Brasil. Já fazia um ano que tínhamos ido ao EIRPG quando o Trevisan me mandou um e-mail. Ele tinha demorado, mas leu o conto que eu e a Patricia deixamos com ele. Gostou do nosso trabalho, e nos convidou para escrever um conto na revista Tormenta.

Escrevemos, mais uma vez a quatro mãos, Ressurreição (revista Tormenta n° 15). O Trio Tormenta tinha a idéia de fazer uma trilogia de romances no cenário, mas nenhum deles tinha tempo. Como tinham gostado do nosso trabalho, me convidaram para escrever um romance (a Patricia nesta época começou a se focar na carreira de ilustradora e em outros projetos). Escrevi então O inimigo do mundo. Devido a problemas internos (culpa de má administração da editora), o cenário de Tormenta acabou saindo da editora que publicava-o, e o romance foi junto. Quando foi adotado pela Jambô (para quem eu já trabalhava como tradutor), o livro finalmente foi publicado. O resultado foi muito melhor do que esperávamos: não só o público de Tormenta comprou O inimigo do mundo, mas também leitores que não conheciam o cenário ou nem mesmo RPG. Isso viabilizou a trilogia. Com a trilogia feita, eu já contava com público suficiente para publicar outros títulos.

3. Em 2010, o site filosofianerd, ao falar sobre “O Caçador de Apóstolos”, disse que “Leonel Caldela é, sem sombra de dúvidas, o Bernard Cornwell brasileiro”. Olhando para trás agora, como é ver todo esse caminho que você percorreu, desde a sua infância com os livros-jogos da TSR, passando pelo anonimato, até esse reconhecimento todo?

Bom, pra começar, o Spohr exagera um pouco, na minha opinião. Eu queria ser um décimo do escritor que o Bernard Cornwell é!

Mas, respondendo, é ao mesmo tempo surpreendente e tranqüilizador. Porque é um caminho. Se há reconhecimento, é sinal que não estamos apenas “patinando”, mas progredindo para algum lugar. E também é um lembrete de que há muito mais caminho à frente. A parte difícil ainda nem começou.

4. Em 2010, eu fui um dos autores convidadospara um evento de literatura fantástica nacional, o Darkness Rising, no Rio de Janeiro. Durante o evento, diversas vezes as pessoas questionavam o mercado da literatura fantástica nacional e a receptividade do público aos títulos brasileiros. Como você vê esse mercado? É fácil para quem sonha se tornar escritor?

Fácil, na minha opinião, nunca é. Mas também não julgo que seja fácil ser médico, advogado, engenheiro ou qualquer outra profissão. Existe mais mercado para engenheiros do que para escritores, certo, mas, para quem estuda e se esforça até o fim, existem boas chances.

Acho que o mercado de literatura fantástica (e qualquer outra literatura considerada “de entretenimento”) está se solidificando agora, e só tende a melhorar. Durante muito tempo, no Brasil, livros foram reduto da intelectualidade (no bom e mau sentido da palavra) e de celebridades de outras mídias. Os novos escritores lançavam livros extremamente complexos, herméticos, que podiam até receber elogios da crítica, mas não atraíam o grande público. Agora está começando algo que o Raphael Draccon chama de “LPB”, ou literatura popular brasileira. E acho que uma das maiores vertentes dessa literatura é o fantástico.

Hoje em dia e no futuro, acho que a receptividade do público vai ter mais a ver com a acessibilidade da obra e a habilidade do escritor do que com “realismo” ou fantasia. Ainda existe resistência contra títulos nacionais, é verdade... Mas isso também está acabando. O público brasileiro, ao meu ver, parece mais interessado em obras de seu gosto do que na nacionalidade do escritor. Pegando o exemplo do cinema, Tropa de elite 2 foi um sucesso estrondoso — porque é bom, independente de ser brasileiro ou estrangeiro.

5. E agora, depois de “Deus Máquina”, você já está trabalhando em algum projeto? Algo que possa revelar para a gente?

Estou planejando um romance, mas ainda está numa fase muito inicial, e não posso revelar nada. Por enquanto, apenas que não se passa em nenhum universo que eu já tenha abordado.

Fora isso, estou trabalhando em RPG. Meu próximo título para Tormenta deve ser o Guia da Trilogia, adaptando (adivinha!) a Trilogia da Tormenta em regras. Já perdi a conta de quantas vezes me pediram uma classe de prestígio dos Cavaleiros do Corvo e as fichas dos personagens...

6. Como você vê o RPG no Brasil daqui alguns anos? Qual o melhor caminho pros fãs que querem, no futuro, trabalhar com isso?

O que eu vejo é crescimento — mas não aquela explosão absurda, que muitos imaginaram que existiria uns 15 anos atrás. Olhando as vendas de Tormenta RPG e outros, nós percebemos um crescimento gradual, mas contínuo.

O meu palpite é que, cada vez mais, o RPG vá deixar de se tornar algo conhecido apenas por poucos entusiastas, e existam mais e mais jogadores casuais. Isso já existe hoje em dia, e é uma tendência que, eu imagino, só vá aumentar. A grande maioria dos adolescentes já ouviu falar em RPG, e uma grande parte já jogou, mesmo que apenas por meia hora. Atualmente, termos como XP, níveis, etc. fazem parte do vocabulário de muitas pessoas, pois jogos eletrônicos (desde WoW até Café Mania) pegaram esses conceitos emprestados. Antigamente, se você dissesse para sua avó que jogava “um jogo em que o meu personagem cumpre tarefas para ganhar XP e subir de nível”, ela não ia entender nada. Hoje em dia, é mais fácil que ela faça uma analogia com algo que conhece.

Vejo o RPG tornando-se um jogo ou passatempo mais semelhante a outros quaisquer. Com muitos grupos jogando um pouquinho esporadicamente, sem compromisso, enquanto só alguns jogadores “hardcore” mantêm o hábito de comprar todos os suplementos e rolar campanhas longas com sessões que duram a noite toda. Acho isso positivo — em quase qualquer mercado, quem sustenta as vendas são os consumidores “normais”, não os fanáticos. Indústrias que dependem só dos maiores entusiastas (como os quadrinhos de super-heróis americanos) costumam ter dificuldades.

Para quem quer trabalhar com isso, meu melhor conselho é não tentar reinventar a roda. E não se deixar levar pela tentação de criar algo complexo, extremamente intelectual ou intrincado. Mesmo que todos os jogadores que você conhece desejem uma ambientação no Suriname do século VII, lembre-se de que você só conhece uma ínfima fração dos RPGistas do país. Crie algo divertido, não muito sisudo, que possa ser resumido em uma ou duas frases. Também é uma boa aproveitar o que já está aí. Tormenta RPG e 3D&T Alpha usam regras de licença aberta (apenas regras, não ambientação) — por que não escrever livros compatíveis? Indo pelo caminho contrário, pode-se fazer sistemas indies, como Busca Final — talvez não seja um best-seller, mas vai atingir o público-alvo, e pode dar um retorno que compense.

7. Por fim, deixe um recado pros nossos leitores!

Obrigado por lerem! E nunca esqueçam que o único jeito errado de jogar RPG é jogar sem se divertir. Grande abraço!

_______

Legal, ahn? Assim como o Trevisan, o Caldela não economizou no tamanho das respostas, o que é realmente muito legal, principalmente por ele ser um cara ocupado pra caramba. Então, mais uma vez, deixo aqui o meu agradecimento ao cara por toda a atenção e pelo tempo que ele dedicou pra gente. 

Diabos, eu sempre gosto de ver o que os autores "de nome" têm a dizer sobre a nossa literatura fantástica.

Cheers!
Entrevistas 7389979943902390834

Postar um comentário

Página inicial item

Entre pra Guilda

Mais lidos da semana

Receba nossos corvos