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Batismo de Fogo

Finalmente encaro meu desafio, o último obstáculo de meu treinamento, a prova de fé em Cabal, Senhor do Fogo e guardião da gigantesca e hos...

Finalmente encaro meu desafio, o último obstáculo de meu treinamento, a prova
de fé em Cabal, Senhor do Fogo e guardião da gigantesca e hostil montanha à minha frente.
Para alguns, o hálito quente que emana das rochas maleáveis traz apreensão.


Para mim, o efeito é diferente, trazendo-me lembranças e me inspirando a continuar.
Cresci em terras hostis, de solo infértil e guerra constante, onde a habilidade com a
espada decide quem vive e quem morre. Sou um bárbaro da tribo Sangue de Fogo, a mais
respeitada entre as herdeiras deste reino sem rei, conhecido pelo mundo como Planícies
Bárbaras.

Ao meu lado, está um garoto que nasceu em um mês de verão, quando o Sol fica
mais tempo no céu e a morada de Cabal acorda de seu sono.
– É a primeira vez que o escala, não? – pergunto a ele, enxergando em seus olhos o
meu passado. – Você consegue, não desanime!
Merotanaffas é o pior vulcão para se escalar, mas é nosso dever. Nosso povo precisa
manter o demônio aprisionado.

As rochas da montanha ficam quentes e é quase impossível segurar-se nelas. Mas
basta não desistir para que Cabal sorria para você quando chegar ao topo.
A primeira vez em que o escalei, era um pouco mais novo do que esse garoto.
– É dia de vencer Merotanaffas, o demônio aprisionado por Cabal – dissera o xamã,
na época.
Como de costume, foi no solstício de verão, dia em que nascem os Meros:
guerreiros batizados no fogo líquido que infesta as entranhas da montanha. Herdeiros do
legado de Azguliath, o primeiro entre nós, o maior que já viveu na nossa tribo.
Esse jovem, em breve, conhecerá o treinamento que o Primeiro criou, que só é dado
àqueles que escalam Merotanaffas e são escolhidos pelo xamã. O treinamento que nos
prepara, que nos transforma... Para mim, no início foi difícil, mas algo me instigou a
continuar, desafiando meus limites. Sozinho, conheci o cansaço, a dor e o ódio, mas
também entendi o que era a honra, o respeito e a coragem.
Eu não compreendia porque me mantinham isolado das outras crianças da tribo.
Não compreendia porque somente eu treinava daquele jeito. Mas, no dia em que meu irmão
saltou, compreendi. Entendi porque éramos predestinados a pular no vulcão e encarar os
olhos flamejantes de Cabal. Entendi nosso significado e a importância de nascermos duas
vezes.
Pude acompanhar o corpo, que seria de meu irmão, crescendo na barriga de sua
segunda mãe. Pode parecer estranho no começo: ter duas mães. Mas você se acostuma. Ela
quase não aguentou segurar o novo corpo dentro de sua barriga, tendo fortes dores na
véspera do solstício. Mas o dia raiou e nós começamos a escalada do gigante. E ela ficou na
tribo, com as parteiras e a primeira mãe, aguardando.
Todos os Meros da tribo nos acompanharam. Seus olhos de um tom vermelho-fogo
fitaram meu irmão, analisando-o, julgando-o. Não eram muitos, pois apenas um Mero nasce
por ano. Já meu irmão estava animado. Encontraria com Cabal quando seu corpo fosse
consumido por Merotanaffas. Este sacrifício, realizado todo ano, acalmaria o vulcão e
manteria o demônio preso. Agradecido, Cabal cumpriria sua parte no acordo e enviaria a
alma de volta ao reino dos vivos, direto para o ventre de sua segunda mãe. Então, ele
renasceria.
Quando atingimos o local do ritual, chamado de Língua do Maldito, um rochedo
plano, que permitia observar o interior do vulcão, o tom avermelhado vindo de dentro da
gigantesca cratera confundia-se com a luz do pôr-do-sol. Todos estavam ofegantes, não
pela difícil escalada e sim pelo calor intenso. Naquele dia, Merotanaffas nos contemplava
com sua fúria, rugindo ferozmente entre os jatos esporádicos de seu sangue incandescente.
Sabíamos que sua fúria era inútil, pois o grande Cabal, seu carcereiro, iria mantê-lo preso
enquanto fizéssemos nossa parte.
Os Meros acenderam grandes fogueiras e colocaram suas espadas nelas, enquanto o
xamã entoava cânticos sagrados. Após algumas horas, ele despiu meu irmão e clamou pelo
fogo. Então, os Meros ali presentes empunharam suas lâminas incandescentes e marcaram
seu corpo com runas simples. Apesar da dor insuportável que o fez ajoelhar, ele recebeu as
bênçãos de seus futuros irmãos em silêncio.
Quando se afastaram, ele levantou-se e me encarou. Tentei procurar por medo em
seu olhar, mas encontrei somente confiança e coragem. Minutos eternos se passaram em
nosso silêncio. Aguardávamos o sinal das parteiras, na nossa vila.
A trombeta de Azguliath, o primeiro Mero, finalmente tocou silenciando o grande
vulcão, soprada pela primeira mãe, como manda os rituais. Era a hora. Meu irmão sorriu
para todos e me encarou.
– Forjarei minha alma no fogo de Cabal... – disse, sem desviar o olhar. Antes que
pensasse em algo mais para dizer, correu sobre a Língua do Maldito e saltou, sumindo entre
a fumaça e jatos de lava.
Mesmo sendo preparado para o mesmo destino, mesmo sabendo que ele estaria lá
embaixo, em nossa vila, me esperando nos braços de sua segunda mãe, hesitei e temi por
nunca mais vê-lo. “Aquelas rápidas palavras haviam sido suas últimas”, pensei. Havia um
fio de medo nelas, eu tinha certeza.
Mas eu era só um bobo. Do mesmo modo como será comigo, ele estava lá embaixo
nos esperando. Seus olhos agora eram vermelhos e seu corpo havia sido substituído por um
novo. Ele estava no colo de sua segunda mãe, pequenino e frágil, quando o revi. Chorava
bastante, pois havia esperado nossa lenta descida e estava ansioso para me ver. Quando
cheguei até ele, sua segunda mãe o colocou nos meus braços e ele acalmou-se, descansando
em um sono pesado.
Aquelas não foram suas últimas palavras, mas sim as primeiras. As primeiras como
um Mero, um guardião dos Sangue de Fogo, um dos guerreiros mais destemidos das
Planícies Bárbaras.
Desde então penso em quais serão minhas primeiras palavras. Vi muitos saltarem.
Alguns não disseram nada, outros recitaram histórias antigas... Mas agora, escalando o
Merotanaffas para o meu salto, entendi que o que se diz não é importante. Vou ao encontro
de Cabal. Sorrirei para ele e mostrarei meu valor. Então sairei da barriga de minha segunda
mãe, novamente um bebê, para ser mais forte do que sou hoje e assim proteger meu povo.
Finalmente chegamos ao topo e os rituais se repetem. O xamã clama pelo fogo.
Meus irmãos desenham suas marcas a ferro quente em meu corpo. Eu não grito. A
ansiedade acelera meu coração. A trombeta do primeiro Mero demora a rugir. Tenho
vontade de saltar sem mesmo ouvi-la. O tempo passa enquanto aguardamos, ouvindo mais
de uma vez os urros do demônio aprisionado.
O som grave, enfim, se sobressai da sinfonia caótica vinda do vulcão. Sorrio para
todos, digo palavras sem sentido em meio à excitação, corro e salto gritando o nome do
senhor do fogo: Cabal. “Não era medo o que meu irmão sentiu ao dizer suas primeiras
palavras”, penso antes de tocar o fogo, ainda consciente. “Era a honra em se tornar um
Mero”.

Escrito por Leandro Reis Radrack, leia mais contos no site oficial de Grinmelken
Contos 8051572699523790165

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