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Ecos de Segredos Esquecidos - Part II

O soldado tremia agonizante como se cada palavra dita apunhalasse suas costas, mas, ao ouvir a sentença, Robarff ficou aliviado. Pensou até ...

O soldado tremia agonizante como se cada palavra dita apunhalasse suas costas, mas, ao ouvir a sentença, Robarff ficou aliviado. Pensou até mesmo em agradecer, mas continuou a encarar os pés, esperando que algum soldado o tirasse dali. Viu o sinal do soberano para que o levassem, mas os soldados do rei foram interrompidos pela voz de um convidado: o menestrel.


- Meu rei e soberano, peço uma segunda chance para meu amigo, pois tenho uma história que pode influenciar vosso veredicto.

O rei lançou seu pesado olhar para o bardo experiente que retribuiu com um sorriso convidativo. Curioso, indagou-o:

- Em que pode suas histórias de alegria e bravatas mudar minha opinião? Pensas em encantar este rei?

O bardo tirou o chapéu e a capa, calmamente, enquanto lhe respondia, sem desviar os olhos:

- O mundo não é feito somente de alegrias e atos heróicos, majestade, dentre os bardos que conheço, são poucos os que se arriscam a contar tragédias que se escondem no mundo, porém, eu conheço uma delas e estou disposto à relata-la.

Robarff tentou esconder o sorriso ao pensar na sorte que tinha quando o rei permitiu ao bardo que iniciasse a história. O menestrel advertiu:

- Ninguém deve interromper-me em momento algum, pois a história consiste de narrativas de pontos de vista diferentes e cabe à platéia juntar as peças. Não posso me desconcentrar, por isso peço este favor, majestade, posso pedir isso? Ninguém me interromperá?

Perplexo o rei assentiu enquanto se ajeitava no trono. O bardo iniciou:


Era uma cabana simples, pequenas pedras a cercavam e uma grossa camada de palha a cobria, ficava a poucos metros de um calmo lago de águas límpidas, onde, ao olhar para o oeste, reconhecia-se as montanhas do cume de prata, com a neve a acumular em seus topos e o sol a esconder às suas costas.
Na única porta, o fiel cão lavrador, estava atento aos sons que poderiam anunciar a chegada de seu senhor, a quem esperava, com semblante triste. Logo à frente, estava a pequena horta sempre viva e repleta de verde, para completar a boa caça que ele sempre trazia.
Assim, Darian, encontrava sua casa a cada retorno de caçada, feliz consigo e com os deuses, agradecia todos os dias à senhora dos campos pela dádiva de uma vida tranqüila, ao lado de sua amada esposa, após anos de batalhas.
O ranger, ou guardião na língua comum, havia passado anos de sua vida defendendo as fronteiras do reino contra os goblinóides, orcs e outras ameaças que assolavam as terras montanhosas do sul.
Conhecido e temido por sua habilidade de controlar plantas e animais, dons que diziam, haviam sido concedidos pela própria Enoa, deusa da fauna e flora.
Imaginava encontrar sua casa e sua esposa naquele dia em que a caça lhe fora abundante, mas o cão não o aguardava na porta, a pequena horta estava pisoteada e um cheiro incomum trazido pelo vento lhe invadia a alma de forma agourenta. Algo estava errado.
A porta fechada abriu-se lentamente, empurrada pelas mãos fortes de Darian, a luz penetrou o local iluminando o mínimo possível como se ela própria temesse revelar a atrocidade que, mesmo escondida nos móveis revirados, era presente.
O guardião respirou fundo e entrou, as lágrimas afloravam em sua alma e ameaçaram escapar por seus olhos. Quando nada encontrou, manteve o controle e limitou-se a escutar, ouviu então moscas, incomuns em sua morada.
Seguiu corajosamente os zumbidos para desabar sobre seus joelhos ao ver sob a mesa virada a certeza da desgraça que assolava sua mente: uma mão e somente ela, cercada por moscas famintas, atraídas pelo doce odor da morte. Ele viu sua amada e gentil esposa naquela mão, mas seu corpo ele haveria de encontrar próximo ao lago, junto ao de seu fiel amigo, deformados pelo fogo.

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