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Ecos de Segredos Esquecidos - Final

Do lado de dentro da porta, pendia o bilhete deixado para despertar sua ira. Os pássaros voaram quando um urro primordial ecoou, levan...

Do lado de dentro da porta, pendia o bilhete deixado para despertar sua ira.
Os pássaros voaram quando um urro primordial ecoou, levando calafrios e tristeza aos que escutaram.


O bardo fez uma pausa e parou entre o rei e Robarff, encarou primeiro o jovem guarda condenado, que suava constantemente e depois olhou para sua majestade, que parecia disposto a descobrir quem fizera aquilo a Darian. Prosseguiu então a narrativa:




Bater à porta e sorrir, cobrar os impostos e sair. Contar o dinheiro e entregar a seu superior. Assim era cada dia do guarda Rob, uma rotina deveras monótona, mas sem riscos. Em sua inútil existência sabia que seu dia de sorte chegaria.
Nessa manhã se aproximava do lago límpido, na porta da cabana. Um grande cachorro se levantou e começou a correr em sua direção.
O soldado desceu do cavalo, preocupado ao observar o imenso cachorro latindo em advertência.
Na tentativa de afastá-lo, Rob atirou uma pedra acertando-o no lombo, o cachorro recuou enfurecido, seu latido alterou-se, outra pedra certeira pareceu apenas irritá-lo mais, mesmo assim o guarda decidiu arremessar a terceira.


O menestrel fez outra pausa e seu semblante se tornou sério, não olhou para Robarff, mas continuou seu conto para o rei, com voz melancólica, como se o que narrasse a seguir realmente fizesse seu coração sofrer.


Janissa limpava o frango quando bateram à sua porta. Pelo horário e dia, deduziu que fosse o cobrador de impostos. Pegou o dinheiro, que estava separado, e abriu-a. Assustou-se com o pequeno homem, pálido e com suor no rosto; no braço esquerdo um ferimento vertia sangue. “Cobrança de Impostos”, ele falou com tom de voz poço amistoso.
A mulher o puxou rapidamente para dentro, perguntando o que havia acontecido enquanto embebia um pano limpo em água.
“Seu cachorro me atacou...” Ele resmungou no mesmo tom de voz, enquanto admirava a bela mulher que lhe acudia.
Janissa não percebeu o olhar malicioso do homem, mas, supondo que estava em choque pelo ferimento, segurou seu rosto com as duas mãos o instruiu a ir até o templo, pois ela não poderia fazer nada além de um curativo simples.
Lamentou que seu marido Darian não estivesse ali, seu conhecimento com ervas ajudaria aquele pobre homem.
Rob sorriu para ela maliciosamente, não havia escutado nada do que ela dissera, havia observado seus traços por todo tempo. A mulher segurava seu rosto e falava docemente e, somente uma certeza enchia sua mente: Sua sorte havia finalmente mudado, aquela linda dama lhe queria em sua cama.
A mulher virou-se para a porta e pegou a bolsa com as moedas que deixara cair no momento em que Rob tinha aparecido. Então ele a agarrou. Tão envolto em sua fantasia que não percebeu a espada curta sobre a mesa. Ela se debatia para livrar-se do guarda enquanto lhe beijava o pescoço, apenas saboreando o jeito difícil daquela que desejava.
A força nunca foi um ponto forte naquele soldado e a cabeçada que a mulher, desesperada, desferiu, pegou-o de surpresa, deixando-o tonto por tempo suficiente para que se soltasse e alcançasse a arma sobre a mesa para empunhá-la em sua defesa.
Empolgado com o joguinho, Rob também sacou sua espada e, sorrindo, caminhou em direção a mulher. Ela o atacou e o corte em seu peito o fez despertar da tola fantasia. Seu sorriso sumiu e ele revidou. O golpe de sorte decepou a mão que segurava a espada. Janissa desabou no chão, sufocada pela dor dilacerante.
Ele tomou distância e a esperou enfraquecer. Nas poucas tentativas de chegar até a porta, Janissa foi surpreendida por algo arremessando e, quando não representava mais perigo algum, ele a tomou para si, pouco antes que ela morresse, chamando por seu amado.
Rob levou seu corpo para a margem do lago, junto do cachorro que havia matado. Ateou fogo em ambos e retornou para a casa onde pegou o dinheiro e escreveu uma carta. Prendeu-a na porta e, após guardar em sua bolsa alguns objetos de valor, partiu para continuar seu trabalho.
Bater à porta e sorrir, cobrar os impostos e sair. Contar o dinheiro e entregar a seu superior, a rotina finalmente havia acabado.


O Bardo tomou fôlego e, andando em direção ao rei, começou a terceira parte de sua narrativa. Parou ao lado do governante, olhando para Robarff. Recitou finalmente, o trágico desfecho desse ato vil.


No amplo salão, situado no centro do jardim real, homens e mulheres conversavam junto a seu rei, na comemoração do solstício.
O soberano possuía um sorriso invejável naquela época e sua felicidade estendia-se para todo o reino. Nessa ocasião os nobres entretinham-se com um jovem bardo que tocava seu alaúde suavemente, o rei conversava sobre a paz, quando um homem entrou no salão.
Díanus, poderoso mago e valoroso conselheiro, aproximou-se de seu estimado rei e sussurrou os frutos de sua espionagem:
“Majestade, minhas previsões se confirmam, a rainha guarda vosso primogênito no ventre. Mas contenha-vos, pois vossa amada vem nesse momento a vosso encontro para contar-vos essa feliz notícia pessoalmente, disfarça esse sorriso e finja surpresa meu amigo.”
Mal terminara o relato, a porta dupla se abriu e o alaúde do jovem bardo cessou, para que a rainha fosse anunciada. A mesma entrou e dirigiu-se ao rei.
O fiel mago afastou-se discretamente para não ser traído pelo olhar da astuta senhora. Voltou seus olhos para além da janela, onde o senso de urgência lhe aguçou os sentidos. Viu os guardas do rei no jardim, a maioria presa por raízes que os impediam até mesmo de respirar.
Olhou para os homens à porta e contou-os rapidamente: oito cavaleiros de elite. Olhou para o rei que se levantara e anunciava a plenos pulmões:
- Eis que o dom da vida nos abençoa como o sol no auge do rigoroso inverno. Um herdeiro vive no ventre de vossa rainha, o príncipe dessas terras, meu esperado filho.
O mago percebeu a porta ameaçar romper-se, o som da pancada que quase a fez ceder, abafado pelos aplausos, gritos de vivas e bater dos escudos dos cavaleiros.
Seu feitiço de imobilizar pessoas estava pronto quando as portas estouraram, revelando ao mago, não homens, mas ursos, três vezes maiores que o normal. Três entraram rapidamente pisoteando nobres e abrindo espaço para que mais três bestas entrassem no local.
Um homem, provavelmente o líder daquele ataque sem sentido, entrou empunhando duas espadas longas. Seu rosto, mesmo modificado pelo ódio, foi reconhecido por cada nobre no recinto. Era Darian, o Ranger.

O jovem narrador mais uma vez parou seu conto, percebeu o choque do soberano, que pareceu ser lançado dentro da história. Os olhos de Kalindorn brilharam com lágrimas antes esquecidas. O Bardo vislumbrou o sucesso de seu plano quando Arthur posicionou-se a alguns passos da única saída do salão.
Observou Robarff, desesperado, encarar a porta e por um instante achou que o prisioneiro cederia sua postura covarde e o atacaria. Mas nada aconteceu e ele continuou.


Garras, aço e magia se chocaram no grande salão, a magia predominava apesar de parecer não surtir efeito no mestre das feras, que derrubava um a um os cavaleiros que o atacavam, mas não sem, a cada inimigo derrotado, sofrer um ferimento.
A magia mostrava sua superioridade e a astúcia do mago real se fazia evidente ao lançar bolas de fogo bem posicionadas ferindo somente inimigos. Quando cessaram, apenas um urso e o homem restavam, lutando com o resquício de energia que ainda lhes restava. Por parte do rei, apenas dois soldados impediam bravamente o avanço dos atacantes.
O soberano beijou sua rainha e entregou-a para seu amigo arcano que, exausto, afastou-a para o fundo do salão. Empunhou sua espada e lançou-se ao combate cuja vitória já era certa.
O jovem Darian viu seu amigo, o último urso que ainda lutava, tombar. Sentiu então que faltava pouco para juntar-se a sua amada esposa e cambaleou. Em sua vista, os soldados embaralharam, somente o rei, permaneceu nítido, caminhando decidido a por um fim àquilo. Mas o intruso vingador viu seu alvo e, deixando escapar as lágrimas que denunciavam a bondade sufocada pela ira, desistiu de uma espada sacando rapidamente uma adaga e arremessando-a.
O rei viu a adaga passar veloz ao seu lado na altura do coração. Ergueu sua arma e, para que o sangue deixasse de verter em seu castelo, num único e poderoso golpe o matou. Somente quando verificou que a vida deixara o corpo do invasor, virou-se para Díanus. O conselheiro ajoelhava-se ao lado da rainha e do herdeiro que, atingidos pela furiosa lâmina da vingança, abandonavam o reino dos mortais.
Seu mundo desmoronou e com o urro de ódio, expulsou de seu peito a alegria.
O intruso morto levaria para seu túmulo o porquê do ataque. Um servo da natureza, desonrado e traidor que fora, seria enterrado como o criminoso que era, sem glória e sem lágrimas, condenado ao esquecimento.
Guardado em seu corselete, seguiu-o para o esquecimento a carta que Rob deixara à porta.
Ao menos assim seria se os deuses fossem injustos.


O jovem narrador mais uma vez parou seu conto, percebeu o choque do soberano, que pareceu ser lançado dentro da história. Os olhos de Kalindorn brilharam com lágrimas antes esquecidas. O Bardo vislumbrou o sucesso de seu plano quando Arthur posicionou-se a alguns passos da única saída do salão.
Observou Robarff, desesperado, encarar a porta e por um instante achou que o prisioneiro cederia sua postura covarde e o atacaria. Mas nada aconteceu e ele continuou.


Garras, aço e magia se chocaram no grande salão, a magia predominava apesar de parecer não surtir efeito no mestre das feras, que derrubava um a um os cavaleiros que o atacavam, mas não sem, a cada inimigo derrotado, sofrer um ferimento.
A magia mostrava sua superioridade e a astúcia do mago real se fazia evidente ao lançar bolas de fogo bem posicionadas ferindo somente inimigos. Quando cessaram, apenas um urso e o homem restavam, lutando com o resquício de energia que ainda lhes restava. Por parte do rei, apenas dois soldados impediam bravamente o avanço dos atacantes.
O soberano beijou sua rainha e entregou-a para seu amigo arcano que, exausto, afastou-a para o fundo do salão. Empunhou sua espada e lançou-se ao combate cuja vitória já era certa.
O jovem Darian viu seu amigo, o último urso que ainda lutava, tombar. Sentiu então que faltava pouco para juntar-se a sua amada esposa e cambaleou. Em sua vista, os soldados embaralharam, somente o rei, permaneceu nítido, caminhando decidido a por um fim àquilo. Mas o intruso vingador viu seu alvo e, deixando escapar as lágrimas que denunciavam a bondade sufocada pela ira, desistiu de uma espada sacando rapidamente uma adaga e arremessando-a.
O rei viu a adaga passar veloz ao seu lado na altura do coração. Ergueu sua arma e, para que o sangue deixasse de verter em seu castelo, num único e poderoso golpe o matou. Somente quando verificou que a vida deixara o corpo do invasor, virou-se para Díanus.
O conselheiro ajoelhava-se ao lado da rainha e do herdeiro que, atingidos pela furiosa lâmina da vingança, abandonavam o reino dos mortais.
Seu mundo desmoronou e com o urro de ódio, expulsou de seu peito a alegria.
O intruso morto levaria para seu túmulo o porquê do ataque. Um servo da natureza, desonrado e traidor que fora, seria enterrado como o criminoso que era, sem glória e sem lágrimas, condenado ao esquecimento.
Guardado em seu corselete, seguiu-o para o esquecimento a carta que Rob deixara à porta.
Ao menos assim seria se os deuses fossem injustos.


O silêncio tomou conta do recinto, o jovem bardo observou o soldado que parecia petrificado, observou então seu rei, que tinha lágrimas na face, não de comoção, pois também estava petrificado.
Era muito difícil para Kalindorn reviver o momento mais doloroso de sua vida. Ainda tentava assimilar a hipótese, do verdadeiro culpado, ter permanecido solto por tanto tempo e somava a isso o peso da morte de um homem que sofrera exatamente o mesmo que ele.
A voz do menestrel rompeu seus melancólicos pensamentos.


Ano imperial de 312, 1° Cheia de Juno

Vosso justo e glorioso soberano Kalindorn proclama:

Em todo o reino os impostos são pagos e o não pagamento é punido severamente, sem exceções.
Pelo não pagamento da taxa de 3 peças de ouro, com o poder da coroa e do cetro portados por minha família, eu te privo de animais terras e família, sendo os bens apreendidos e os vivos, mortos.
Tua presença nesse reino somente será admitida no pagamento de 10 peças de ouro a ser entregue aos cobradores de sua região.
Visto a má fama de tua classe, e a tendência para o caos e a violência dos rangers, eu te proíbo de aproximar-te das muralhas que protegem os humanos civilizados de seres como você. O não cumprimento desse termo é o caminho rumo a morte.
Que minha vontade seja feita.

Entregue por Robarff Lesser, cobrador da região do lago.



O bardo tinha em suas mãos o documento maltratado e o lia em voz alta. Entregou-o ao rei ao terminar e afastou-se para observar o resultado de sua trama. A sua volta todos, pasmos, olhavam para o soberano, aguardando sua reação, apenas Robarff fitava o bardo. Não havia para onde correr. Seu último fio de esperança estava no rei desacreditar que ele era o responsável pela desgraça que lhe roubou a vida. Esperança esta pulverizada quando o rei ainda em choque ordenou secamente:
- Levem-no para as masmorras, conversaremos mais tarde, tenho algumas perguntas antes de executá-lo.
Uma lágrima escorreu em meio ao desespero enquanto o prisioneiro era levado pelos guardas. Ao passar pelo bardo perguntou:
- Porque me chamou de amigo quando na verdade me condena a morte? Onde conseguiu a carta?
O Bardo pegou seu manto e chapéu enquanto respondia:
- Em momento algum lhe proclamei meu amigo, seu covarde maldito, me referia ao ranger que você levou a morte junto a sua adorável esposa. A carta salvei dos vermes que logo irá conhecer.
O soberano levantou-se e caminhou até o bardo e colocou a mão em seu ombro, pedindo perdão.
- Meu soberano, a maldade humana não é refletida pelo poder. Nem mesmo vós sois imune ao dano que uma mente pervertida pode causar. Pode parecer algo pequeno no momento, mas, como as ondas de uma pedra na água, atinge toda margem do lago. Trate a morte de um camponês como se fosse a morte de um irmão, pois assim o é. Robarff foi a espada que vos tirou a felicidade, mas a superioridade que ostentava, foi a mão que deu a chance da espada experimentar o sangue de vossa vida.
O rei concordou e proclamou:
- Erguerei um monumento para teu companheiro, tornando eternas as desculpas por meu erro. Teus amigos serão imortalizados em mármore lapidado pelos melhores artesãos anões do mundo.
O bardo colocou o manto e o chapéu e retirou-se dizendo ao rei, com pesar.
- Agradeço, mas de nada adianta tudo isso majestade, peço que tome como lição o que aprendeste hoje e que isso vos traga sabedoria para evitar outros como Robarff. Podes, porém, plantar um carvalho onde era a casa de meu amigo, ele e sua esposa ficarão felizes ao vê-lo.
O soberano franziu as sobrancelhas em indagação. O bardo encerrou antes de fechar a porta e deixar o soberano com seus pensamentos:
- Já deve ter ouvido diversas lendas sobre fantasmas que vagam procurando por amores perdidos... Há dois meses, quando eu visitava o túmulo que fiz para eles, fui surpreso pela aparição de seus espíritos, que me contaram o que houve e me pediram vingança. Com a verdade revelada dou a eles o descanso eterno, deixo, porém, o ponto final dessa tragédia convosco. Minha missão foi cumprida.



Por Leandro Reis Almeida
Crônicas de Grinmelken
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